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sábado, 16 de novembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXII

3.5.9 - Botequins e cafés - I

Desde princípios do séc. XIX os portuenses criaram o hábito de frequentar os botequins passando o tempo em amenas conversas (por vezes menos amenas) em que os assuntos mais discutidos eram a política, as novidades do dia, a beleza feminina etc. Passavam horas a jogar cartas, damas, dominó, quino e outros jogos. Inicialmente eram só os homens que frequentavam estes lugares porém, mais tarde também as senhoras começaram a lá conviver, embora de início isso fosse mal visto por certas camadas sociais e pessoas mais recatadas.
As mulheres do Porto quase não saíam de casa, salvo para Igreja ou acompanhadas com seus maridos ou pais para visitas sociais. Surge, porém, em 1786 um belíssimo soneto do Abade de Jazente em que as incita a mostrarem-se e a frequentarem ambientes novos. Porque o achámos muito interessante aqui vai:




Botequim do Frutuoso – Praça dos Carros frente à Igreja dos Congregados.

Os primeiros botequins de que há notícia no Porto, datam de 1820. São eles:
O Botequim do Sr. Frutuoso – na Porta dos Carros, encostada à muralha Fernandina, frente à Igreja dos Congregados. O proprietário era pai do Arcebispo de Calcedónia D. António Aires de Gouveia, catedrático de Direito em Coimbra, deputado de 1861/65, ministro da Justiça em 1865, 1892 e Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1895. A sua tese versou a Reforma das Cadeias. Destacou-se pela luta contra a pena de morte em Portugal.
O prédio foi demolido em 1894, ao mesmo tempo do Mosteiro de S. Bento de Avé Maria e o troço de Muralha Fernandina que lhe ficava encostado. 


Local onde existiu o Botequim das Hortas – pertenceu a Domingos José Rodrigues.

O Botequim das Hortas – na Rua das Hortas, hoje Rua do Almada, esquina com a Rua da Fábrica. Este botequim existiu 60 anos, até 1880. Era frequentado sobretudo por comerciantes da Rua das Flores e dos Clérigos. Era conhecido por servir óptimo café. Ramalho Ortigão escreve a seu respeito: “ O velho Botequim das Hortas, em que à noite se jogava o loto, a vintém o cartão, e que, ao abrir-se uma das suas portas envidraçadas, guarnecidas da cortininha de cassa branca, enchia de um picante perfume de calda de capilé e de café torrado a rua toda… Cafés do Porto de Maria Teresa Castro Costa.
Em 1880 foi transformado em Restaurante do Porto e os andares superiores ocupados pelo Hotel Internacional. 


“…O Botequim da Rua de Santo António, inaugurado em 1851, segundo as palavras do Dr. Artur de Magalhães Basto: ”Era a inveja dos lisboetas pelo seu gosto e luxo e um viveiro de “libertinos”; quem ali entrasse a tomar capilé e demorasse dez minutos saía cínico. Havia quem fosse lá para jogar “candidamente”, o quino e o bilhar, mas, em geral, quem se sentava àquelas mesas marmórias espostejava “a sã moral”… como cadáver combalido em teatro anatómico”. –In O Tripeiro, Série VI, Ano IV.                  
A sua entrada era pela porta de acesso ao Teatro Circo, depois Príncipe Real, do lado esquerdo quem sobe. Ainda hoje existe esta porta que dá acesso ao Teatro de Sá da Bandeira.


