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terça-feira, 8 de julho de 2014

OUTRAS IGREJAS DO PORTO - III

3.11.7 - Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e das Confissões


Sobre a igreja, o hospital e o cemitério da Lapa já tratamos no lançamento de 3/6/2012 com o título  LIMITE NORTE - procurar na coluna da direita


Igreja de Nossa Senhora de Campanhã



“Certa é a existência no séc. XIII da «igreja Sanctae Mariae de Campanham», cujo padroado foi cedido ao Bispo do Porto. 
Situada no centro da freguesia, a Igreja de Campanhã terá sido erigida por volta de 1714 não se conhecendo, porém, qualquer fonte que possa atestar com segurança o ano exacto da sua construção. As origens mais remotas poderão estar ligadas à antiquíssima "igreja Sanctae Mariae de Campanham" (séc. XIII), cuja localização se mantém incerta. 
Em 1766, o carpinteiro José de Sousa obrigou-se perante as autoridades competentes a fazer o tecto e o coro da igreja, na forma da planta.
Foi saqueada no decurso da segunda invasão francesa (Março de 1809). 
Anos depois «também sofreu alguns danos com a guerra fratricida de 1832 a 1834, estando então fechada mais de um ano». 
A igreja possui uma bela torre sineira e o exterior é todo revestido a azulejo azul e branco, interrompido por alguns elementos notáveis de cantaria lavrada, entre os quais se destaca o belo óculo frontal. No interior, a tribuna é em talha dourada e existem unia série de painéis representando cenas da vida religiosa. Site da J. F. Campanhã

Pinho Leal, em 1874, diz que "a igreja matriz, de uma só nave, é um templo vasto e muito asseado, de cantaria por fora, e forrada de azulejos interiormente».
Em 1896 (data gravada no frontispício da Sacristia) e em 1905 o templo sofre importantes obras gerais de reforma e ampliação. Em 1907 é inaugurada a nova capela-mor



Painel de Azulejo com imagem de Nª. Sª. de Campanhã



Muitas outras imagens de inegável valor artístico e cultural, a maior parte delas do século XIX e XX, alberga a matriz que tem igualmente como motivo de atracção a talha dourada da tribuna e altar-mor (séc. XVIII, embora sofrendo vários restauros) e um conjunto de painéis pintados representando cenas da vida religiosa.



Memórias Paroquiais de Campanhã - 1758


“Esculpida em calcário, estofada e policromada, com pedraria e relevos, esta imagem tem a altura de 75 cm (sem a base) e uma largura de 33 cm. Na cabeça podemos observar um gorro ou calote, a mão direita é de madeira e segura um ceptro quando devia ostentar uma flor ou um fruto.
Esta mão foi substituída porque a original ter-se-ia partido, devido à queda do andor no lugar de Bonjóia, aquando de uma procissão.
A Senhora apresenta-se descalça, mas com vistosos e fartos panejamentos (manto e pequenas proporções e cor azul e o resto dourado).
A imagem foi posteriormente embelezada com relevos de massa e pedrarias de vidro tão ao gosto do séc. XVII, tendo sido a carnação repintada.
Há 56 anos foi a imagem restaurada na sua policromia, devido à iniciativa do então pároco da freguesia, Domingos Moreira de Azevedo.
Eis uma bela descrição que dela faz Pedro Vitorino: 
“Sem dúvida graciosa na sua linha geral, túnica e manto dispostos com naturalidade, a Senhora descansa sobre a perna esquerda para oferecer melhor ao Divino Filho colocado no seu braço esquerdo. O Menino, sem vestuário, agasalhado da cintura para baixo pelo manto, acaricia uma pombinha; a Virgem de cabelos divididos ao alto, caindo em ondulações suaves a emoldurar-lhe o rosto esbelto, contempla o Menino, enlevada numa expressão de sentimento materno encantadora». 



Pinturas do tecto da Igreja de Campanhã a precisar de restauro - 2004


Cruzeiro e Capela em memória do Milagre da Fonte da Nossa Senhora de Campanhã


“Conta a lenda que em 1722, um ano de grande seca, os habitantes de Campanhã fizeram uma procissão em honra a nossa Senhora. A imagem caiu do andor e partiu uma mão e no local da queda brotou água no dia seguinte. A fonte que então nasceu existe ainda na Rua de Bonjóia, com algumas alterações depois da construção da Via de Cintura Interna do Porto. Existe também um cruzeiro em memória do milagre e uma capela que foi inaugurada em Julho de 1967, perto da mesma fonte.” Site da Associação Nun’Alvares.


