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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

TRANSPORTES DE PASSAGEIROS IV - CARROÇÃO II, CHAR-A-BANCS, VAPOR DURIENSE

6.26.2 - Transportes de passageiros IV - o Carroção II, o Char-a-Bancs, o Duriense



Terminamos o divertidíssimo lançamento sobre o carroção com um longo, mas “delicioso” artigo de O Tripeiro, Volume 2:



Em meados do séc. XIX apareceram transportes mais civilizados, os “char à bancs”, que partiam da Porta Nobre até à Foz.


Nesta gravura da Cantareira, da autoria de Cesário Augusto Pinto (1849), pode ver-se um “char-a-bancs" a caminho do Porto – vêem-se ainda a Igreja da Foz, a Capela-farol de S. Miguel o Anjo e a Capela da Lapa.


A partir de 1851 apareceu uma alternativa ao carroção, o vapor Duriense.

Em O Tripeiro Série VI, Ano I escreve-se: “feitas as necessárias experiências foi destinado este dia 18 de Agosto de 1851 para o vapor Duriense começar as suas viagens entre a Praça da Ribeira no Porto até à Cantareira em S. João da Foz, podendo levar comodamente até 80 pessoas, pagando cada uma 50 reis à proa, ou 80 reis na ré, porque neste lugar havia melhores assentos, e cobertos com um toldo. Quem tomasse 12 bilhetes de proa ou 8 de ré tirava-os por 480 reis…o barco levava três quartos de hora em ir, desembarcar a gente que levava, e tomar a que devia trazer, pelo que estabeleceu fazer de manhã 4 viagens de ida e outras tantas de volta… e de tarde três viagens de ida e outras tantas de volta”. 

Faustino Xavier de Novais escreveu, em 1852, uns versos sobre este vapor: 

“…Immensa multidão lá se descobre
No logar onde esperam passageiros,
Que o vapor os vá pôr na Porta Nobre,
Ri-se a gente do tom, dos cavalleiros
Que, sem que áureo metal assaz lhe sobre,
Fidalgos querem ser, e não caixeiros;
Em quanto que o patrão, lá na cidade,
Ficou de mãos erguidas na Trindade. 

O Duriense partiu; marchei, por terra,
Porque sou mui cobarde nos revezes,
E escuto como alguma gente berra,
Quando o lindo vapor, não poucas vezes,
Com pedras, água e vento, em crua guerra,
Se dispõe a mangar dos portuguezes:
O passeio findei, bom de saúde,
Se mal o "descrevi, fiz o que pude”.


Cantareira - fim séc. XIX

Alberto Pimental, no seu livro "O Porto Há 30 Anos", editado em 1893, referindo-se à Foz do Douro por volta de 1862 e sobre transportes, escreveu: "Durante algum tempo uma companhia lembrou-se de organizar um serviço de navegação fluvial entre o Porto e a Foz. Havia um vaporzinho que fazia carreiras entre a cidade e a Cantareira, mas a empreza não deu bom resultado, tal o apego ao burro, no Porto d´aquelle tempo, como meio de transporte... Mas a viagem fazia-se tão ronceiramente, que só os pobres usavam d´esse meio de transporte. De mais a mais, havia muita gente que se temia dos perigos do rio Douro, especialmente no sítio chamado «Dezoito braças», porque tal é a profundidade do rio n´esse sitio." 
Mais adiante, referindo-se o autor à época em que escrevia (trinta anos depois) referiu: " Para onde foi o burro, o burro que se alugava á Maricas do Laranjal, e que levava gente á Foz com a condição de cahir pelo menos uma vez em cada jornada?"


Outros barcos a remos faziam já há muitos anos esta mesma viagem.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXVI

3.5.10 – Casas de espectáculos - I


Foto aérea da Torre dos clérigos, Mercado do Anjo (zona sul), antigo Largo do Olival, Banco Nacional Ultramarino, Igreja dos Congregados, Rua de 31 de Janeiro, Estação de S. Bento, Igreja de Santo Ildefonso, Teatro S. João e, em cima á direita, o palacete dos Duques de Lafões, no Largo do Corpo da Guarda, que foi destruído aquando da abertura da Avenida da Ponte. Em cima, adivinha-se o Colégio dos Órfãos.