Botequim do Pepino – Foi conhecido por Arnaldo Gama e Alberto Pimentel e, o prédio onde esteve no muro dos bacalhoeiros, a poente da porta dos banhos, foi destruído para a abertura da Rua Nova da Alfândega. Portanto existia em meados do séc. XIX. 
Arnaldo Gama, no seu livro O Génio do Mal, escreve: “O botequim do Pepino tinha as traseiras imundíssimas voltadas para um pequeno largo, que por uma travessa sempre suja comunica com Cima do Muro. A frente, um pouca mais limpa estava voltada para o rio. 
A casa tinha 3 andares, incluindo o térreo. N’este é que era o botequim; nas traseiras, que davam para cima do muro havia uma saleta suja e imunda, que não sei como era chamada na gíria da casa, mas que na dos frequentadores era conhecida pela “Casa dos Horrores”. Os andares de cima eram a vivenda do dono da casa, mas quando havia “mais obra”, serviam como qualquer outra para o “ganho”. 
O café era mobilado por bancos e mesas de pinho. As duas portas traseiras tinham vidraças, que já nem mesmo nos dias claros deixavam entrar mais do que uma luz duvidosa, do que uma claridade de dia invernoso, tal era a espessa capa de anosa imundície, que o tempo e as exalações de toda a espécie tinham ido acumulando sobre elas. De noite era alumiado por um candeeiro de latão de 4 bicos, suspenso do tecto. A mais de três quartas partes do comprimento da saleta havia um balcão de pinho coberto de manchas de toda a qualidade, inclusive sangue; e por trás dele estava sempre, majestosamente sentado numa poltrona do séc. XVI, já quase sem vestígios arqueológicos, ou de pé, mão sobre um copo de quartilho e a outra enfiada na algibeira, o Sr. António Porto vulgo “O Pepino”, respeitável proprietário do estabelecimento.”
Alberto Pimentel também se lhe refere em O Porto na Berlinda da seguinte forma: “Esse botequim de “matalotes” e “camareras” da Ribeira, passou à história. O proprietário foi que deu o nome ao estabelecimento, mas é de crer que da gentalha que o frequentava e da reles camaradagem deles e delas, proviesse o calão “Pepino, Pepineira e ”. Se assim é o Porto pode gabar-se de ter fornecido a etimologia de dois derivados bodalengos: “De “Fajardo, fajardice” de “Pepino, pepineira”.
Ainda no texto de Maria Teresa Castro Costa, Cafés do Porto, pode ler-se: “era frequentado por marinheiros e prostitutas. Muito falado na época em virtude do escândalo que causavam à vizinhança a gritaria e as cenas de violência muito usuais pela noite dentro. Corriam boatos que os marinheiros estrangeiros endinheirados depois de lhe terem conseguido o dinheiro ao jogo, eram atirados ao rio. O boato nunca foi confirmado porque o Pepino “adivinhava” a chegada da polícia. Era um antro mal afamado onde se bebia muito e também se cantava o fado".
A mocidade da época, muitas vezes acabava as noites, depois de fechados todos os locais de convívio da cidade.”


Joaquim Vilanova - 1833

Botequim do Amaro - Por cima do muro da Ribeira existiu este botequim, no qual foi fundado, em 4/11/1876, o Clube Fluvial Portuense, pelos entusiastas do remo David José de Pinho e o proprietário do botequim José Pereira de Santo Amaro, onde se manteve durante dois anos, passando para a Travessa de S. João, 13 2º andar. Sobre este clube trataremos com mais pormenor em local próprio.


Em O Tripeiro da Série III, de 15/10/1927, encontrámos um interessantíssimo testemunho de João Pimentel sobre a sua frequência diária no Café Lisbonense, no final do séc. XIX : “Já vai perdido na recordação dos dias distantes o velho café Lisbonense que eu e outros meus companheiros frequentávamos todas as noites. O Café Lisbonense ficava na Rua do Bonjardim, do lado direito (no troço que hoje é Rua de Sá da Bandeira, entre a Rua de 31 de Janeiro e Sampaio Bruno). Um bom salão, que se dividia em dois, sendo o da frente para a especialidade do café com as suas mesas de mármore e cadeiras para os seus velhos frequentadores. Atraía uma frequência numerosa e distinta, do meio intelectual do Porto. Numa das primeiras mesas do lado esquerdo era a nossa. Depois das 8 horas vinham chegando um por um. A nossa despesa diária era baratinha: uma chávena de café para cada um, a 30 reis por cabeça; bebidas brancas nenhumas. Nesta mesa havia alegria, mocidade e vida! Discutia-se tudo, nada ficava para a noite seguinte. O Lisbonense nessa época tinha boa música; um terceto completo de verdadeiros mestres. Os concertos do Café Lisbonense marcaram pelo sucesso de Arte que eles faziam todas as noites durante o Inverno. No salão de trás ficavam os bilhares, também com a sua numerosa clientela. Quando o D. Francisco da Prelada jogava com o seu filho o número de espectadores crescia extraordinariamente para os ver jogar!”. 
No primeiro andar havia também a secção de restaurante, com duas entradas: uma pela Rua do Bonjardim (nº 24) e outra pelo então nº. 41 da Rua de Santo António. 
No Lisbonense, quase sempre em mesas certas reunia-se tudo quanto havia de mais distinto na cidade, quer nas Letras, quer nas Ciências, quer nas Belas Artes. Era, digamos assim, um verdadeiro cenáculo de intelectuais”.
Mais tarde instalou-se, no local, o Banco Borges & Irmão.


