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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ARTES E OFÍCIOS - V


6.24.5 - Artes e Ofícios


“Em 9 de Março de 1880, um grupo de rapazes fundava no Porto o Clube Velocipedista Portuense, a primeira agremiação velocipédica do nosso país, e em 18/7 o referido clube organizava a primeira corrida de velocípedes que houve em Portugal; em Lisboa só se organizaram alguns anos depois. A corrida foi em estrada, contra cronómetro, entre a Alameda de Matosinhos e o Passeio Alegre da Foz (cujo vencedor foi Aurélio Vieira que fez o percurso em 13 minutos e 8 segundos, em estrada com muito trânsito e mal cuidada)…


…Foi tão grande o seu êxito, que em Novembro seguinte se organizaram novas corridas – as chamadas “corridas de Outono” desta vez na Rotunda da Boavista.
Os jornais da época falaram, com espanto, do elevadíssimo número de pessoas que ali se juntou para presenciar as lutas que se travaram na improvisada pista; do extraordinário movimento de trens, de nunca vista afluência de gente nos Americanos, da grande quantidade de senhoras da nossa primeira sociedade que acorreu à função. 
O periódico humorístico de Sebastião Sanhudo, o famoso “O Sorvete”, dizia: 
“- Palavra que gostei… velocípedes a toda a brida, música de Caçadores, Senhoras entusiasmadas, convidados formalizados, muito povo a aplaudir os “cavaleiros”, muita chalaça aos mais ronceiros, muita animação, muita reinação e, sobretudo, muita satisfação. 
Tudo muito bom… gostei; para outra vez, fico freguês”. E, dizia ainda:
“- Agradou-me a função; falo com o coração na mão! Carlos Soares, Luis Vilares, Camilo de Almeida e Minchin, estes sim!
O Puls, o Sousa e o Tugman levaram sempre a vantagem… de correr atrás dos outros, como quem vai na bagagem…”. 
“- Senão fosse o garoto do Minchin, um inglesito azougado, desembaraçado, desempenado e que parecia desengonçado, a palma da victória, a grande glória tinha cabido toda aos portugueses”. Artur de Magalhães Basto em O Tripeiro Série V, Ano V.
Jorge Minchin Junior, o campeão, faleceu em 2/7/1939 com 77 anos


Campeão em 1880 – todo orgulhoso com as suas taças.


Jacinto Matos (horticultor), Abel do Nascimento Pereira Magro (escrivão de direito) e Cristóvão Lagoá (negociante) velocipedistas que participaram na corrida do Palácio de Cristal, em 9/12/1883 – foto de Agosto de 1945.


“Almeida Barros e Magalhães Campos, realisaram domingo passado, pelas 4 e meia da manhã, a corrida em bicycletas, desde o Club, Campo Pequeno, Villar, Campo Alegre, rua de António Cardoso, Bellos Ares e Boavista e vice-versa. A aposta entre os dois era de 10$000 réis e a condição era que: o primeiro que desmontasse em qualquer subida, perdia.
Magalhães de Campos, na subida de Villar, quasi ao cimo, teve de desmontar, seguindo sempre Almeida Barros, que foi sempre montado. Era vigia por parte do sr. Campos, Ernesto de Magalhães e por parte do sr. Almeida Barros, o sr. Dias, que acompanharam sempre os corredores.
Juiz de partida e chegada – Vidal Oudinot, o qual entregou a quantia de 10$000 réis ao vendedor”. O Velocipedista – 1893.


“Abilio Machado, José do Amaral, Baião, Meirelles, Mourão, Santos, Santos Vidal, irmãos Lopes e muitos outros, realisaram no domingo largos passeios, almoçando no campo, com um apetite, dizem, phenomenal. Maldita velocipedia!” O Velocipedista – 1893


“Foi tirada tirada num estúdio do Porto, na sua primeira viagem a esta cidade, cerca de 1894, esta foto do Infante D. Manuel [futuro Rei D. Manuel II]. (Cliché da Phot. União – Porto)” In Velocipedista.
“Pestalozzi, o celebre pedagogo, afirmava que no brincar da creança podiam vêr-se as acções futuras do homem. Por uma subtil revivescência de inclinações ancestrais, a mecânica, esse officio dilecto aos Orleans e aos Bourbons, exercia uma seducção irresistível sobre o pequeno Infante [ D. Manuel]. As suas mãositas travessas estendiam-se, súplices, para os relógios dos dignatários e dos familiares. Nada o entretinha como vêr caminhar os ponteiros nos mostradores de ouro ou porcelana, entre os algarismos romanos, e ouvir o tic-tac isochrono dos machinismos. O relogio era o grande mysterio fascinador, perante que se dilatavam os seus olhos meditativos. Os brinquedos que o interessavam eram, sobretudo, os de movimento. E a sua curiosidade avida exigia a explicação minuciosa dos segredos que faziam caminhar os comboios sobre os tapete e gesticular os polichinelos”. Foto e texto retirados do livro de 1908 de Carlos Malheiro Dias. In O velocipedista.