O Dr. Artur de Magalhães Basto escreveu: “Desde o séc. XVI até pou antes da revolução de 1820, a classe média portuense conservou quase imutáveis os seus costumes. Durante 300 anos os seus únicos divertimentos, foram as festas da Igreja e aos Domingos os passeios para o campo ou as merendolas em barcos pelo rio acima. Era, em suma uma vida pacata e autenticamente provinciana”.

O teatro no Porto no séc. XVIII – José Pedro Ribeiro Martins 


Esta casa pertenceu à família dos Condes de Miranda, Marqueses de Arronches e Duques da Lafões. “Pertenceu ao 1º. Duque de Lafões D. Pedro, filho de um filho ilegítimo de D. Pedro II, que este perfilhou, nascido em 10/1/1718 e falecido em 1761” - Horácio Marçal em O Tripeiro, Série VI, Ano IX.


Entrada da Rua do Corpo da Guarda antes das demolições para a abertura da Avenida da Ponte. 


O primeiro teatro do Porto foi construído nas cavalariças do palácio dos Duques de Lafões, perto da Sé, em 15 Agosto de 1760. Na sua inauguração foi levada à cena uma ópera lírica para homenagear o casamento de D. Maria I com D. Pedro. Este teatro foi desenhado por João Glama Stroeberle.
Este teatro era frequentado pela melhor sociedade, incluindo o Corregedor João de Almada e Melo. Certa noite notou que na orquestra havia um músico, que tinha muito pouca intervenção na execução da obra. Mal disposto com isto, o Corregedor chamou-o ao seu camarote, dando-lhe uma severa reprimenda pela sua preguiça em tocar. O músico, muito “enfiado” respondeu-lhe que era obrigado a seguir a pauta e que se não tocava mais era porque não cabia fazê-lo. Porém, João da Almada insistiu que ele ganhava para tocar toda a noite e não só aos bocados, por isso não tolerava as pausas que fazia! Ignorância compreensível num militar desconhecedor de música, como aliás o era quase todo o público desse tempo.


Rebelo Bonito em O Tripeiro Série VI, Ano III afirma que: “ Em 28 de Fevereiro de 1797 realizou-se o último espectáculo neste teatro. A sala teve depois destino pouco nobre: foi sucessivamente quartel de guardas de segurança pública, quartel de guarda barreiras e depósito de “calcetas” ou vadios coagidos pelas autoridades a trabalhos de pavimentação de ruas e caminhos, levando corrente amarrada à cinta e artelho do pé direito para não fugirem.”

Do estudo acima referido retiramos o texto que nos pareceu com interesse:



Neste teatro cantou a grande soprano Luíza Todi (1753/1833), a maior figura do canto português. Luiza Todi viveu no Porto entre 1771 e 1777 tendo actuado várias vezes. Isto porque D. Maria I havia proibido às mulheres representarem em Lisboa. Depois de grandes sucessos em muitos países europeus, regressou ao Porto em 1803, já viúva. Tendo perdido muitos dos seus bens em 1809, quando os franceses entraram no Porto, regressou a Lisboa onde lhe morrem alguns filhos. Faleceu em 1833 cega, e muito pobre.


In - O teatro no Porto no séc. XVIII – José Pedro Ribeiro Martins

Depois de grande insistência de Francisco Almada e Mendonça o povo portuense conseguiu contribuir com 30.300$00, o que era insuficiente. Após novas insistências do Corregedor atingiu-se a quantia de 53.450$000. Decidiu-se começar as obras em 22/3/1796. Como este valor ainda não cobria as despesas, o Corregedor mandou executar o real de água em 1/3/1796 até preencher a quantia necessária para a construção do teatro.


Projecto original de arquitecto Vicenzo Mazzoneschi para o Real Theatro de S. João. Como se verifica o resultado final deste projecto foi muito mais pobre e deselegante, exteriormente.