Este fidalgo era D. Francisco de Noronha e Menezes, proprietário da Quinta da Prelada, uma das maiores e mais afamadas da cidade. Ele e seu filho eram exímios jogadores de bilhar e espalhavam esta sua arte em vários botequins da cidade, que atraía muito público masculino. O seu filho faleceu aos 25 anos em resultado de uma tuberculose. D. Francisco pouco lhe sobreviveu. Não havendo qualquer outra descendência deixou à S.C.M. do Porto a sua quinta com o desejo de aí ser construído um hospital para convalescentes. Faleceu em 1904.


Café Brasil, no gaveto das Ruas de 31 de Janeiro e da Madeira – fundado em 1859 – tinha duas mesas privativas para o dominó: a dos “cardeais” onde se sentavam Guilherme Braga e Paulo Falcão e a dos “Indígenas” de Arnaldo Leite, Carvalho Barbosa, Sampaio Bruno e Ramalho Ortigão. Era um local privilegiado pois existia nesse largo a feira da madeira (tabuado, barrotes etc.) e, às terças –feiras a feira semanal de géneros alimentícios no largo fronteiro ao Convento de S. Bento de Avé Maria.


Cafés do Porto – Maria Teresa Castro Costa

terça-feira, 25 de junho de 2013

CARÁCTER, GÉNIO E COSTUMES DOS PORTUENSES - II

3.2 - Carácter, Génio e Costumes dos Portuenses


Café Brasil, no gaveto das Ruas de 31 de Janeiro e da Madeira – fundado em 1859

Desde o séc. XIX os portuenses criaram o hábito de frequentar os botequins passando o tempo em amenas conversas (por vezes menos amenas) em que os assuntos mais discutidos eram a política, as novidades do dia, a beleza feminina etc. Passavam horas a jogar cartas, damas, dominó, quino e outros jogos. Inicialmente eram só os homens que frequentavam estes lugares porém, mais tarde também as senhoras começaram a lá conviver, embora de início isso fosse mal visto por certas camadas sociais e pessoas mais recatadas. Em capítulo próprio trataremos com mais pormenor este assunto.


Em O Tripeiro da Série III, de 15/10/1927, encontrámos um interessantíssimo testemunho de João Pimentel sobre a sua frequencia diária no Café Lisbonense, no final do séc. XIX : “Já vai perdido na recordação dos dias distantes o velho café Lisbonense que eu e outros meus companheiros frequentávamos todas as noites. O Café Lisbonense ficava na Rua do Bonjardim, do lado direito (no troço que hoje é Rua de Sá da Bandeira, entre a Rua de 31 de Janeiro e Sampaio Bruno). Um bom salão, que se dividia em dois, sendo o da frente para a especialidade do café com as suas mesas de mármore e cadeiras para os seus velhos frequentadores. Atraía uma frequência numerosa e distinta, do meio intelectual do Porto. Numa das primeiras mesas do lado esquerdo era a nossa. Depois das 8 horas vinham chegando um por um. A nossa despesa diária era baratinha: uma chávena de café para cada um, a 30 reis por cabeça; bebidas brancas nenhumas. Nesta mesa havia alegria, mocidade e vida! Discutia-se tudo, nada ficava para a noite seguinte. O Lisbonense nessa época tinha boa música; um terceto completo de verdadeiros mestres. Os concertos do Café Lisbonense marcaram pelo sucesso de Arte que eles faziam todas as noites durante o Inverno. No salão de trás ficavam os bilhares, também com a sua numerosa clientela. Quando o D. Francisco da Prelada jogava com o seu filho o número de espectadores crescia extraordinariamente para os ver jogar!” 


Este fidalgo era D. Francisco de Noronha e Menezes, proprietário da Quinta da Prelada, uma das maiores e mais afamadas da cidade. Ele e seu filho eram exímios jogadores de bilhar e espalhavam esta sua arte em vários botequins da cidade, que atraía muito público masculino. O seu filho faleceu aos 25 anos em resultado de uma tuberculose. D. Francisco pouco lhe sobreviveu. Não havendo qualquer outra descendência deixou à S.C.M. do Porto a sua quinta com o desejo de aí ser construído um hospital para convalescentes. Faleceu em 1904.