Marco de demarcação da freguesia de Campanhã - 1666

domingo, 3 de junho de 2012

LIMITES DA CIDADE - III


2.2.5 Limite Norte - Lapa

O Culto a Nossa Senhora da Lapa vem desde 1498. Ao subir a serra da Lapa encontramos um dos mais antigos e famosos santuários portugueses, que atrai peregrinos de todo o país. A capela inicial de Nossa Senhora da Lapa foi construída pelo povo logo após a aparição da imagem. Mas o culto é muito anterior, havendo quem o remeta para o século X, quando as investidas dos mouros fizeram com que a população cristã tenha escondido uma imagem da Virgem numa gruta ou "lapa" na Serra do mesmo nome, diocese de Lamego.

You Tube – Santuário de Nossa Senhora da Lapa
http://www.youtube.com/watch?v=7EFEjlCC-xY



Capela do Santuário e capela original na rocha


Imagem no Santuário e penedos estreitos - diz a lenda que só passam entre estes dois penedos quem não tiver pecados mortais!


Antiga cadeia – o actual Reitor da Lapa, Rev. Padre José Amorim, transformou este caduco edifício numa esplêndida hospedaria onde recebe sacerdotes que necessitam de descanço.


Antigo colégio dos Jesuitas. A primeira pedra foi lançada em 28/6/1685 e a construção demorou algumas dezenas de anos. Estava muito arruinado e foi transformado em  centro de acolhimento dos peregrinos e casa de retiros, pelo actual Reitor.


“Capela oriunda da freguesia de Quintela, foi doada por um habitante da região e mais tarde transferida pedra a pedra para a Lapa, onde actualmente, nos dias de maior afluência de peregrinos, nomeadamente nos dias de romaria, serve para a celebração de uma missa campal, pois com a enorme afluência de devotos o Santuário torna-se pequeno.” site de Sernancelhe.



O povo costumava, em momentos de grande aflição, fazer promessas a Cristo, Nossa Senhora ou Santos da sua devoção. Entre os diversos tipos de promessas contava-se a representação, num quadro, a graça recebida. São inúmeros os ex-votos encontrados por todo o país e o mesmo acontece no Santuário de Nossa Senhora da Lapa. O da direita recorda o “Milagre que fez nª. Sª da lapa a João Ribeiro Santo Sisto Junior que lebou uma facada e a senhora lhe deu saúde”.

O culto de Nossa Senhora da Lapa no Porto



A Irmandade de Nossa Senhora da Lapa foi instituída em 1755 pelo Papa Bento XIV




Para o Porto a devoção foi trazida do Brasil pelo Padre Ângelo de Sequeira, nos meados do séc. XVIII. Em 1755 foi construída uma pequena capela, no cimo do monte de Germalde, cuja frontaria se encontra nas traseiras da actual igreja, virada a nascente. Os capelães dedicavam-se ao Sacramento da Confissão, pelo que veio a chamar-se Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e Confissões. Confessavam pessoas de todos os estratos sociais que não queriam ser vistas. Daí haver um contínuo turno de confissões, inclusive durante a noite. Iam lá também ladrões e malfeitores, que por vezes devolviam os bens roubados. Em 1756 iniciou-se a actual Igreja que só foi concluída em 1863.


Capela da Lapa ao abandono




Este colégio foi frequentado por alunos que se vieram a distinguir nas letras e ciências, tais como Eça de Queiroz e Ricardo Jorge. O filho do director era José Ramalho Ortigão que mais tarde foi lá professor e director.
A zona da escola para os meninos foi anteriormente a primeira Capela de Nossa Senhora da Lapa e das Confissões, desactivada quando foi construída a nova Igreja.




Altar Mor – foto do blog Inbikta



Foi a 8 de Julho de 1832 e D. Pedro IV entrou no Porto em 9. Autor Roque Gameiro



        Foto de José Pedro Durão

You Tube - Video sobre o coração de D. Pedro IV
http://www.youtube.com/watch?v=iDekl8nHLB4&feature=related

Em O Tripeiro, Série VII, Ano XVIII, nº. 7-8, o Senhor Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva escreve: “ O Rei-Soldado, pouco depois de levantado o sítio e da victória definitiva do Liberalismo, faleceu precocemente no Palácio de Queluz, às duas horas e meia da tarde do dia 24 de Setembro de 1834. Na véspera do triste apagamento, dia 23 pelas quatro horas da manhã, sentindo-se desfalecer, dirigiu-se aos brasileiros, manifestando-lhes a sua dedicação e aproveitando para ditar algumas últimas vontades. Entre elas, destaca-se a de deixar o seu” coração à heróica cidade do Porto, theatro da minha verdadeira glória…””.