Real Theatro de S. João – Inaugurado em 13 de Maio de 1798, dia do aniversário do Príncipe D. João, chamou-se inicialmente Theatro do Príncipe em honra do futuro D. João VI. Orçamentado em 80.000 cruzados, custou muito mais. “Para o construir foi destruído um grande pano da Muralha Fernandina, cuja pedra serviu para fazer as suas paredes e também as da Casa Pia” – Boletim de Os Amigos do Porto do ano de 1999.- O escudo real que estava na frontaria encontra-se nos terrenos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Até 1809 apresentou peças ligeiras e variadas, sendo a primeira temporada de teatro musicado em 1809 com uma zarzuela. A primeira ópera só lá foi apresentada em 1814/1815. 
Neste mais importante teatro da cidade apresentaram-se muitas das melhores obras musicais e teatrais do século XIX, sendo que alguns compositores eram do Porto e tinham grande qualidade, tais como: José Francisco Arroyo, Carlos Dubini, Sá Noronha, Miguel Ângelo e Alfredo Keil.
Durante o cerco do Porto foi bastante danificado pela artilharia Miguelista pelo que teve de sofrer grandes obras entre 1835 e 1838.


Interior do antigo Real Theatro de S. João.

“…mas o teatro mais interessante de observar era o de S. João, durante a temporada lírica; este antiquíssimo teatro, que exteriormente dava ideia de uma fábrica de moagens, no interior estava bem arranjado, possuindo um salão de entrada correctamente disposto e um outro no andar nobre. De forma elíptica, posto com elegância; a sala de espectáculos estava bem mobilada, o pano de boca para os lados; nos camarotes viam-se as principais famílias portuenses, ostentando as senhoras ricas “toilettes” e jóias de preço; na plateia velhos “dilettanti” e rapazes da primeira roda, aprumados nas negras casacas, fazem destacar os peitilhos de camisas, onde cintilam os brilhantes das abotoaduras”. Um forasteiro de 1908.


Artur de Magalhães Basto descreve uma noite de ópera, em O Porto do Romantismo: "A enchente é espantosa, e no verão o calor é tão intenso como se “estivesse na câmara de um vapor, em calmaria, por alturas de S. Tomé ou Senegal”, e as pulgas mais abundantes “do que em qualquer galegaria de atrás da Sé”. 
O “bufete” vendia sorvetes de diferentes qualidades, a 4 vinténs cada um.
O espectáculo começa e vai decorrendo numa atmosfera pouco tranquilizadora. Rebentam as primeiras palmas, estruge uma formidável pateada. Há bravos e assobios. Corre o pano. Chamados os artistas, estes aparecem no proscénio. A balbúrdia cresce. A pateada torna-se infernal. Os actores investem contra o público, como em 1849, na representação dos Foscaris. São lançados dos camarotes impressos com poesias, respondem-lhes os díscolos arremessando para o palco toda a qualidade de projecteis, até botas velhas. Martelos, cabos de vassouras, tacão, goelas, tudo que faça barulho é posto em movimento. No ar esvoaçam pombas brancas e rodopiam bengalas e mocas e, por vezes, luzem punhais. Partem-se cadeiras inocentes e cabeças apopléticas. Os artistas são enxovalhados. Uma actriz a “italiana Luisa Abbadie, enlouqueceu de repente, na noite de 3/5/1852, depois de ter sido desfeiteada pelo público”. 
A chinfrineira é indescritível, os destroços na mobília avultados e o sangue a escorrer das testas abundante… resultado: as autoridades ordenam o encerramento do teatro por alguns dias”.


Certo dia, depois de uma cena deste tipo, a polícia proibiu a entrada de bengalas ou qualquer outro objecto perigoso.
“Os beligerantes, ao terem conhecimento da “ordem superior”, não se intimidaram, antes pelo contrário, nessa noite era de ver como, todos humildes, iam fazer a entrega das suas badines no bengaleiro respectivo. O governador civil rejubilava por ver como as suas determinações eram rigorosamente cumpridas; mas o que ele não sabia era que a cada bengala depositada correspondia um cabo de vassoura, a que previamente de cortara a rama de piaçaba, insidiosamente enfiado pelo colete abaixo duma grande parte daqueles tão submissos quão resignados cumpridores da lei. Escusado será dizer que, nessa noite, no teatro S. João não caiu Tróia, isso não; mas o espectador incauto ou desprevenido veio de lá escorraçado a rabo de vassoura, como qualquer intrometido fraldiqueiro”. O Tripeiro, Volume 2, 1/7/1909.