Confeitaria Serrana – Rua do Loureiro – tecto de Acácio Lino 




Dos anos 40 a 70 do séc. passado era nestas confeitarias que se reuniam, à tarde, as "madames" da alta roda portuense. Tinham feito as suas compras e, aí, iam desenferrujar a sua "má" língua. Eram muito "caritativas" pelo que de vez em quando organizavam os "chás de caridade" contra os quais o Padre Américo tanto desancou.


Reconstituição da Farmácia Estácio 

A Farmácia Estácio, situada na Rua Sá da Bandeira deve o seu nome a Emílio Faria Estácio (1854-1919), farmacêutico da Universidade de Coimbra.
Nos armários da farmácia, estão representados os bustos de ilustres farmacêuticos e químicos, que ocuparam cargos de destaque nas instituições do Porto, no início do século XX. No final dos anos 40, surgem anúncios à balança falante da Farmácia Estácio, tornando-se um ícone da baixa portuense dessa época, chegando mesmo a formarem-se filas à sua porta a fim de se pesarem. O cliente subia para a balança e o seu peso era-lhe transmitido por uma funcionária “escondida” no piso inferior. Nos anos 70, a afluência era de tal ordem que existia uma funcionária destacada unicamente para este serviço. Em 1975, um fogo de grandes proporções na Rua Sá da Bandeira, atingiu a Farmácia Estácio e destruiu grande parte do seu interior, incluindo a célebre balança.


Rua dos Clérigos - anos 50/60


Espelho da Moda e Rua dos Clérigos engalanada no Natal - a nova fachada foi inaugurada em 8/12/1945 - projecto e decoração do Arquitecto Amoroso Lopes.

O comerciante do Porto era muito cioso da sua reputação na “praça” e na continuidade do seu negócio. Por vezes os pais não autorizavam os filhos a ir estudar para Coimbra com receio que seguissem outra profissão e a sua casa não tivesse continuidade. E, por vezes, aqueles que tiravam uma formatura, regressavam ao estabelecimento do pai. Pelo menos um dos filhos deveria manter a tradição da família.



O “Pasmatório dos Loios ou Real Clube dos Encostados” – era assim chamado o passeio em frente ao Palácio das Cardosas onde, ao fim da tarde e não só, se juntavam os artistas, poetas, escritores, enfim a intelectualidade da cidade, conversando e discutindo os assuntos mais variados.


Em 26/9/1897 começou a ser usado nesta cidade o encerramento das lojas ao Domingo. Houve porém, como seria esperável, uma grande oposição dos patrões, pois era para eles um grave prejuízo. Vários anos demorou a ser observado este costume.  Recordámo-nos de ouvir contar que os caixeiros tinham permissão de sair, ao Domingo, até às 11 h. da manhã para poderem assistir à Missa Dominical. Mas, nesse tempo, os Sábados e os Domingos eram, com a terça-feira, os dias em que mais negócio se fazia. Terças e sábados por serem, tradicionalmente, os dias das feiras mais importantes que traziam à cidade muitos milhares de visitantes.


Ribeira – comércio local – Foto Beleza


Comércio internacional - Foto Beleza


Murillo – cerca de 1670


Em O Tripeiro, Série V, Ano X encontramos uma interessante descrição, de autoria de Amadeu Cunha, sobre costumes da juventude dos princípios do séc. XX: “Extensa, estreita, a subir até ao campo, algumas vezes a rua (do Almada) fora aproveitada para “feeries” de luminárias sanjoaninas. Janelava-se bastante ao longo dela, em matéria de namorio. Era a época do pigarro e do lenço branco passado pelas vias respiratórias como senhas de enamoramento… Até à Picaria era toda colmeia activa. Daí para cima a residêncialidade desacompanhava-se de lojas, pouso de famílias ditas de tratamento… Naquele curto espaço de rua esses ádvenas, ao maior número dos quais mal pungia o buço, suscitaram estranheza, desconfiança… Tratava-se desinquietar as meninas do sítio, em idade de namorar. Habitualmente às tardes, após o jantar, aquelas varandas engraçavam-se da animação delas, que espaireciam, se distraíam, metiam a riso, segregando uma às outras, para os lados. Posto que a rua, rebarbativamente burguesa, andasse, por uma variedade de episódios, em efabulações camilianas e até nas próprias realidades biográficas do romancista (Camilo e Ana Plácido habitaram esta rua) todo o desretraímento entre elas e os rapazes se reduzia, unicamente, a simples, risonhos e a recíprocos brincos de expressão amável sem qualquer trejeito a mais”.



