Mostrar mensagens com a etiqueta Abertura de ruas importantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abertura de ruas importantes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de julho de 2015

GOVERNO POLÍTICO - V

5 . 4 - Governo Político - V

Abertura de algumas ruas importantes - II


Rua da Santa Catarina – planta de 1774 – Texto da planta: "Alinhamento da Rua de Santa Catarina do lado da quinta do capitão ? da qual se corta tudo o que he necessário deste lado esquerdo huma linha recta como se vê da cor amarela que vai notada em este plano. Porto 12 de Dezembro de 1774”


Na Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha Freitas pode ler-se “No ano de 1662, havia em Fradelos uma quinta que era senhorio directo o Dr. João Freire de Melo, com uma capela de invocação de Santa Catarina Martir. Essa quinta partia de banda de nascente “ com o caminho que vai de Fradelos para a Porta de Cima de Vila”. Este caminho é o mais remoto antepassado que conhecemos da actual Rua de Santa Catarina… Já designada Rua Nova de Santa Catarina a encontramos mencionada em certo documento da Misericórdia em 1748. No Plano de Urbanização proposto por João de Almada e Melo em 1784, inclui-se o prolongamento da rua até à Aguardente (hoje Praça Marquês de Pombal). A este novo troço da artéria se chamou Rua Bela da Princesa… Também por urbanizar estavam todos os terrenos compreendidos entre Santo António, Santa Catarina, a viela da Neta e a das Pombas (onde está hoje o Grande Hotel do Porto). Eram quintas e terrenos pertencentes a D. Antónia Adelaide Ferreira, a “Ferreirinha”, e a Francisco da Cunha Guimarães, onde mais tarde se rasgaram as ruas de Sá da Bandeira e Passos Manuel.”

No Boletim dos Amigos do Porto Nºs. 1 e 2 de 1960 encontra-se esta planta de 1793, desenhada pelo Arq. Teodoro de Sousa Maldonado, em que se podem ver as ruas: A - Rua Nova de Santo António, B – Rua de Santa Catarina, C – Santo Ildefonso, D – Congregados, E – Rua do Bonjardim, F – Calçada da Teresa (hoje Rua da Madeira). A Rua de Santa Catarina está aberta só até perto da actual Rua de Passos Manuel. 


Projecto para Rua Nova de Santo António - Arquitecto António Pinto Miranda

A Rua Nova de Santo António foi decidida construir pela Junta das Obras Públicas numa sessão de 1784, cuja acta informa: “entre o Bairro de Santo Ildefonso e o do Bonjardim, se deviam abrir duas ruas de comunicação entre estes dois bairros na forma da planta que se acha delineada sobre o plano extraído do terreno intermédio. Que a primeira dessas ruas deve principiar a sua abertura na frente do pátio da Igreja dos Congregados e seguir a sua direcção em linha recta a desembocar na frente da Igreja de Santo Ildefonso…cujo declive se suavizará alteando o seu pavimento do princípio dela, e rebaixando o que for necessário no seu fim”. 
Começou a ser aberta em 1785. Chamou-se-lhe Rua Nova de Santo António dada a existência de uma Rua da Santo António, no cimo da Rua dos Clérigos, e actual Rua de Conde de Vizela.


“A sua construção, como é fácil de imaginar, foi um tanto difícil devido à natureza ou topologia do local. Basta dizer que, os prédios nela erguidos têm mais andares para as traseiras do que para a frente, em vista da fundura em que os alicerces tiveram de ser cavados. Por esse motivo, foi a rua, em alguns pontos, assente em fortes arcadas de pedra que, por baixo, davam – e dão ainda- passagem de um para o outro lado. Na embocadura, teve de fazer-se uso de estacaria, por se espraiar até ali a chamada “mina do Bolhão” que abastecia de água o Convento de Avé Maria”. O Tripeiro Série VI, Ano IV.


Já um dia verificámos isso mesmo e descobrimos, na Rua da Madeira, uma entrada de serviço do Teatro de Sá da Bandeira, e outras passagens. Também na Rua de 31 de Janeiro existe, há muitos anos, uma entrada com escadas para este teatro.
Devido a todas as dificuldades de construção, só foi concluída em 1805, já depois da morte de Francisco de Almada e Mendonça.