“Não era sem certos cuidados que algumas famílias se dispunham a ir ao teatro. A mãe dá ordem à criada que faça a ceia; o pai diz ao galego que ponha duas velas de cêbo no lampião de folha. Apenas o jantar (almoço) terminou e o último palito fez a limpeza dentária, vai a família dormir a sesta, porque tem de perder a noite. À hora própria lá segue a família para o teatro, porque é bom ir cedo e sem fadiga. O chefe de família leva duas pistolas no bolso para o que der e vier; atrás, a criada com o merendeiro, os frangos assados, a vitela, as azeitonas, a pingoleta etc. Chegam as damas ao camarote, estendem as mantilhas de lapim para fora da borda e colocam-nas cuidadosamente nuns arcaicos lanceiros de pau que havia nos camarotes; ao fundo a criada senta-se junto ao cesto da ceia. Os espectadores começam a encher o teatro e o Aniceto vem distribuir pelas estantes da orquestra os diversos papeis da partitura; trabalho que faz pacificamente, excepto se algum frequentador das varandas lhe grita de lá; - Oh Clemente, quebraste a infusa! – porque então o homem perde a cabeça, troca os papeis e dá por paus e pedras.
Os janotas cumprem a sua elegante missão de conquistadores; as damas choram ou sorriem, como as situações da peça o exigem; à hora própria , aproveitam-se os intervalos para a ceia e tudo corre no melhor dos mundos, se os artistas não desafinam e se as tormentas teatrais não provocam as pateadas.
Que velhos costumes e clássicos hábitos da velha sociedade que dormia a sesta e ia cear ao teatro!”
In O Tripeiro, Volume V. 
No final das representações os artistas costumavam reunir-se nos cafés do Leandro e no Águia d’Ouro, onde comentavam o decorrer da récita e discutiam as falhas do próximo.


“O meio de transporte habitual das famílias, para o Teatro de S. João, para os bailes, para as romarias, era o famoso carroção, veículo de 4 rodas da forma de um prédio, com duas fachadas laterais de cinco janelas cada uma, e porta ao fundo, a que o passageiro subia por quatro degraus de escada guarnecida por um corrimão. Uma junta de alentados bois de Barroso puxava pelo "monumento”.
“Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No Inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do Teatro S. João. A portinhola abria-se, havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do Teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora”.
Ramalho Ortigão

“Nas noites de espectáculo a concorrência na Batalha e ruas próximas era sensível e até nos tempos antigos era assinalada pela venda de doces e rebuçados como nos arraiais. A formatura dos trens, o alinhamento das seges, a série de carroções com os bois deitados no chão, a fileira das cadeirinhas, guardadas apenas por algum dos galegos vigilantes, e o agrupamento dos lampiões, defendidos pelos criados menos dormentes, isto em volta do teatro, pareciam um acampamento!” In O Tripeiro, Volume V, 1926.


Camillo Sivori – único aluno directo de Paganini e notável violinista, esteve no Teatro de S. João em Dezembro de 1854. Deu 3 concertos de grande sucesso, que tiveram os maiores aplausos e casas sempre cheia. Em Parias chamavam-lhe o “Paganietto” e em Berlim “o sósia de Paganini”. D. Pedro V entusiasmou-se de tal forma por este espantoso artista que lhe concedeu o Grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Era também um compositor muito apreciado ao tempo. Indicamos abaixo obras suas:






Na sala do Real Theatro de S. João também se realizavam outros tipos de espectáculos tal como pelo Carnaval de 1855 onde houve festas e bailes de máscaras durante uma semana.


Adélia Dabedeille

A Ópera, no séc. XIX, era muito apreciada, concorrida e bem frequentada. Os sucessos dos cantores e das óperas eram muito comuns e, habitualmente, o público muito conhecedor. Sucessos como os que acima descrevemos devem ter sido muito raros, mas ficaram na história.