“Carlos Minchin, A. Machado, Peixoto, partiram para Braga no sabbado, em bicycleta, regressando domingo à noite, perfeitamente bem dispostos. Foram assistir às festas que a academia de Braga alli realisara”. O Velocipedista (1893)



Ciclista em Carreiros – Foz – 18/12/1897

“Que os velocipedistas medrosos – que não são em pequeno número, diga-se a verdade – se tranquillisem, certos de que podem entregar-se aos seus exercícios com a máxima confiança. Efectivamente, está demonstrado, por cálculos feitos sobre elementos estatísticos, que qualquer velocipedista tem uma probabilidade contra 680:000 de ser victima de um accidente velocipédico.
Nenhum outro meio de transporte nos offerece tamanha garantia de segurança”. “O Porto conta hoje perto de 2:000 velocipedistas sendo 500 montados”. In O Velocipedista de 1893.


Chalet do Palácio de Cristal, onde foi fundado, em 1893, o Real Velo-Club do Porto.

“Realisou-se na segunda-feira 11 do corrente, pelas 7 e meia horas da tarde na séde d’este club, no Palacio de Crystal, sob a presidência do snr. Dr. Paulo Marcellino, secretariado pelos snrs. Dr. Bento Vieiro e Antonio de Lemos, uma assembleia geral extraordinária.
Lida e aprovada a acta da sessão anterior foi lida uma proposta da direcção para se eleger presidente honorário, sua majestade el-rei.
Em seguida o sr. barão de Paçô Vieira (Alfredo), como presidente da direcção, participou á assembleia que sua majestade acabava de dar mais uma prova da sua amabilidade para com este club, concedendo-lhe licença para estabelecer um ‘velodromo’ na quinta do real paço dos Carrancas. Propôz que em vista d’esta generosa offerta e das demais provas de consideração já dispensadas, sua majestade el-rei fosse também nomeado socio benemérito.
O sr. dr. Paulo Marcellino, fazendo notar o valor e importância da concessão feita por El-Rei, alvitrou que a votação da preposta do sr. barão de Paçô Vieira fosse feita por acclamação . A assembleia acolheu com ruidosas salvas de palmas as palavras do sr. dr. Paulo Marcellino, sendo em seguida levantada a sessão.
A assembleia esteve numerosamente concorrida.
Foi enviado a Sua Magestade o seguinte tellegrama:
‘Ex.mo Camarista de Semana de Sua Magestade El-Rei – Lisboa – A assembleia Geral do Real Velo-Club do Porto acaba de votar enthusiasticamente, por acclamação, socio benemérito e presidente honorário Sua Magestade. Rogamos a V. Ex.ª queira dar conhecimento d’este facto ao mesmo Augusto Senhor, apresentando-lhe os nossos agradecimentos e protestos da mais profunda gratidão. – O presidente d’assembleia geral, Dr. Paulo Marcellino Dias de Freitas; o presidente da direcção, Barão de Paçô Vieira (Alfredo)”. Notícia d’O Velocipedista (1893).



Velódromo Maria Amélia – 1900 – foto de Humberto Fonseca (1877-1940)


Barão de Paçô Vieira, Presidente do Real Velo Clube do Porto e tribuna principal.


Real Velo Clube – 1937 – tinha campos de ténis

“Real Velo-Club do Porto – Já está concluída a pista do velódromo d’este Club, na quinta do palácio real, devendo ser posta à disposição dos sócios, para a trainagem, no próximo domingo 17 do corrente.
A tribuna principal, que é de um bello e elegante desenho, deve ficar concluída por toda esta semana.
Já foram nomeados os jurys para as corridas que teem de realizar-se ás 4 horas e meia da tarde do dia 29 do corrente, os quaes ficaram assim constituídos:
Juizes de chegada, conselheiro Campos Henriques, barão de Paço Vieira (Alfredo) e José Izidoro de Campos; juiz de partida Arthur Rumsey; fiscais de pista, Guilherme Andersen, Adolpho Vieira da Cruz, Henrique José da Cunha e Fernando Nicolau de Almeida; cronometro, John Minchin Junior.
Toda a obra do velódromo, construção da tribuna, etc., tem sido, desde o principio, dirigida pelo socio o snr. José Izidro de Campos, que a isso se prestou obsequiosamente.
Tem sido grande o numero de sócios ultimamente inscriptos.
Começou há dias a semear-se a relva no redondel do velódromo.
Calcula-se que a lotação das tribunas e lugares de peões seja approximadamente de 2:500 a 3:000 pessoas.
A commissão das corridas, convida os snrs. associados que desejem bilhetes de tribuna para a festa de inauguração, a requisital-os até ao dia 24 do corrente, d’esde as 8 horas da manhã ás 9 da noute.
A Direcção d’este Club, nomeou sócio, por acclamação , S. A. o infante D. Affonso, que sendo um distincto velocipedista, requereu n’esse sentido á mesma direcção”. O Velocipedista (1894).