“O lugar do Bonjardim, em Liceiras, vem mencionado no testamento do bispo D. Vicente Mendes, em 1296. Passou à posse do Cabido que em 1427 o emprazou ao arcediago do Porto, Diogo Anes… é preciso dizer que a estreita e tortuosa artéria de que nos ocupamos, era a primitiva estrada se não romana, pelo menos medieval, saindo do Porto pelo postigo, depois Porta de Carros, levava, pela Aguardente ( Praça Marquês de Pombal) e Cruz das Regateiras (Hospital do Conde de Ferreira), a Guimarães e outros lugares além.” In Toponímia Portuense de Eugénio Andreia da Cunha Freitas.


Em O Tripeiro Série VI, Ano VI, Horácio Marçal escreve: “a Rua do Bonjardim, que hoje se estende da Rua de Sá da Bandeira até à praça do Marquês de Pombal, em meados do séc. XIX, terminava um pouco adiante do Largo do Bonjardim, actual Largo do Dr. Tito Fontes. 
Deste ponto para cima, até à embocadura da Rua do Paraíso, chamava-se Rua do Bairro Alto e, daqui, até ao Marquês, tinha o nome de Rua da Aguardente. 


Da Rua do Bonjardim, também chegou a fazer parte o troço compreendido entre os cunhais das Ruas de Sampaio Bruno e de Santo António, agora integrado na Ruas de Sá da Bandeira. Antes de ser Bonjardim foi Rua da Porta de Carros… O sítio do Bonjardim é antiquíssimo. Há notícia dele no fim do séc. XIII”. 


Na cidade do Porto existiam dezenas de cruzeiros que foram retirados no séc. XIX. Na Rua do Bonjardim havia uma Via Sacra à qual Horácio Marçal de refere da forma seguinte: “Queremos deixar aqui registado o facto de ter havido nela, dum e doutro lado da rua uma série de cruzes de pedra com imagens, pintadas, de Cristo Crucificado, que faziam parte de uma velha via sacra. Essas cruzes, em 1869, foram removidas para o cemitério da Igreja de Santo Ildefonso, não sem alguns reparos por parte das pessoas devotas.”
Houve mesmo grande dificuldade em convencer os residentes a deixarem retirar estas cruzes. Refira-se que o cemitério de Santo Ildefonso se encontrava nas traseiras da igreja.


Quinta de Santo António do Bonjardim – planta de Balk, de 1813

“Gonçalo Cristóvão Teixeira Coelho de Melo Pinto da Mesquita, senhor de Teixeira e de Cergude, e da Quinta de Santo António do Bonjardim, planeou em 1831, iniciar a urbanização desta sua vasta e bela propriedade, então às portas da cidade. Para isso e com parecer favorável do Corregedor, de 19 de Janeiro de 1832, alcançou uma Provisão, em 8 de Fevereiro seguinte, para ceder parte desses terrenos à Câmara. Mas só por escritura de 31 de Dezembro de 1838 se efectivou esta cessão abrindo-se no ano seguinte de 1839 três artérias: a Rua Nova do Duque do Porto, hoje Rua de João das Regras, a de Camões e a de Gonçalo Cristóvão. Esta que faria a ligação entre as ruas de Santa Catarina e do Bonjardim com o Campo de Santo Ovídio actual Praça da República, dizem-no que recebe o nome do doador por expressa imposição deste. Nos terrenos marginais das três artérias subemprazou depois seu filho e sucessor José António Teixeira Coelho de Melo Pinto da Mesquita, chãos para edificar, o que se fez rapidamente, com o consentimento do senhorio directo que era o Cabido da Sé do Porto.” In Toponímia Portuense de Eugénio Andreia da Cunha Freitas. 
A Rua de Gonçalo Cristóvão só chegou à do Bonjardim em 1839, e a Santa Catarina anos mais tarde pois, teve que se devastar uma grande pedreira aí existente. Parte desta ainda hoje é visível a Poente do Silo-Auto.


