sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

BAIRROS DA CIDADE XXVIII


2.3.6 - Bairro da Boavista - III 


Avenida da Boavista, cruzamento com as Ruas de Agramonte e 15 de Novembro. 
Quando ainda havia plátanos nas laterais e as linhas dos eléctricos traçavam os pneus dos automóveis.


Portão e Capela do Cemitério de Agramonte

“A 2 de Agosto de 1832, por motivos de ordem estratégica D. Pedro IV deu ordem para queimar e arrasar a importante casa de campo, muros e árvores da bela quinta de Agramonte, uma das mais formosas e produtivas dos subúrbios do Porto. D. Pedro foi pessoalmente levar a notícia, à viúva de Joaquim Pinho de Sousa e apresentar-lhe as suas desculpas, e assegurar-lhe que seria a primeira a ser indemnizada pelo seu justo valor logo que as circunstâncias o permitissem. Afinal parece que tal nunca sucedeu, apesar de repetidos requerimentos do tutor dos menores. Continuou um monte inculto até ser expropriado, em 1855, por uma quantia “miserável” para se construir um cemitério.” – texto coligido por Jorge Rodrigues.
Os cemitérios públicos portugueses foram oficialmente criados em 1835. Em 1855 a situação dos cemitérios no Porto alterou-se radicalmente , já que se deu uma grande epidemia de cólera. As autoridades civis conseguiram fechar os cemitérios privativos que não tinham condições e, paralelamente, mandaram construir, de forma apressada, um novo cemitério municipal: Agramonte.  O cemitério de Agramonte em finais do século XIX, tornou-se o modelo preferido para os cemitérios mais pequenos da cidade do Porto e arredores, sobretudo pelo facto de prestigiadas Ordens Terceiras da cidade terem estabelecido ali os seus cemitérios privativos (Carmo, Trindade e S. Francisco), que rapidamente se encheram de belos monumentos. Sendo assim, os cemitérios do Prado do Repouso e Agramonte são também verdadeiros "museus da morte". A Capela Geral do Cemitério de Agramonte, cuja construção foi aprovada pela Câmara Municipal do Porto em 24 de Maio de 1866, substituiu a capela original que era de madeira e existia desde a inauguração do Cemitério no ano de 1855. 
A planta é da autoria do Eng. Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa, Director e professor do Instituto Industrial do Porto. As obras de construção iniciaram-se em 1870/71, sendo a planta posteriormente alterada relativamente á capela-mor, que ficou com configuração redonda, saliente em relação ao edifício, o que não estava inicialmente previsto. 


O projecto da capela-mor, para ampliação da Capela, é da autoria do Arquitecto Municipal José Marques da Silva e datado de 22 de Fevereiro de 1906. 


Jazigo Municipal - fotografia de A. Amen



Capela da família dos Condes da Santiago de Lobão – foto de Teodósio Dias


Jazigo dos Conde de Ferreira

Joaquim Ferreira dos Santos (Porto 1782-1866) foi comerciante e filantropo. Tendo conseguido grande fortuna no Brasil e em África, em boa parte pelo tráfico de escravos de Angola para o Brasil, após o seu regresso a Portugal dedicou-se à filantropia. Fez construir 120 escolas primárias e contribuiu com valiosos donativos para a S. C. M. do Porto. Tendo contribuído financeiramente para causa de D. Maria II esta fê-lo conde em 1856. Com a sua herança foi construído um hospital para doentes mentais, que ainda ostenta o seu nome.


Jazigo aos mortos do incêndio do Teatro Baquet, de 21 de Março de 1888



Igreja do Santíssimo Sacramento – Inaugurada em 15 de Maio de 1938, foi obra da paróquia dirigida Mons. António Augusto da Fonseca Soares.


"Esta casa, na esquina da Avenida da Boavista com a Rua de Belos Ares, não foi construída por um qualquer «brasileiro- de-torna-viagem», nem foi propriamente demolida. Foi a morada do banqueiro Manoel Pinto da Fonseca, e destruída por um incêndio, no dia 14 de Outubro de 1926.
Os irmãos Pinto da Fonseca fizeram fortuna como negreiros. Quando regressaram, os dois dos irmãos fizeram carreira como banqueiros. Criaram a casa Fonseca que depois haveria de dar origem ao Banco Fonsecas e Burnay.
Hoje é o Bingo do Boavista...num prédio de Valentim Loureiro...É a vida..." Texto de António Coutinho Coelho.


Avenida da Boavista – à esquerda vê-se o telhado da casa de Boaventura de Sousa – lembrámo-nos muito bem destes plátanos, que foram abatidos para alargar as vias de trânsito, passar as linhas de eléctricos para as laterais e porque as suas raízes levantavam o piso e eram perigosas para os automóveis. Foto dos anos 40 do séc. XX? A casa da direita pertencia à família Chambers.