Alguns cantores e árias que gostamos:

Enrico Caruso – Una furtiva Lacrima – Elixir d’Amor – Donizetti - 1904

Tito Schipa – Lamento de Frederico – L’Aresiana – Cilea- 1928

Luciano Pavarotti – a mesma ária - 1987

Beniamino Gigli – Mamma - 1940

Beniamino Gigli - Nessun Dorma – Turandot - Pucini

Maria Callas – Casta Diva – Norma – Bellini - 1961

Alfredo Kraus – ária da ópra Os Pescadores de Pérolas - 1970 

Shirley Verret e John Vickers -Mon coeur s’ouvre à ta voix – Sansão de Dalila – Saens Saint - 1981

Ivan Rebroff – Morte de Boris – Boris Godunov – Moussorgsky - 1984 

Luciano Pavarotti e d’Amico - Che gelida manina e Si, mi chiamano Mimi - La Boheme – Puccini - 1986

Luciano Pavarotti – Addio a la Madre – Cavalaria Rusticana - Pietro Mascagni - 1993

Cecilia Bartoli – Lascia la Spina – Handel - 1998

Cecilia Bartoli - Castrati (a ver absolutamente)

Ária do Filme Farinelli, il catrato – Lascia Ch’io pianga 

Filme completo – Farinelli, il castrato - 1994

Jonas Kaufmann – Porquoi me reveiller – Werther – Massenet - 

Pavol Breslik – Kuda kuda - Eugene Onegin – Tchaikovsky - Londres 2013


Estalagem da Ponte da Pedra –C.P.F.

Na noite de 6/3/1849 os fanáticos de Adélia Dabedeille homenagearam-na na famosa Estalagem da Ponte da Pedra. Por coincidência ou não, Camilo e seu amigo Aloísio Seabra, apoiantes de Clara Belloni, foram lá cear. Vendo o que se passava, começaram a dar vivas à sua preferida. Rapidamente tal provocação degenera numa valente rixa. Camilo e o amigo tiveram de bater em retirada, pois os “inimigos” eram muitos. Como escreveu Camilo “Aloísio retirava ferido pela ponta de um estoque de bengala; eu que entrara resoluto a morrer, inutilizado o copo na cabeça do mais cobarde, cruzei os braços esperando a morte numa atitude romana”


Cinco meses depois ardia o antigo Real Teatro de S. João…

Quando uma cantora agradava ao público havia, habitualmente, uma festa de despedida a que se chamava o “benefício”. Isto porque a receita de bilheteira lhe era integralmente entregue. Eram momentos de grande entusiasmo, histeria, delírio e até loucura. “... Bastará recordar que essas espécies de consagração principiavam, de ordinário, pela entrada solene que a diva fazia no teatro por sobre as casacas dos admiradores, que ao descer da carruagem, lhe serviam de tapete, e terminavam por ser ela reconduzida a sua casa na mesma carruagem, não já puxada pelos quadrúpedes que a trouxeram, mas pelos próprios admiradores, que sofregamente se faziam substituir aos varais (com grande desvantagem, é claro) às alimárias destinadas a tão disputado serviço”. O Tripeiro, Volume 2 , 1/7/1909.



O Real Theatro de S. João foi destruído por um incêndio na noite de 11 para 12 de Abril de 1908.
Foi o primeiro edifício construído de raiz no Porto exclusivamente destinado à apresentação de espectáculos. Apesar de alternadamente explorado por companhias de teatro declamado e de teatro lírico, a actividade do Real Teatro de São João acabaria por ficar vinculada ao universo da ópera italiana, cujo monopólio de representações na cidade deteve até perto do final do século XIX.