Terreiro de S. Lázaro em 1798


Projecto do Jardim de S. Lázaro – João Baptista Ribeiro – 1830


Visto de satélite


Em 27/1/1833 - D. Pedro IV ordenou o ajardinamento de S. Lázaro


O historiador Dr. Artur de Magalhães Basto descreve assim a vida deste jardim em meados do séc. XIX: “ Em dia de música, S. Lázaro é o ponto de reunião elegante. Quase se não cabe lá, tal é a multidão que ali passeia com ar endomingado e solene. Há bancos por toda a parte, mas os que primeiro se enchem são os que estão em volta do pequeno lago central. Vêem-se sentadas meninas (…) flanqueadas pelo terrível papá, que nestes momentos perde um pouco da sua costumada ferocidade (…) e que por isso, não repara nos leões namoradores, que lá ao longe, confundidos na turba, ou meio encobertos pelo arvoredo, lhes desinquietam as filhas. Enquanto a música dura, eles e elas fingindo-se absortos na contemplação inocente do jacto de água que repuxa o lago, trocam á sorrelfa olhares incendiários de mistura com suspiros e ais tirados do âmago do peito. O Jardim de S. Lázaro por 1850 era isto: um campo de batalhas de amor, onde não corria sangue, mas onde por vezes não faltavam lágrimas.”
Este belo jardim deixou de ser frequentado pela gente grada da cidade quando, em 1865, se abriram os novos jardins do Palácio de Cristal. Passou a ser frequentado por soldados, sopeiras, empregados de comércio etc.


De um forasteiro do sul de 1908 “ Nos centros de movimento portuense, vemos o contraste da senhora luxuosamente vestida caminhar ao lado da mulher de trabalho, suja e descalça, do janota acotovelar o carreiro imundo (ou lavrador, como lhe chamam no norte) e dos ricos automóveis, tão abundantes no Porto, se misturarem com os numerosos e quase primitivos carros tirados pelos pequenos bois do Barroso, de cangas rendilhadas que fazem todos os serviços de carga necessários ao comércio da cidade”.


José Xavier Mouzinho da Silveira foi um importante estadista, jurisconsulto e político português e uma das personalidades mais marcantes da revolução liberal, operando, com a sua obra de legislador, algumas das mais profundas modificações institucionais nas áreas da fiscalidade e da justiça.
Não podemos tratar da Rua de Mouzinho da Silveira sem primeiramente referirmos o Rio da Vila, que esta fez encanar. O Rio da Vila era um local muito poluído e mal cheiroso, pois os despejos das casas da Rua das Flores e circunvizinhas eram para lá atirados. Na Rua da Biquinha havia os Aloques da Biquinha que eram os depósitos de estrume e lixos da cidade, ao ar livre, nas trazeiras das casas da Rua das Flores, e na Rua da Biquinha havia os pelames ainda mais mal cheirosos, que escorriam e pioravam o ambiente daquela zona. Os aloques foram fechados pela CMP em 1854.


Rio da Vila – Maqueta do Porto medieval na Casa do Infante


Saída do Rio da Vila - também conhecido por rio da Cividade, por passar perto do Morro da Cividade - começa em frente da Igreja dos Congregados e resultava da junção de duas ribeiras; uma nascida na rua do Paraíso e outra na Fontinha, que no lugar de Fradelos se chamava de Ribeira de Fradelos. O Rio da Vila foi coberto, na sua parte final, quando da abertura da Rua Nova de S. João, ordenada por João de Almada e Melo em 1765. 
Em 1874 começou a ser encanada a porção ainda ao ar livre, desde o Largo do Souto à Rua Nova de S. João, quando da construção da Rua de Mouzinho da Silveira, que lhe passa por cima. Aprovado que foi o projecto de Luis António Nogueira em 17/6/1875, a sua abertura fez demolir muitos e variados edifícios e ruas tais como: a Capela de S. Roque, o lindíssimo Largo do Souto, o Hospital e Capela de S. Crispim e S. Crispiniano, e a Rua das Congostas. A Rua Mouzinho da Silveira foi aberta em duas fases: a primeira de S. Bento à Rua de S. João e a segunda até à Rua Infante D. Henrique. Só terminaram as obras alguns anos depois.
Por piada o povo diz que foi a primeira ETAR da cidade pois milhares de taínhas alimentam-se dos esgotos arrastados pelo Rio da Vila.