Palacete Boaventura Rodrigues de Sousa – Construído entre 1895 e 1900 - esteve desocupado de 1910 a 1926. Foi Colégio de Nossa Senhora do Rosário de 1926 a 1958 – Colégio dos Maristas de 1959 a 1991 e actualmente pertence ao BES.



“A primeira referência relativa á área abrangente da freguesia de Lordelo do Ouro, remonta ao século XII, mais concretamente ao ano de 1144. Pertencendo ao julgado de Bouças, Comarca da Maia do Bispado do Porto, Lordelo do Ouro é, por decreto-lei de 26 de Novembro de 1836, integrado no Concelho do Porto. Contava então, com cerca de 2.000 habitantes.Localizada no ponto de contacto entre o rio e o mar, Lordelo do Ouro era tipicamente lugar onde imperavam a marinhagem, a pesca e a construção naval como actividades principais. É de salientar que foi dos estaleiros do Ouro que saíram grande número de Naus da frota que partiu à conquista de Ceuta...


...Este bravo feito está testemunhado pelo monumento situado no Jardim António Calem, de autoria de Lagoa Henriques, que pretende homenagear todos os portuenses que contribuíram paro tal conquista.
A esta actividade marítima deve-se também a construção de monumentos religiosos, como é o caso da Capela de Santa Catarina e a Capela setecentista de Nossa Senhora da Ajuda, construídas em locais elevados, a mando dos marinheiros, seus devotos, de forma a serem avistadas desde a entrada da barra do Rio Douro.” In site da Freguesia de Lordelo do Ouro. 

No século XIX, Lordelo do Ouro assistiu à implementação de algumas unidades industriais de certa importância para a freguesia. Foi o caso da Companhia Portuguesa de Fósforos e da Fábrica de Lanifícios de Lordelo, hoje desactivadas.


Companhia Portuguesa de Fósforos - arquivo do CPF

“Os primeiros documentos oficiais que referem a indústria portuguesa de fósforos datam de 1870, embora se fabricassem, em pequenas oficinas e fábricas especialmente no norte, fósforos de enxofre, antes desta data. Em 1895, saem medidas legais restritivas, de forma a disciplinar o fabrico, provocando o desaparecimento da maior parte delas. Neste contexto, é fundada, por decisão governamental, a Companhia Portugueza de Phósphoros, cujos estatutos foram aprovados por alvará de 16 de Maio de 1895.  Através de uma proposta do político Hintze Ribeiro, foi concedido o exclusivo fabricação e o Estado viabilizou um contrato que acabou por ser assinado pelos accionistas das fábricas de fósforos em Abril desse mesmo ano. O objectivo consistia na exploração exclusiva do fabrico e venda de fósforos em Portugal, através de duas fábricas, uma no Porto e outra em Lisboa, nas quais eram produzidos fósforos de enxofre, integrais e fósforos amorfos ou de segurança, de cera e de madeira. Em 1925, finda a concessão estatal, ou seja, os trinta anos de exclusividade de mercado. A Match and Tabacco Timber Supply Co. adquiriu todo o activo e passivo da Companhia Portugueza de Phósphoros. Criada em 1926, a Sociedade Nacional de Fósforos (SNF) herdou os alvarás da extinta empresa, abrindo duas fábricas, uma em Lordelo do Ouro no Porto e outra no Beato em Lisboa, contando com a participação de 25% do Estado. A sua actividade consistia em dar uma resposta constante à concorrência das outras duas unidades existentes: a Fosforeira Portuguesa de Espinho e a Companhia Lusitana de Fósforos do Porto. Em 1930, a SNF formou uma parceria com a Swedish Match3 que introduziu nova tecnologia na produção da fábrica portuguesa. Segundo o Boletim Estatístico de 1963, a produção das quatro fábricas foi de mais de 16 biliões de fósforos, num valor superior a 100 mil contos, dos quais foram exportados mais de 400 toneladas de valor superior a 12 mil contos. Nessa altura, estavam empregadas nas referidas fábricas mais de 800 pessoas. Esta última deixou de laborar em 1991, encerrando definitivamente em 1993.” In Museu dos Fósforos



Fábrica de Lanifícios de Lordelo

A Fábrica de Lanifícios de Lordelo ou Fábrica de Serralves, actualmente em ruínas, estava localizada  na rua de Serralves, freguesia do Lordelo do Ouro. Foi edificada em 1803, no lugar da Monteira ou Mouteira, por Plácido Lino dos Santos Teixeira. Devido à proximidade da quinta dos frades, alguns autores afirmam que a fábrica teria sido instalada nos edifícios de um antigo convento, mas no processo de licenciamento da fábrica de Plácido Lino dos Santos Teixeira apenas se faz referência aos campos que pertenciam aos frades e dos quais se pede adjudicação. 
Sondagens arqueológicas em 2007 detectaram a existência de três estruturas diferenciadas: Uma fábrica do século XX, uma fábrica do século XIX, a "fábrica de panos" e um reduto militar das guerras liberais, o Forte de Serralves, possivelmente no local da cisterna de abastecimento de água à fábrica do século XX.


