Mostrar mensagens com a etiqueta Câmara Medieval. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Câmara Medieval. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de maio de 2017

REVOLTA DO PAPEL SELADO - 1661

8.1.8 - Segunda revolução do papel selado 



Papel selado de 1663 – Fundação Dr. António Cupertino de Miranda



Ruínas da Câmara Medieval antes de 1934


Outra perspectiva -1930




Na actualidade, depois das obras do Arq. Fernando de Távora



Papel selado 1831



Marca de água - Fábrica da Azenha - Paços de Brandão -1860


A razão profunda desta revolta não foi só o imposto sobre o papel selado. Este foi o pretexto de grande revolta que havia no povo e nos artífices devido aos muitos e altos impostos que os Filipes e o pós-1640, os governos haviam lançado para poder recuperar as finanças esvaídas durante este período de instabilidade e guerra.
A principal consequência foi a extinção da casa dos 24 por vários anos.


Papel selado de 1886 – Inst. Geográfico Português


Papel selado da Monarquia do Norte - 1919


Até 1986


D. Afonso VI

Segue-se um excelente e esclarecedor texto de autoria de Bruno Pinheiro, Marcelo Magalhães e Tiago Reigada, no site http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8847.pdf

“1661: Motim do Papel Selado Após sessenta anos de domínio filipino, Portugal restaurava, em 1640, a sua independência. Porém, o prolongamento das guerras com Espanha e a diminuição das receitas do Estado consequentes deste cenário, bem como das provenientes de circuitos comerciais enfraquecidos, levou à necessidade de se lançarem novos impostos. Esta era, então, a única forma de conseguir retirar as receitas necessárias para fazer frente a um deficit que em 1642 era de «394425 cruzados anuais». Para além de novos «tributos», D. João IV recorre, à semelhança do que acontecia em Espanha desde 1637, ao imposto do Papel Selado.
A concretização da aplicação deste imposto tornar-se-ia, porém, realidade por Alvará 24 de Dezembro de 1660, instituído por D. Luísa de Gusmão, regente do reino, dando como justificação o «perigo de uma invasão por parte do reino vizinho». Este imposto foi aplicado de imediato, mas sofrerá alguma contestação em vários locais do reino, como foi o caso da cidade do Porto («O Porto foi a cidade que maiores preocupações causou à Coroa»). A revolta no Porto decorreu no dia 4 de Maio de 1661. Nessa manhã decretou-se a ordem «para que não despachaze papel, que não fosse do Sellado». Perante este facto, os procuradores do povo resolveram dirigir-se à Câmara «aonde se estava tratando d’escrever a sua Mag.de» para nomear aqueles que iriam à Corte expressar as preocupações do povo. Dessa forma, entraram na câmara os procuradores do povo, ficando fora da mesma «o povo [que] herão Rapazes, alguas mulheres, e poucos Homens». Com a notícia de que os procuradores estariam a ser coagidos a aceitar o imposto, logo o povo se amotinou, gritando as palavras de ordem usuais «Viva El Rey D. Affonço – e morrão Traydores». Uma vez iniciado o motim, este não parou de crescer, quer no número de pessoas, quer no grau de violência («bradando ao povo se ajuntou mais gente» (…) «Quebraram as janelas e portas com pedradas, (…) [e] tomado pelos Rapazes e mulheres, com unhas e dentes (como ouvia muitas pessoas) o [papel selado] fizerão em pedaços»). Os percursos da revolta levaram os amotinados até junto daqueles que estivessem directa ou indirectamente implicados na aplicação do imposto do papel selado, como o tesoureiro da cidade, o recoveiro, o juiz da alfândega, ou o corregedor da comarca. Paralelamente, com o intuito de credibilizar a sua acção, o povo tenta dar força à sua manifestação através da implicação dos procuradores no motim. Em todo este processo, para além da escalada de violência, não podemos deixar de destacar o papel do clero ao longo do motim que, «com boas palavras» conseguiu «atalhar o furor do povo». Contudo, na noite seguinte surgia a notícia de um segundo motim, desta vez por parte dos clérigos. Mas, chamado o procurador «p.ª por cobro a couza, (…) elle desculpando aos Clerigos lhe afirmou, forão estes m.ta parte em pacificar ao Povo a quem Sua Sn.ria tratou de aquietar». As consequências práticas deste motim implicaram, em primeiro lugar, a mobiliza- ção para a cidade de 4000 soldados de infantaria 500 de cavalaria; depois a extinção da Casa dos Vinte e Quatro, declarada pela rainha, explicando que «esquecida da obrigação que tinha de quietar e sossegar esse pouco fora a principal causa dos motins […]» em terceiro lugar procedeu-se à destituição dos procuradores do povo, alterando-se a designação dos representantes do povo para «zeladores», para que não ficasse na memória a palavra «mester»; foram ainda decretadas penas menores para os participantes do motim, sendo perdoada a participação das mulheres («as mulheres faço merce de perdoar»). Analisando, agora, as questões de liderança, surgem, inevitavelmente, questões relacionadas com a autoria e comando destas acções. Segundo as descrições da fonte utilizada, a agitação começa quando surge o rumor de que, dentro da câmara, estariam a obrigar os procuradores do povo a assinar a autorização para se impor o papel selado. Por aquilo que nos foi dado a perceber, a posição extremada do povo poderá ter sido agudizada pela posição indefectível dos mesteres em rejeitar o tributo. A este facto somar-se-á ainda a questão da solidariedade da cidade, mais concretamente do povo, em relação aos seus representantes. Por isso, e embora para o povo o imposto sobre o papel selado não se traduzisse em perda efectiva, a afinidade para com os seus procuradores gerou a revolta. Eram, pois, as classes sociais privilegiadas quem mais perdia com a imposição do papel selado. A utilização do papel selado recaía, essencialmente, sobre actividades cuja prática pertencia, maioritariamente, às pessoas mais abastadas, fossem elas, mercadores, clero, grandes proprietários ou letrados. A revolta de 1661 pode enquadrar-se na teoria de conduta colectiva, descrita por Santos Julia. Esta mobilização espontânea surge como reacção face aos rumores que indicavam coacção sobre os procuradores do povo para a aprovação do papel selado. Ora, se a autoria moral e intelectual pertence, no nosso entender, aos procuradores do povo, temos que relevar, como autoria material, a participação de algumas mulheres e crianças. Sabemos, no entanto, que esta situação se deve apenas ao facto destes serem, como refere Bercé, inimputáveis aos olhos da lei pelo que é compreensível que surjam conotados como autores efectivos do tumulto, resguardando aqueles que teriam um papel mais importante no decorrer da revolta, nomeadamente elementos do sexo masculino, mais facilmente condenados. Paralelamente, é também referido que os clérigos tiveram uma actuação de relevo no decorrer destes episódios. Se, numa primeira fase, podemos comprovar (pela fonte citada anteriormente) que estes tiveram um papel importante na acalmia dos populares há, numa segunda fase, a insurreição do clero contra o papel selado. Analisando este facto, é fácil perceber a importância deste imposto para uma classe como o clero, uma vez que a sua condição social – proprietários de terras, elaboração de registos – obrigava a uma utilização frequente do papel selado. Esta posição do clero poderia, no nosso entender, ser transmitida ao povo, e este tê-la tomado como sua sendo, por isso, o principal impulsionador da revolta. Uma vez mais, neste motim, são visíveis as lutas pela liderança da cidade. Apesar de não termos acesso à versão da vereação do Porto, não deixa de ser surpreendente que a rainha mande extinguir a Casa dos Vinte e Quatro após este motim. À semelhança do que acontecera em 1592 com o corte das prerrogativas desta instituição, alguém terá apontado os mesteres como líderes da revolta”. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