Logo após o incêndio do Real Theatro foi aberto o concurso para a construção de um novo, a que seria dado o mesmo nome de S. João. O arquitecto José Marques da Silva, após a sua formação em Paris, saiu vencedor. A decoração da sala de espectáculos e salões ficaram a cargo dos pintores Acácio Lino e José de Brito e dos escultores Henrique Moreira, Diogo de Macedo e Sousa Caldas. As figuras existentes no entablamento representam a Bondade, a Dor, o Ódio e o Amor. Foi inaugurado em 7 de Março de 1920.“Em 1932, apenas doze anos após a sua inauguração e acompanhando a decadência da actividade teatral na cidade, passou a chamar-se São João Cine, dedicando a maior parte da sua programação à exibição cinematográfica. O edifício foi esquecido e entrou numa fase de progressiva degradação. Foi adquirido pelo Estado em 8 de Outubro de 1992 e inaugurado cerca de um mês mais tarde, a 28 de Novembro, com a designação oficial de Teatro Nacional São João. Restaurado, remodelado e reequipado, segundo projecto do arquitecto João Carreira, entre 1993 e 1995, voltou a ter uma regular actividade artística”. Boletim IPPAR: Teatro Nacional São João. Porto: IPPAR, 1995.


Em Porto Tripeiro pode ler-se o testemunho seguinte: “A Praça da Batalha como sala de visita tinha o Teatro de São João. Todos os anos, pelo inverno, havia a temporada de teatro da companhia da “Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro”. Esta magnifica sala de espectáculos era a mais elegante do Porto quer em grandeza como no seu estilo arquitectónico. Durante a minha vivência na travessa do mesmo nome do teatro, tive sempre o privilégio de possuir o estatuto da obtenção de “borlas”, sem bilhete, para a geral no topo do teatro onde até se via o filme melhor do que da plateia ou do balcão. A temporada do teatro, no inverno, eram os eventos que a população de alta e média classe apreciavam. A moda mais apreciada, entre as senhoras era o casaco de peles e um chapéu na cabeça. Os maridos, embora nem todos, usavam o laço no pescoço. Era, assim o átrio do São João, antes do começo das peças de teatro, um espaço de elegante. Durante três anos fiz parte do elenco teatral! Fui actor/figurante em várias peças ao preço de dez escudos por sessão. Para mim foi uma experiência emotiva ter estado no palco do São João com a fina flor, da época, dos melhores actores teatrais de Portugal. Entre os que me lembro: Palmira Bastos, Amélia e Mariana Rey Colaço (mãe e filha), Carmem Dolores, Meniche Lopes (por quem me apaixonei silenciosamente!) Robles Monteiro, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Luis Filipe, Ribeirinho (como encenador) João Perry (um miúdo na altura) e outros, cujos nomes se apagaram, na minha memória. As peças exibidas no São João eram as clássicas e, onde, entre várias, foram representadas a “Terceira Palavra”, o “Prémio Nobel” e a “Inês de Portugal” e, no contexto dos actores fui inserido, claro está, como figurante. Na peça “O Prémio Nobel” o meu papel era o de um polícia no tribunal onde seria julgado o Nobel em Medicina (Raul de Carvalho) e era acusado, pela inconsolável esposa por não lhe ter salvado o marido na operação que lhe efectuara. Foi-me entregue a farda policial e uns sapatos pretos. O uniforme era do tipo usado no século XIX que não me assentavam, por falta de pano e cabedal, a farda no corpo e os sapatos nos pés. Fiquei um polícia desajeitado e motivo de “chacota” entre os meus colegas e dos homens que puxavam as cordas dos cenários do palco. Escárnio, apenas no primeiro dia, porque na outra representação já o Raúl alfaiate da rua de Cimo de Vila, que me fazia um fato por ano e lho pagava aos “soluços”, já lhe tinha dado um jeito. Durante essa injusta “chacoteada”, passou junto, ao grupo de actores “mudos” Robles Monteiro com o seu inseparável “caquinho” num olho e ao aperceber-se do escárnio parou e de voz forte que o caracterizava disse: “ Um figurante é um actor...... só não fala! Respeito, meus senhores, pelo actor!”

Caminhos da História - Joel Cleto
http://videos.sapo.pt/buNQsWIknTYqI4lNvFZE

terça-feira, 26 de março de 2013

DOS GUINDAIS A MASSARELOS - III

2.7 - Dos Guindais a Massarelos III + beira rio de Gaia 


Desde 1895 a electricidade para as linhas de tracção eléctrica do Porto era produzida na Central da Arrábida. Dada a insuficiência desta, em 1909 foi projectada a Estação Central Geradora de Massarelos que, começada a construir em 1912, foi inaugurada em 1915. O projecto foi do Engº. Luis Couto dos Santos (1872-1938), professor da U.P. Na década de 30 foi ampliada em capacidade dado o aumento das necessidades de energia. A energia aí produzida era conduzida até ao veículo por um condutor de cobre isolado da terra – a linha – servindo os carris de condutor eléctrico de fecho do circuito – o retorno. Informações recolhidas numa conferência do Eng. Manuel Vaz Guedes em 1995, site da U.P.