Projecto da Rua de Mouzinho da Silveira


Rua de Mouzinho da Silveira no S. João de 1886


Rua Mouzinho da Silveira actualmente

Descobertas arqueológicas nesta rua - vídeo 


Planta da abertura da Rua da Constituição, desde a Rua da Rainha (actual Antero de Quental) para poente, na zona do Monte Pedral – 1867
Inicialmente esta rua chamou-se de Vinte e Sete de Janeiro. Partia do Largo da Aguardente (Praça Marquês de Pombal) até à Rua da Rainha. Aí terminava em 1843
O nome de 27 de Janeiro foi-lhe dado, em 27/1/1842, quando Costa Cabral aclamou, no Porto, a Carta Constitucional. 
O troço que actualmente liga a Praça do Marquês de Pombal a Fernão de Magalhães começou a abrir-se em 1858.
O lanço que parte da Rua de Antero de Quental, através ao Monte Pedral, até à Estrada do Matadouro (hoje Rua de Serpa Pinto) só começou a abrir-se em 1890, muito embora estivesse previsto desde 1840.


O Monte Pedral, tal como o nome indica, era a maior pedreira do Porto e fornecia pedra a grande número de construções na cidade. 
Só em 1890 estava suficientemente devastado de forma a ser possível abrir a continuação da Rua da Constituição. 
Durante largo tempo só existiu uma estreita passagem para peões e carros de bois. 


O F. C. do Porto tem, desde 1913, um campo de futebol na Rua da Constituição.


Rua de Sá da Bandeira aberta só até à Rua de Fernandes Tomaz – ainda não existia o novo mercado do Bolhão e ainda não se vê nenhum automóvel – em primeiro plano, á direita, o Teatro de Sá da Bandeira e a casa de venda de papeis pintados que supomos ser da Fábrica Veludo ou dos papeis pintados da Foz.


Vista aérea da baixa do Porto em 1930, anterior às grandes demolições para abertura do Largo Afonso Henriques. Vê-se o Bairro da Sé, a Sé, a Igreja de S. Lourenço (grilos), o Largo e Rua do Corpo da Guarda, a Estação de S. Bento, as barcaças no Douro, a Alfândega, o Palácio da Bolsa, o mercado Ferreira Borges, o antigo Convento de S. João Novo, a Igreja e Torre dos Clérigos, a actual Reitoria da Universidade, a Cadeia da Relação, o antigo Convento de S. Bento da Victória, o jardim da Cordoaria, a Praça da Liberdade, o Palácio das Cardosas o Hospital de Santo António, etc. À direita vê-se, em construção, o edifício do Banco de Portugal que seria inaugurado em 1934.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

GOVERNO POLÍTICO - IV

5 . 4 - Governo Político IV

Abertura de algumas ruas importantes - I



Gravura de J. Holland (1838)


foto do Barão de Forrester


Rua Nova dos Ingleses - 1861

Inicialmente chamada R. Formosa ou Fermosa por D. João I, R. Nova, R. Nova de S. Nicolau (em 1788), R. Nova dos Ingleses (até 1883), Rua dos Ingleses (até 1890), actual R. do Infante D. Henrique. Deixou de ser Rua dos Ingleses em 1890 como reacção de toda a cidade contra a nação inglesa pelo Ultimato.
Eugénio Andrea da Cunha Freitas escreve: “ Entre os anos 1395 e 1405, mandou El-Rei D. João I, o de Boa Memória, abrir uma nova artéria, para enobrecimento da cidade a que tanto queria, e onde nascera seu filho Infante D. Henrique. Rua Formosa lhe chamou o monarca, “a minha Rua Formosa”… pouco depois começou a denominar-se Rua Nova, tirando o topónimo a outra Rua Nova que de então para cá se chamou Rua Escura. Conservou por muito tempo as duas designações: Rua Formosa (ainda em 1468) e Rua Nova já em 1418… Concentrando-se em volta da Feitoria Inglesa, iniciada em 1785, o principal comércio portuense, realizado então com negociantes britânicos, passou a rua a denominar-se Rua Nova dos Ingleses, designação que tinha já em 1794, depois só Rua dos Ingleses.”

Gravura do Barão Forrester – Nesta gravura veem-se comerciantes ingleses e portugueses em frente da Feitoria, em encontro para tratarem dos seus negócios – o barão de Forrester autorretratou-se: está à direita com chapéu branco.
  