DOS PRIVILÉGIOS E ISENÇÕES QUE A ILUSTRAM, DAS ACÇÕES MEMORÁVEIS E GLORIOSOS TÍTULOS QUE A ENGRANDECEM - PRIVILÉGIOS SINGULARES - II

7.1.2 - Privilégios singulares II - D. Manuel I, Foral de D. Manuel I, Câmara Medieval, Torre da Rolaçom, Casa dos 24 


Em 1502 D. Manuel I retirava ao Porto o privilégio de não albergar nobres pelo que os cidadãos da cidade consideraram uma ofensa aos privilégios e liberdades centenárias. Consideravam os portuenses que se pretendia favorecer D. Pêro da Cunha Coutinho que mantinha um diferendo com a cidade porque este pretendia construir uma casa em Monchique.
E tinham razão os portuenses dado que, em carta de 7/7/1503, mandava que fosse desembargada a construção, pois era esse o seu desejo. Foi nesta casa que, em 1533, se estabeleceu o Convento de Monchique.Porém, em 17/3/1505, D. Manuel revogava a anterior decisão, embora com a restrição de não poder habitar no Porto qualquer fidalgo com um ofício e dele vivendo.




Foral de D. Manuel I ao Porto - 20/6/1517 

D. Manuel I outorgou ao Porto um foral que tinha como principais regras a justiça, a sociedade, a economia e a fiscalidade. Destaca-se a incidência na fiscalidade e portagens dos artigos que entravam e saíam.