Central termoeléctrica de Massarelos de 1951 a 1970


Pessoal da Central de Massarelos - foto de Teófilo Rego 


Zorra de transporte de carvão desde as minas de S. Pedro da Cova à Central Termoeléctrica de Massarelos. Também transportava outros materiais para as obras da Carris.


Encontramos em vários sites e blogs as informações seguintes: Massarelos, é a mais antiga representação das fábricas de faiança criadas no Porto. Fundada em 1766 por Manuel Duarte Silva, na Rua de "Sobre o Douro", em Massarelos. A sua existência foi explorada por diversos proprietários e industriais... Entre 1766/1819 o combustível utilizado era a carqueja. A decoração prendia-se com cores azul, verde, amarelo e cor de vinho. Entre 1819/1845, a fábrica foi arrendada a Rocha Soares, da fábrica de Miragaia. Uma vez que entre estes existia um relacionamento familiar, a fábrica de Massarelos continuou, como de inicio, uma empresa familiar… No 3º período, inicia-se o fabrico de faiança utilizando o esmalte plumbífero, pintura monocroma azul, e na decoração aplica-se a estampilha. A fábrica emprega barro vermelho de Valbom de Baixo (Gondomar). Este período situa-se entre o ano de 1845 e o ano de 1873. No 4º período (1873/1895) houve uma tentativa de maior industrialização na fábrica produzindo-se azulejos lisos e em relevo, além de louça sanitária e várias peças artísticas. O 5º período vai de (1900/1920). De 1904 a 1912 pertenceu à Empresa de Cerâmica Portuense, Ldª. A partir de 1912 a gestão da fabrica pertence à firma Chambers & Wall. O edifício da fábrica de Massarelos, na Restauração, é devastado, em 10/3/1920, por um incêndio de grandes proporções, contudo esta transição não afecta o prestígio da marca "Massarelos - Porto" que continua a ser utilizada na produção da fábrica da quinta do Roriz, em Quebrantões Norte, perto da ponte Maria Pia, alongando-se face à margem do Douro. Da Fábrica de Massarelos restam para memória, dois fornos transplantados que se podem observar na margem da Avenida Gustavo Eifel.



Fornos da Fábrica de Cerâmica de Massarelos antes e depois do restauro - hoje encontram-se na Avenida Gustavo Eifel, perto da Ponte Maria Pia


Massarelos – vêm-se os fornos da Cerâmica de Massarelos, construídos em 1901, a Igreja do Corpo Santo e, ao longe em cima, o Palácio de Cristal. Destacam-se as velas enfonadas de um possível grande bacalhoeiro. 


“O exemplar hoje exposto apresenta duas decorações distintas. Por um lado é um exemplar apelativo à cidade do Porto; e por outro, celebra a memória dos Descobrimentos Portugueses Portugueses. Trata-se de um prato produzido pela Fábrica de Massarelos no Porto no final do séc. XIX. Relativamente à sua decoração. Comecemos pela decoração apelativa à cidade do Porto. O desenho central presente no prato apresenta estampa de tonalidade monocromada a negro, com o desenho da Estátua Equestre de D. Pedro IV, situada na Praça da Liberdade. Na aba existe decoração arquitectónica baseada nos desenhos do palácio de Cristal, Palácio da Bolsa e Ponte Maria Pia. No que diz respeito à decoração dos Descobrimentos Portugueses, estão presentes na aba, os bustos de Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e Infante D. Henrique, enquadrados por esferas armilares. Exemplares desta decoração foram produzidos para a Casa Adrião, sediada na Rua da Assunção nº. 20 no Porto e que devem ter sido oferecidos como brinde aos melhores clientes. Esta suposição explica o facto da escolha de apenas monumentos presentes na cidade do Porto, aliado ao período de produção do prato em causa (final do séc. XIX), por onde se comemorou o IV Centenário da chegada à Índia e Brasil por Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, respectivamente”. In blog A Memória dos Descobrimentos na Cerâmica Portuguesa. 