Esta foto foi tirada entre 1888 e 1900, pois ainda não se tinha erigida a estátua do Infante D. Henrique e já se vê o Mercado Ferreira Borges. Repare-se que o Americano vai, a partir daqui, puxado por 6 mulas para poder subir a Rua Mouzinho da Silveira. A designação de "americano" provinha do facto de tais carruagens serem fabricadas nas oficinas estado-unidenses de John Stephenson & Company.
Ao fundo está o Palácio da Bolsa, da Associação Comercial do Porto. Começado a construir em 1842.
Do site da Associação Comercial do Porto retiramos os seguinte trechos: “Ao longo de três gerações, grandes nomes da arquitectura, da pintura, da escultura e das artes decorativas contribuíram para a criação de um espólio e um património único no Palácio da Bolsa, verdadeira jóia do estilo neoclássico do séc. XIX, do Arq. Joaquim da Costa Lima ao Arq. Marques da Silva, do Pintor António Ramalho, a Veloso Salgado, António Carneiro ou Medina, de Soares dos Reis a Teixeira Lopes.”


Planta da Ribeira e da Rua de S. João – 1765? – Neste tempo ainda a Rua da Fonte Taurina se chamava Rua Aurina

Segundo a Toponímia Portuense de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas “a Nova Rua de S. João, como primeiro se chamou ( e ainda na Planta redonda de Balck, em 1813, tem esta designação), começou a abrir-se em 1765, mas logo surgiram grandes dificuldades e consequentes pleitos por motivo das expropriações, principalmente levantadas pelos senhorios dos prédios enfiteuticos. Resolveu-as El-Rei D. José, em 1769, determinando por alvará régio um processo sumário para tal fim...Ainda em 1784 se cuidava dos alinhamentos da rua. 


O Padre Agostinho Rebelo da Costa refere-se-lhe já na sua Descrição Topográfica e Histórica da cidade do Porto, em 1789. O nome de S. João foi-lhe dado, cremos, em homenagem a João de Almada. Era, como todos sabem a rua de maior comércio no séc. XIX” 



Carros de bois esperando a sua vez de carregamento, na Ribeira, em frente à Rua de S. João


Esta foto é insólita, pois está ao contrário. Vê-se a Rua de S. João á direita e a dos Mercadores à esquerda. ARC trata da Ribeira noutro capítulo, pelo que nós seguiremos a sua sequência.


Rua das Flores vista do largo da Porta dos Carros – 1849/1859 – foto de Frederick Flower

A Rua das Flores foi mandada abrir por D. Manuel I em 1518 para ligar o Largo de S. Domingos ao Largo da Porta dos Carros. Assim, o trânsito de mercadorias passou a ser muito mais fácil e directo da Ribeira à saída da cidade. Inicialmente chamou-se Ruas de Santa Catarina das Flores por ter ocupado muitos e belos campos pertencendo à Igreja. Daí, ainda hoje, se encontram casas antigas com a marca do bispo, roda de navalhas, ou do cabido, o Arcanjo S. Gabriel. Foi, através de séculos, uma das ruas mais importantes do Porto, onde os nobres e burgueses construíam as suas casas. Muito rica em trabalhos de ferro nas varandas, das mais belas do país. Foi chamada a rua do ouro pelos muitos fabricantes e comerciantes de ouro e prata que tinha. Ainda nos lembramos de algumas muito famosas tais como a Aliança, a Rosas, Pedro A. Baptista, das Flores, Coutinho etc… Do lado esquerdo havia muitas lojas de panos e malhas, sobretudo armazéns de venda por grosso, que também desapareceram.
Nas suas cantigas o povo dizia:

Adeus cidade do Porto
Adeus Rua das Flores;
De um lado tens só ourives,
Do outro tens moradores.

Dada a desertificação do centro da cidade, esta zona esteve muita decadente, mas em grande processo de reabilitação. No início da rua encontra-se a Santa Casa da Misericórdia, de que já tratamos em 24/5, 28/5, 1/6, 5/6 e 10/6 de 2014. Dos edifícios mais notáveis podemos encontrar a antiga casa dos Ferrazes Bravos, depois vendida aos Maias, que lhe deu o nome, dos Cunha Pimentel e da Companhia Velha.