Mapa de G. Balk – 1813

“Sobre a "planta redonda" de George Balck, publicada há 200 anos, recebemos o interessante texto de Cesar Domingos Gonçalves Jesus, que muito agradecemos:
Decorre este ano o bicentenário da publicação da chamada planta redonda de Balck, que ocorreu em Londres, a 12 de Agosto de 1813. Posteriormente veio a ser, também, publicada em Lisboa, já com algumas correcções.
Esta é a mais antiga planta que se conhece da cidade do Porto, tendo sido desenhada para fins militares. Tem sido atribuída a sua autoria a George Balck que foi assistente do quartel-mestre general do exército britânico que integrou o exército luso-britânico durante, pelo menos, a 2.ª invasão francesa, em 1809.
Até ao momento não se conhece o original da planta, nem os estudos de apoio para a sua elaboração, sendo certo que, na época, e em diversos momentos, diversas personalidades se referirem a outros estudos e plantas de pormenor da cidade.
Conforme se constata da planta, ela é oferecida ao brigadeiro-general Sir Nicholas Trant, comendador da Ordem da Torre e Espada e encarregado do Governo das Armas do Partido do Porto.
Trant acompanhou o general Wellesley, durante a 2.ª invasão francesa a Portugal. Enquanto o general persegue os franceses até à fronteira, Trant fica no Porto a organizar a cidade. É nomeado encarregado pelo próprio Wellesley, no dia seguinte à sua chegada ao Porto, em 13 de Maio de 1809, permanecendo no cargo até 1814. No entanto, e tendo em conta as vicissitudes da guerra, de facto, exerce o cargo de 1811 a 1814. Problemas de saúde, levam-no a pedir a demissão do cargo. Trant obteve a Comenda da Ordem da Torre e Espada em virtude da bravura e competência demonstrada na conquista da cidade de Coimbra aos franceses, com um pequeno exército constituído somente por soldados portugueses. Em sua honra ainda viu serem cunhadas duas moedas em ouro. Faleceu em Inglaterra em Novembro de 1839. In site Porto Desaparecido


“ Era no alpendre ou casa segunda do Mosteiro dos religiosos de S. Domingos, no Porto, que em tempos remotos se realizavam certas e determinadas sessões. Foi ali, naquele local que se efectuou a primeira sessão da Câmara Municipal do Porto, depois que esta Colectividade tomou aquele carácter. Verificou-se essa primeira sessão no dia 24 do mês de Junho da era de 1428, correspondente aos Anos de Cristo de 1390. 
Consta na respectiva acta, existente no arquivo da câmara que as suas sessões se verificavam no local que já mencionei. Essa acta está assinada pelos juízes Gonçalo Donis, Affom Moreira e pelos vereadores Domingues Pires, Vicente Donis, João Gomes, procurador Gil Gonçalves servindo de escrivão da câmara o tabelião Vasco Martins.” 


Local onde esteve a Câmara - 1930, antes das obras das décadas de 30 e 40 no bairro da Sé.


Torre da “Rolaçom” - Após 1940

Durante quase toda a época moderna esteve instalada na “Torre da Rolaçom”, perto da Sé, mas no séc. XVI, voltou a reunir-se nos alpendres daquele convento dado se encontrar em quase ruína.
“Em 1784 mudou para o antigo Colégio de S. Lourenço e 11 anos depois para a Casa Pia”.


A Câmara esteve, entre 1815 e 1916, na Praça das Hortas


Feira Medieval - História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão

Em 1 de Janeiro de 1518 D. Manuel criou a Casa dos Vinte e Quatro do Porto com o mesmo Regimento da de Lisboa.
“A Casa dos 24 era constituída originalmente por 24 oficiais, 2 de cada mister eleitos pelos seus pares. A eleição fazia-se não numa sessão plenária em que todos participavam e votavam, mas sim no interior de cada corporação. Difícil é dizer quais eram as que deputavam delegados seus para a instituição. Durante os anos da sua longa e irrequieta vigência no Porto (desde a reorganização em 1518 até à extinção definitiva em 1834) variaram não só os ofícios representados como o número de representantes de cada um deles. Sabemos no entanto que em 1613 o espectro profissional presente na Casa era o seguinte: 
Sapateiros – 3 elementos 
Sombreireiros – 2 
Alfaiate – 1 
Barbeiros – 2 
Correeiros – 2 
Pedreiros – 2 
Tanoeiros – 2 
Cordoeiros – 1 
Carpinteiros – 1 
Baínheiros – 1 
Sorradores – 1 
Ferreiros – 2 
Picheleiros – 1
Embora não conheçamos por todo o período aqui estudado nenhuma acta tão pormenorizada, sabemos que o elenco de profissões representada não se manteve fixo” In História do Porto, Francisco Ribeiro da Silva. 
A Casa dos 24 foi extinta em 1757, após os incidentes da Revolta da Companhia, quando da vida para o Porto do Governador João Almada e Melo.



História do Porto - Luis Oliveira Ramos