No centro do circuito vêem-se os três campos de ténis.

Ainda nos lembramos de o ter visto há mais de 15 anos. Conservava do lado da R. do Pombal, hoje Adolfo Casais Monteiro, a cabeceira inclinada. Na foto podem ver-se: o presidente do clube, Barão de Paçô Vieira (Alfredo Vieira Peixoto de Vilas-Boas), Álvaro Miranda, Norberto Zagalo Ilharco e Benedito Ferreirinha.


Velódromo Maria Amélia, nome dado em honra da rainha, que existiu, entre 1894 e 1910, nas traseiras do Palácio dos Carrancas em terreno cedido por D. Carlos. Foi construído em 1895. A pista tinha 333,33 metros, pelo que em 3 voltas se percorriam 1000 metros. A bancada real que tinha 700 lugares e 50 camarotes para os sócios. Neste complexo havia também 3 campos de ténis, desporto muito pouco praticado nessa época. Há cerca de 15 anos, passando pela R. Adolfo Casais Monteiro, notámos que o portão de acesso ao antigo velódromo estava entreaberto e a curiosidade levou-nos a entrar. O local estava em obras, mas ainda conservava intacto a inclinação da curva do lado poente, mostrando perfeitamente a estrutura do circuito e restos dos antigos campos de ténis. 
Existiram ainda velódromos na Quinta de Salgueiros, pertencente ao Clube de Caçadores do Porto e na Serra do Pilar que eram muito concorridos. 


Velódromo Maria Amélia em Abril 2012 – in Biclanoporto


Como se pode ver acima, também se realizavam festas no velódromo Maria Amélia. Esta carta-convite informa que, no Domingo de Páscoa, se realizará “uma grande Kermesse” a favor do Dispensário Rainha D. Amélia. Porém, devido ao mau tempo só se realizou em 5 de Maio, duas semanas depois. Os bilhetes custavam: entrada geral 100 reis; Tribuna 500 reis.
Dois pormenores desta carta-convite têm interesse: verifica-se que a sede do clube se manteve no Palácio de Cristal e refere-se ao…


…futuro Dispensário Rainha D. Amélia que foi construído no largo onde existiu a Porta do Sol, a Capela de Santo António do Penedo,  a Sul da Casa Pia. Photo Guedes - 1900




1952 

Já na nossa juventude o F. C. do Porto teve ciclistas de grande valia. De 1946 aos anos 50 o grande “ídolo” era Fernando Moreira. O ciclismo foi nessa época muito popular e o povo falava apaixonadamente deste corredor. Venceu a Volta a Portugal em Bicicleta de 1948.


Faziam parte da equipa, que também venceu essa volta e que era composta por: (da esquerda para a direita) Fernando Moreira, Moreira de Sá, Dias dos Santos, Aniceto Bruno, Joaquim Costa, Joaquim Sá, Amândio Cardoso, Grausse e Berrendero, todos excelente corredores.



Ribeiro da Silva, Artur Coelho e Alves Barbosa

Nos anos 50 destacou-se o grande Ribeiro da Silva, da equipa de Académico F. C., que venceu as voltas de 1955 e 1957. Neste ano fez ainda uma época brilhante em Espanha e França. Muito mais era esperável deste desportista, mas morreu tragicamente num acidente de motocicleta em Abril de 1958.
Alves Barbosa foi dos mais importantes ciclistas portugueses. Venceu as Voltas a Portugal de 1951, 1956 e 1958. Também correu em Espanha e França.