Rua das Flores – séc. XIX – vê-se o Convento de S. Bento de Avé Maria




A riqueza das suas varandas – do blog Vida em Fotos


Casa dos Ferazes Bravos, depois Casa dos Maias, como hoje é conhecida


Casa da Companhia

Video da Ourivesaria Pedro A. Baptista 


Sendo nossa intenção escrever sobre a Rua do Almada, pareceu-nos que antes de a apresentar, deveríamos fazer as considerações que se seguem: 
Na sua importantíssima obra sobre o Porto do séc. XVIII, A.R.C., surpreendentemente, não se refere uma só vez a João de Almada e Melo. 
Tanto no urbanismo como nas estruturas política, económica e cultural, João de Almada e Melo e seu filho Francisco de Almada e Mendonça foram os impulsionadores das grandes transformações que se deram na cidade na segunda metade do séc. XVIII e primeiros anos do XIX. Na História do Porto coordenada pelo Professor Oliveira Ramos lemos: “Na segunda metade do séc. XVIII, momento de grande dinamismo económico e demográfico, urgia resolver três problemas centrais, cuja solução irá constituir o cerne das realizações urbanísticas da Junta das Obras Públicas. Tratava-se de dar dignidade e monumentalidade à Praça da Ribeira, centro comercial da urbe, e de melhorar as comunicações entre esse centro e a zona alta da cidade, cada vez mais populosa. Paralelamente, tornava-se necessário ordenar o crescimento da zona extramuros, que estava a processar-se de uma forma rápida e desorganizada… Com a abertura de novas ruas, pretende-se não só definir as grandes linhas de expansão da cidade extramuros, mas ainda facilitar as principais ligações entre a cidade e o seu “interland. Assim, as novas vias integram-se num plano mais geral de regularização das velhas estradas que ligam o Porto a Braga (Rua do Almada - Campo de Santo Ovídio – Rua do Sério), à Póvoa (Cordoaria – Praça dos Ferradores – Ruas de Cedofeita – Carvalhido), a Penafiel e ao Douro (Batalha – Rua de Santa Catarina – Praça da Aguardente)… O crescimento do Porto e o alargamento e centralização das funções do Estado na perspectiva do despotismo esclarecido, obrigam à implementação de novos organismos e equipamentos públicos em domínios diversos, desde a assistência ao ensino, do policiamento ao abastecimento e à organização económica”. 