Carolina Michaelis de Vasconcelos e seus netos – 1851-1925 – Além de grande investigadora e professora, tinha uma grande paixão pela cozinha.

Alberto Pimentel, no seu livro “O Porto há 30 anos” escreveu, em 1893, sobre a vida da dona de casa: “ As damas portuenses de há 30 anos dedicavam-se em geral, à sua casa e à sua família. Todo o governo doméstico estava nas suas mãos, superentendiam em tudo o que se passava de portas adentro: o seu dia de trabalho começava logo pela manhã e só acabava às Trindades, à hora do lusco-fusco, chamada então do pregar da agulha. Naquele tempo, a culinária francesa não tinha ainda invadido o País. O jantar, como sabemos, era à portuguesa antiga. Mas, conquanto todos os dias fossem servidos os mesmos pratos, a dona da casa não deixava de dar uma volta pela cozinha para ter a certeza de que a cozinheira estava cumprindo os seus deveres. 
Quando o dono da casa chegava para jantar, era à esposa, e não a qualquer outra pessoa, que ele fazia esta pergunta do estilo : 
- O jantar está pronto, menina?
E a dona da casa achava-se sempre habilitada a responder imediatamente:
-Está.
Porque a verdade é que o mesmo jantar estava invariavelmente feito à mesma hora, com uma pontualidade que parecia marcada por um cronómetro. 
Era a dona da casa que dava ao rol a roupa suja, quando a lavadeira chegava, ordinariamente à mesma hora. 
Era ela que talhava, cosia e consertava a roupa branca do marido e dos pequenos. Todas as peúgas que eles calçavam eram feitas por ela. Fazer meia era uma obrigação e uma distracção até. Mas, ordinariamente, a boa dona de casa costurava durante o dia, e reservava a meia para o serão. O breve descanso entre o dia e a noite, a hora do pregar da agulha, era consagrado, muitas vezes, à oração, que principiava pelas 3 Avé Marias do Angelus. As meninas da casa, se as havia, aproveitavam a pequena folga do crepúsculo para ir à janela ver passar o namoro, que as cumprimentava muito respeitosamente e não se atrevia a olhar para trás senão à esquina da rua. 
Que santa tranquilidade patriarcal a desse tempo!” 



“ Há cinco dezenas de anos (1900) rara era a família portuense rica ou remediada, que não desse suas roupas a lavar às lavadeiras de Águas Santas, Barreiros, S. Mamede Infesta, Maia e Rio Tinto; porque por dez reis cada peça não valia a pena lava-las em casa. Além disso, nesses distantes tempos, nem todos os prédios possuíam água encanada da companhia; logo, portanto, as donas de casa acertavam melhor entregando as roupas às lavadeiras, que as traziam sempre com pontualidade e a cheirar a frescor. E então dava gosto vê-las, aos sábados principalmente, donairosas, entrecortarem as ruas do burgo carregadas com pesadas trouxas de roupa à cabeça, a caminho das residências das impertinentes freguesas, onde a demora não podia ser evitada por terem de dar a roupa ao rol. Uma rodilha, um farrapo, tudo estava apontado” O Tripeiro Série V, Ano VI.


Azeiteiro do Porto


de Aveiro

O azeite era vendido no Porto pelos azeiteiros, tanto pelos do Porto como os vindos de Aveiro e até de Coimbra. Usavam uma corneta para chamar a atenção dos moradores. Vendiam também óleo, vinagre e petróleo.


O amola tesouras e navalhas passava de tempos a tempos tocando uma flauta de pan que, o que não raramente, emitia uma linda melodia. Compunha guarda-chuvas, punha solda nas panelas, “gatos” nas porcelanas partidas e fazia outras utilidades que muito contentavam os portuenses.


Os engraxadores estavam espalhados pela cidade, em especial nas zonas de maior movimento e prestavam um bom serviço. Nessa altura era chic trazer sempre os sapatos ou botas de couro muito bem limpos. Por mais que nos esforçássemos nunca conseguíamos, em casa, pô-los tão brilhantes. Mas a C. M. Porto mandou-os retirar das ruas pelo que só os encontrávamos nas entradas das casas ou cafés. Hoje estão praticamente extintos.
“O Migalhas” foi um engraxador dos princípios do séc. XX que tinha condecorações por ter salvado  mais de cem pessoas de se afogarem no rio e no mar, em alguns casos, com o risco da própria vida.