sábado, 14 de setembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - VI

3.5.6 - Palácio da Cristal - III


Concerto em 1906 – foto Aurélio Paz dos Reis


Uma tarde infantil

Ramalho Ortigão conta-nos que no Natal de 1865, ano da abertura do Palácio de Cristal, se realizou um concerto dado por crianças na nave central. Actuou “o Sr. Artur Ferreira de Sousa, professor de 7 anos, é uma formiguinha com catarro, mas com o mais forte e profundo catarro com que se pode expectorar o talento. Este sujeito, com 4 palmos de alto, é um artista colossal. Sentou-se ao piano, ou antes sentaram-no… O rabequista Moreira de Sá cujo talento por diferentes vezes tem sido justamente apreciado pelo público. Artisticamente falando é um violinista de excelente escola. (Bernardo Moreira de Sá tinha 12 anos). Terminada a festa musical, recitou o menino Rebelo Valente algumas estrofes da suave poesia do Sr. António Feliciano de Castilho “O Natal do Pobre”. Apesar do seu artístico "aplomb" e do seu olhar perspicaz e firme, este menino sentiu ao entrar no tabelado que as pernas lhe não obedeciam à vontade sustentando-lhe erecta a dignidade da sua posição vertical. Foi então que o actor Taborda lhe bateu no ombro exclamando: “Avante, colega, e sem medo! Eu também tremo assim; nestas ocasiões todos os valentes tremem!”.


Almoço em honra de Afonso Costa – 1911 – Que luxo!!!



Restaurante  - casino


sala de estar


Foto de 1930

Foi o Palácio de Cristal um local dedicado à cultura na sua nave e no teatro Gil Vicente. Foi aqui que se realizaram importantes concertos do compositor e pianista Viana da Mota e da extraordinária violoncelista Guilhermina Suggia. Também se apresentaram os melhores actores do tempo. Esta sala foi muitas vezes cedida para realização de festas de beneficência, comemorações etc.
A C.M.P. punha-a à disposição da cidade, pois não havia muitos outros locais do género. 
Em 1934 a C.M.P. adquiriu o Palácio de Cristal. 


Guilhermina Suggia (1885-1950) foi uma grande violoncelista portuguesa.

Nascida na freguesia de São Nicolau, no Porto, Guilhermina iniciou os seus estudos com o pai, Augusto Suggia, de ascendência italiana, actuando em público a partir dos 7 anos de idade. Foi aluna do violoncelista catalão Pablo Casals e de Julius Klengel, no Conservatório de Leipzig, na Alemanha. A apresentação de Guilhermina com a Orquestra da Gewandhaus, em 1901 em Leipzig, marcou o início de uma brilhante carreira internacional. Reencontrou Casals, mais tarde, em Paris, onde viveram juntos e actuaram por toda a Europa, muitas vezes, com Casals a maestro e Guilhermina como solista. Separam-se em 1913. 
A partir da Primeira Guerra Mundial, Londres tornou-se o principal centro de actividade de Guilhermina Suggia. Num regresso a Portugal em 1923, conheceu José Carteado de Mena, médico e director do Instituto Pasteur do Porto, com quem casou 4 anos depois, tendo o escultor Teixeira Lopes por padrinho. O casal fixou-se no Porto. 
Nos últimos anos da sua vida, Guilhermina Suggia dedicou-se ao ensino. O último grande acontecimento da sua carreira internacional verificou-se em 1949, altura em que actuou em Edimburgo, com a Orquestra Escocesa da BBC. A preferência de Guilhermina Suggia pela obra para violoncelo de Bach levou a que se dissesse na época que ela própria havia reinventado as suites para violoncelo, com o seu estilo virtuoso e inconfundível, tornando-a uma das grandes referências de sempre da música erudita. 
A figura da famosa violoncelista inspirou o livro "Guilhermina" do romancista Mário Cláudio, publicado em 1986.

Em 1942 assisti, neste mesmo teatro, a uma festa de Natal da Paróquia do Carvalhido, na qual actuaram as irmãs Trigueiros, uma das quais, com 4 anos, vim a conhecer dez anos depois e que veio a tornar-se minha mulher.


Jardim lateral em 1876




Avenida das Tílias e Capela Carlos Alberto


Lago original – Projecto do arquitecto belga Florent Claes.


Jaulas dos animais – ainda vimos a aldeia dos macacos, o leão, os gorilas e diversas aves.



Tem uma torre com maravilhosas vistas sobre o rio – foto de 1904





O “chalet” já não é do nosso tempo, mas ainda vimos a gruta que, na nossa memória, se chamaria de Camões. Neste “chalet” existiu o clube de ciclismo antes de ser transferido para as trazeiras do Palácio dos Carrancas.


A população elegante do Porto deslocava-se, principalmente ao Domingo, para admirar as maravilhosas vistas sobre o Douro, o mar, Gaia, os seus lindíssimos jardins, almoçar e tomar chá na Avenida das Tílias.