De referir que foi sob o seu governo que se reconstruiu a Cadeia e Tribunal da Relação, e se edificaram o Hospital Novo da Misericórdia, hoje Hospital de Santo António, o Quartel de Santo Ovídio, a Academia de Marinha e Comércio, o Real Teatro de S. João e outras importantes obras.
Porém, não nos parece tão surpreendente este silêncio de A.R.C. sobre o Almada pai, pois estamos convencidos que uma boa parte da população não apoiava as medidas que estavam a ser tomadas pelo governador por razões várias:
- João de Almada e Melo foi enviado para o Porto, que conhecia bem e onde tinha uma residência, pelo “todo-poderoso” Marquês de Pombal com a primeira função de “descobrir” e castigar os responsáveis pela Revolta dos Taberneiros, o que fez zelosamente, seguramente em demasia. Foram condenados 478 réus, dos quais 26 à pena de morte e efectivamente enforcados 17. Em lugar próprio trataremos mais pormenorizadamente esta tragédia. Foi, portanto um início de governo muito impopular.
- O povo da cidade desconhecia os planos das grandes transformações, pois estes estavam restringidos aos gabinetes dos dirigentes.
- As construções das novas vias exigiam grandes demolições e incómodos, tais como, muitos desalojados e avultados prejuízos para as famílias atingidas.
-A Junta das Obras Públicas era subvencionada pelo imposto de um real por cada quartilho (1/2 litro) de vinho que entrasse na cidade, o que novamente aumentou o preço deste produto tão consumido e importante na economia familiar. 
Lembremos que quando da fundação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, poucos anos antes, o vinho já tinha sido aumentado e foi a razão da Revolta dos Taberneiros.
- Vivia-se em Portugal um período de absolutismo muito duro e castigador, o que era contrário ao centenar espírito livre dos portuenses. Os Almadas representavam-no na sua política intransigente e policial.
- O povo do Porto sempre quis e conseguiu governar-se a si mesmo, apesar de muitas lutas e disputas com o poder central e episcopal. Neste caso estava a ser dominado por um absolutista vindo de Lisboa, trazendo consigo muitas pessoas da sua confiança que, seguramente, não eram portuenses.
- É significativo que não exista qualquer representação, pictórica ou outra, de João Almada. 
O militar inglês Arthur William Costigan (em Cartas sobre a sociedade e os costumes de Portugal - 1778/9, traduzidas por Augusto Reis Machado), que viveu no Porto em casa do cônsul John Witehead, dá-nos dele a seguinte descrição: “ Sua Excelência é de muita idade e parece-se muito com um esqueleto; tem o corpo fraco e pequeno, nariz em bico de águia, acentuadamente curvo. Lamenta assiduamente os pecados da mocidade, melhor, o pecado, pois no respeitante a excessos a gente deste paíz só conhece um; foi este, confessa ele, que o reduziu a tão deplorável situação. É diminuta a sua capacidade e não dispõe de talento, embora lhe sobre boa vontade e o desejo de exercer o cargo com imparcialidade. Pratica todo o bem que pode e não faz mal a ninguém, apesar de muitas vezes poder fazê-lo. Eis uma rara e louvável qualidade, pois a maior parte dos portugueses, quando investidos de autoridade exercem-na plenamente, fazendo aos outros o maior mal que podem”. 
- Por todas as razões que expusemos, não nos surpreende que o Padre Agostinho Rebelo da Costa, um conservador avesso a grandes mudanças, considerasse João de Almada e Melo personagem não recomendável, daí o seu silêncio “ensurdecedor” pela sua impossibilidade de escrever contra ele. 
Por curiosidade referimos o seguinte: João de Almada casou, aos 48 anos , com D. Ana Joaquina de Lencastre, em 1752. Do casamento nasceram dois filhos, tendo sido seu sucessor no cargo de Corregedor o segundo, Francisco. O mesmo John Costigan descreve D. Ana Joaquina e seus filhos da forma seguinte: “ Bondosa e cortês, alta e bem feita, outrora bela, pintada até às orelhas e por toda a parte, cobrindo-se de pó de arroz para disfarçar a pintura. Apesar dos seus numerosos filhos de três maridos (dois, na verdade), pois foi muito pretendida pelas suas qualidades pessoais e pela sua nobre ascendência, ainda é bela. Esses 20 filhos são notáveis: os rapazes por uma estupidez que resistiu a todos os professores, embora, devido à influência materna, ocupem lugares importantes na Igreja, no Exército e na Justiça (o que não inibe a incapacidade dos mesmos). As raparigas, pela sua leviandade, até neste país notada. Mercê do facto, à respeitável senhora os gracejadores do país aplicaram o cognome de mãe dos burros”. 
As referências aos escritos de Arthur Costigan foram recolhidas no Boletim dos Amigos do Porto de 1960, Vol. III, por Oliveira Ramos.


Igreja e postigo de Santo Elói e Muralha Fernandina antes de ser tapado o postigo e aberta a Porta de Santo Elói, posteriormente, do Almada.


Planta de D. José Campalimaud de Nussane – 1790
A- Igreja e Convento dos Loios; B- Cerca; C- Adro cedido para a nova Praça dos Loios; D- Torres projectadas; E- Muralha com a lomba na Praça das Hortas, que foi destruída para a construção do novo Convento.

Para que a Rua do Almada tivesse a utilidade que se pretendia, ligar de forma rápida a Praça da Ribeira ao Campo de Santo Ovídio, seria preciso resolver o estrangulamento provocado pelo estreito Postigo de Santo Elói, tapando-o, e construir uma nova porta larga mesmo em frente à Rua da Hortas, hoje do Almada. Houve que a Câmara e os frades Loios chegassem a acordo para a abertura de uma praça em frente à porta da sua Igreja, sem que a Câmara tivesse qualquer despesa. Assim, concordaram, em Julho de 1764, que os frades cedessem parte do adro da sua igreja e comprassem várias casas existentes em frente, demolindo-as por sua conta. Em troca receberiam o corredor intramuros que ia da nova porta até à Porta dos Carros, em frente aos Congregados.




Desta forma, destruídas as referidas casas e mais uma parte do adro, nasceria uma larga praça, hoje Praça dos Loios, na qual seria construída, pela Câmara, a nova Porta de Santo Elói, terminada em 1766. Em 1794 os frades foram autorizados a demolir a muralha que dava para a Praça Nova das Hortas e a construir um majestoso edifício com a frontaria para esta praça. Em 1833, por decreto de D. Pedro IV, foram os seus bens confiscados, não estando ainda terminadas as obras. A igreja e o mosteiro, virados para a Praça dos Loios, foram destruídos por estarem em estado ruinoso, em 1833.