  
Órgão de tubos romântico, construído por Georg Jann, em 1995. No dia da sua inauguração, Maio de 1995, foi tocada a obra de Widor (1834-1937) que este compôs e executou na inauguração do orgão do Palácio de Cristal em 1865.

You Tube – Video sobre Igreja da Lapa



“O hábito de utilizar o interior das igrejas como cemitério vem quase desde o início do Cristianismo, apesar de ter sido muitas vezes considerado abusivo, uma vez que implicava o enterramento de pecadores lado a lado com relíquias de santos. Porém, a Igreja Católica nunca conseguiu evitar esse facto. Só raramente os mortos eram sepultados longe das igrejas: aquando de grandes mortandades e no caso de falecidos fora do catolicismo. A pressão demográfica e as questões higiénicas, num contexto ideológico Iluminista, foram os principais factores que fizeram com que, a partir do século XVIII, algumas vozes se levantassem contra as inumações no interior das igrejas. Em Portugal, as primeiras tentativas legislativas no sentido de acabar com os enterramentos nas igrejas não deram resultados, muito porque o processo de laicização da sociedade portuguesa estava bastante retardado em relação a outros países europeus. Assim, foi necessário que muita tinta corresse até que os cemitérios públicos portugueses fossem oficialmente criados, em 1835. Porém, existiram experiências anteriores e o Porto, como em quase tudo nessa época, foi pioneiro na criação de cemitérios fora das igrejas. 

Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres. Nesse ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839". Site da C.M.P. 
Neste cemitério estão sepultadas algumas das figuras mais destacadas da nossa cidade tais como: Camilo, Arnaldo Gama, Soares de Passos, Silva Porto, Alves da Veiga, Raul de Caldevilla e Heitor Campos Monteiro. Estiveram durante uns anos os restos mortais da infeliz Fanny Owen que depois de raptada por José Augusto Pinto de Magalhães, e com ele ter casado em 5/9/1853, morreu tuberculosa após um trágico romance amoroso. Ele também morreu no mesmo ano.


Em 1800 a Junta das Obras Públicas ofereceu à Irmandade da Lapa um terreno com a condição de se conservar exclusivamente ao uso do público, sem qualquer construção. Foi criada uma bela alameda muito conhecida por se realizar aí a célebre festa do S. João da Lapa, a que já nos referimos. 



A irmandade decidiu construir, na referida alameda, um hospital. Para tal a D. Luzia Joaquina Bruce contribuiu com dinheiro e acções no valor total de duzentos contos de reis. Assim, em 18/8/1902 foi lançada a primeira pedra pelo bispo D. António Barroso. O autor do projecto foi o Arq. Joaquim Augusto Pinto Basto. Ainda por concluir foi inaugurado em 28/9/1904. Por dificuldades financeiras este hospital não pode ser concluído de uma só vez. Em 16/11/1948 faleceu a Snª. Condessa de Santiago de Lobão, tendo deixado parte dos seus bens à Irmandade. Com estes valores pôde finalmente terminar-se o hospital nos anos 50 do século XX.


Capela do Senhor do Socorro, antigamente chamada do “Senhor do Olho Vivo” - foto de J. Portojo


O Dr. Eugénio Andrea da Cunha Freitas em seu livro Toponímia Portuense escreve que “A capela do Senhor do Olho Vivo já existia junto do padrão velho de Santo Ovídio em 1755, quando se começou a edificar a Igreja da Lapa. Sob o altar desta capela está ou esteve um cruzeiro datado de 1622 com as imágens de Cristo e de Santiago que dizem ter sido levantado por peregrinos indo a Compostela. Seria talvez o referido padrão velho de Santo Ovídio. Segundo a tradição, recolhida pelo nosso bom amigo Horácio Marçal, a curiosa denominação do Senhor do Olho Vivo derivava de se recomendar aos caminhantes que tivessem “olho vivo”, para se defenderem dos ladrões que se acoitavam nas trazeiras da capela, nesse lugar então solitário. O falecido Engº. Monteiro de Andrade atribuia ao topónimo outra origem: “existia aqui uma casa onde esteve instalado um telégrafo óptico, por tal motivo chamavam-lhe sugestivamente o lugar do”olho vivo”. No princípio do nosso século (XX) passou a denominar-se Capela do Senhor do Socorro”.