No site das Memórias da Fábrica de Loiças de Sacavem encontram-se peças muito belas com marcas de Massarelos:



Terrina de decoração Papoula e marca da Empresa Cerâmica Portuense,Lda. – 1904-1912



Terrina de decoração Cedro e marca da sociedade Chambers & Wall (1912-1936)


Massarelos – Fins Séc. XIX






Estrada de Massarelos à Foz do Douro - Nota-se a sua evolução 

No texto acima ARC “sonha” com um contínuo “cais” que, “em breve tempo”, irá até S. João da Foz! Só há poucos anos este “sonho” se realizou. Por muito espantoso que pareça, João de Almada e Melo planeou, em 1784, a construção de um cais entre a Ribeira e a Foz do Douro. Pelas gravuras se vê o estado lamacento e esburacado em que se encontrava a estrada por onde, mesmo o carroção, que levava os veraneantes encurralados, como Camilo dizia, “crucificados nas suas próprias cruzes”,tinha dificuldade em passar.


Segundo Camilo o carroção já existia no séc. XVII. Porém, foi após as invasões francesas que, por falta de cavalos, aumentou muito o seu uso. A este incómodo meio de transporte dedicaremos um largo espaço com pormenores muito interessantes. 

You Tube – Da Ribeira à Foz

A beira rio do lado de Vila Nova


Cais de V. N. de Gaia – construído em 1791



Estaleiro do Rei Ramiro – Estes estaleiros ainda existem - Foto do Barão de Forrester – 1860 - este grande amigo do Porto e do Douro morreu afogado nas águas do Douro em 12/5/1861, no Cachão da Valeira – na Descrição de Abril de 1758, da Freguesia de Santa Marinha pode ler-se: “Defronte deste convento (Convento de Corpus Christi) está a grande Praya em que há um grande estalleiro de fazer navios, que dizem ser o milhor, que se tem visto em toda a Europa, onde se tem feito já sinco juntos, e se podem fazer mais. Tem mais na vizinhança, que parte com a Cerca do Convento das Freiras a chamada Tercena, que he hum Lugar bem emparedado, e fechado, que dizem ser obra mandada fazer pelo Senhor Rey Dom Manoel para recolher a fabrica das suas galeras, q entravão neste Porto, e hoje serve para recolher as madeyras e fabrica real; domina nelle o Supeo Intendente da Ribeyra do Ouro.”



Descarga de pipas vindas do Douro



Cais de Vila Nova - Carregamento de vinho do Porto e outras mercadorias – de notar a camionete antiga - na Descrição de Abril de 1758, da Freguesia de Santa Marinha pode ainda ler-se: “Tem esta villa varias Companhias de de Arraezes de barcas, que todas tem 37 barcas grandes, que carregão 20 pipas cheas: e servem continuamente para carga, e descarga do todos os navios portugueses, e de varios reynos, que aqui entrão e para ajudar, e valer nas entradas, e sahidas, e em todos os perigos de naufragio, que succedem, e em muytas cheas, que hão no tempo de Inverno, as quais todas se amarrão nesta parte da villa. Tem para cima de cem barcos na passagem da Villa para a cidade e de Gaya para a Porta Nova, Banhos e Lingoeta a toda a hora que se, querem e são precizos de dia, e de noite. Aqui chegão todos os dias muytos e varios barcos de cima do Douro com vinhos, sumagre, e frutas, que pela mayor parte se recolhem nos armazens desta villa”.


Polo aquático no rio – Pelos chapéus de palha parece ser dos anos 20 ou 30 do passado século. Lemos, em tempos, que o F. C. do Porto tinha uma secção que jogava no rio.


Sam Paio – casa do Sr. Anthero


Teleférico de Gaia – do lado de Gaia existe uma ligação da parte alta ao rio, inaugurada no lado de Gaia em 1/4/2011 – Foto Grande Porto on line



Vista de Gaia tirada do teleférico