Planta do bairro das Laranjeiras e rompimento da Rua do Almada, por Francisco Xavier do Rego, 1761 – História de Portugal do Dr. Artur de Magalhães Basto – Planta existente no Gabinete de História da Cidade 
Analisando esta planta sugere-nos fazer os seguintes comentários: 
- A parte inicial da actual Rua do Almada chamava-se Rua das Hortas, e terminava na de S. António dos Lavadouros, depois dos Lavadouros, em parte, designada hoje por Rua Elísio de Melo e o restante destruído quando da abertura da Avenida dos Aliados. 
No mapa a Rua de S. António dos Lavadouros seguiria, para poente, pela antiga Rua da Picaria, que estava no lado Norte da actual Praça de Filipa de Lencastre e onde ainda existe a casa onde esteve instalado o tribunal em que Camilo e Ana Plácido foram absolvidos. A actual Rua da Picaria é a antiga Travessa da Picaria, que termina na Praça da Conceição, hoje com o horrível nome de Mompilher. 
- A rua prevista para ser iniciada junto aos lavadouros de cima até à confluência com a Rua do Almada e Praça de Santo Ovídio não foi construída. Existia sim a Travessa da Douda ou da Doida, que veio a chamar-se Rua das Liceiras e, mais tarde, do Alferes Malheiro. 
- A parte nascente do Monte da Douda foi destruída, possivelmente para a construção da Igreja da Trindade. Muitos anos ali se encontrou uma inestética pedreira. 
- A rua marcada com “rua que se abre” nunca chegou a sê-lo. O mesmo aconteceu com a rua desenhada desde a Rua de Santo Ovídio às Liceiras. 
- A começar na Praça da Conceição, para nascente, já está desenhada as Travessas do Pinheiro e do Laranjal, actual Rua de Ricardo Jorge. 
Em 29 de Julho de 1760 D. José autorizou a construção da Rua do Almada. As obras de abertura e calcetamento começaram em 1761 e duraram até 1786. Foi delineada por Francisco Xavier do Rego. 
O autor escreveu na sua planta: “ A nova rua tem bem meio quinto de légua de comprido; pareceu preciso alargar-se a nova rua desde a boca da dita Rua das Hortas até ao fim da rua delineada, principiando logo em 32 palmos de largo, que é mais 2 palmos do que tem a Rua das Hortas, e acabando em 52 palmos junto de …(?) e isto para emendar a pouca largura que tem a Rua das Hortas e não ficar parecendo esta grande rua demasiadamente estreita”. Como se verifica o projectista construiu uma rua 4,40 metros mais estreita no início do que no final! A rua cortou parte do terreno de João Gomes, e o que sobrou veio a chamar-se Quinta do Pinheiro. 
A Rua do Almada envolve 3 freguesias: Victória, lado poente desde a Rua dos Clérigos à Rua Ricardo Jorge; Cedofeita, lado poente desde Ricardo Jorge à Praça da República; Santo Ildefonso, todo o lado nascente. 


Muito interessante comparar esta planta somente 52 anos depois da anterior. Nota-se perfeitamente a rápida evolução que a construção da Rua do Almada, Praça Nova e Praça do Laranjal trouxeram a esta zona da cidade.


Planta de Teles Ferreira de 1892 – a cidade, nesta zona, já é quase a actual. A Avenida dos Aliados  ainda não aparece nesta planta, pois só começou a ser aberta em 1916.


Comercialmente foi, durante muitos anos, a rua do comércio das ferragens e cutelarias. Hoje ainda tem algumas casas deste ramo. Referindo-se a esta actividade comercial, dizia Sousa Viterbo: "Parecia aos sábados uma feira de gado, tantos eram os burros dos ferreiros sertanejos, que chegavam ajoujados de ceiras de pregos, e partiam carregados de verguinhas de ferro, em feixes, ao longo da albarda, levados pela Rua do Almada acima num trotesinho miúdo e diligente, que batia os grandes lajedos da calçada com um ruído festival de castanholas."