O que resta da Capela de S. Francisco Xavier, na Rua de Serralves, em frente à fábrica de Lanifícios de Lordelo.




Palacete dos Viscondes de Vilar d’Allen - Foi mandado construir, nos últimos anos da década de 1920, pelo 3º Visconde de Vilar d'Allen, Joaquim Ayres de Gouveia Allen, para sua residência. O projecto foi concebido pelo arquitecto José Marques da Silva (1869-1947). Em 1991, foi construída, nos seus jardins, a Casa das Artes, projecto do Eduardo Souto Moura.


“Em 1 de Agosto de 1903, um grupo de ingleses e portugueses, mestres e técnicos da fábrica Graham, começaram a chutar uma bola, num terreno da Mazorra, hoje chamado Ciríaco Cardoso. O terreno era demasiado pequeno para o jogo, mas não era possível alargá-lo mais. Passado algum tempo mudaram-se para a Rua da Fonte Arcada, próximo do Bessa. Foi a partir deste momento que começou o verdadeiro entusiasmo pelo jogo da bola, que os ingleses trouxeram de Inglaterra. Forma-se então, um grupo de entusiastas, composto entre outros, por Harry, Chico Bastos, John Jones, Joaquim Ferreira, Manuel Ribeiro, Ângelo Seixas, Ricardo Costa, Frank Jess, Robinson, Holroyd e F. Brindle. Estes, juntamente com outros empregados da fábrica Graham, uniram-se e arrendaram um terreno no Bessa pertencente ao Sr. António Mascarenhas, o qual hoje é designado por Estádio do Bessa. É então formada uma Direcção composta por ingleses e três portugueses, que eram: Pedro Brito, Maximiano Pereira e João Fernandes. Constituída esta Direcção, organizavam-se vários desafios de "Foot Ball". Estava fundado o BOAVISTA FOOTBALLERS. No início de 1905, era já bastante grande o número de sócios ingleses e portugueses, que constituíam o BOAVISTA FOOTBALLERS. Foi nessa Direcção, por parte da fábrica Graham, resolvido não jogar aos domingos, do que resultaram várias desavenças. Os ingleses, como sucede ainda hoje no seu país, não estavam dispostos a realizar os jogos aos domingos, contrariando assim os desejos dos portugueses que pretendiam jogos nesses dias. Numa disputada Assembleia Geral, em 30 de Abril de 1909, reuniram-se todos os sócios para resolver a situação. Procedeu-se então à votação: jogos aos domingos ou jogos aos sábados. Venceram os votantes dos jogos aos domingos. Em face deste resultado, a Direcção inglesa (Graham) desistiu do campo do Bessa ficando a vigorar uma nova Direcção constituída por Pedro Brito, João Fernandes, Domingos Rodrigues, Maximiano Pereira e um senhor de apelido Faria, resultando assim, o BOAVISTA FUTEBOL CLUBE. Deste modo, com a saída dos ingleses, teve de ser feito novo contrato com o proprietário do terreno de jogos, Sr. António Mascarenhas, no qual assim ficou na história como primeiro Presidente da Direcção do Clube."


"A sequência dos equipamentos utilizados foi: 
1.º Camisa preta e calção branco.
2.º Camisa às riscas verticais pretas e brancas e calção preto.
3.º Camisa azul, vermelho e branco e calção preto.
4.º Camisa xadrez, calção preto e meia branca. 
O equipamento axadrezado apareceu quando Artur Oliveira Valença, presidente na altura, proprietário do jornal desportivo "Sports" e promotor de espectáculos desportivos, numa ida a França, observou uma equipa de futebol a jogar com camisola xadrez. Como a mesma respondia às cores preto e branco do Boavista, decidiu fazer a sua introdução no clube como o seu Equipamento oficial, que se mantém até hoje. 
Quanto às instalações, só uns anos depois se viram realizadas as maiores aspirações do Clube, com a inauguração das suas instalações desportivas em local próprio. Em 11 de Abril de 1910, foi inaugurado o campo do Boavista, ao Bessa. Presidiu ao festival o ilustre comandante da Guarda Municipal. O Porto elegante desse tempo, compareceu no Bessa, pelo desejo de assistir pela primeira vez a um jogo de futebol. A colónia inglesa representada em elevado número juntou-se aos seus amigos portugueses do Boavista. Para início da grande festa, apresentaram-se em campo as equipas do Boavista e do Leixões. Deu o pontapé de saída o Sr. António da Costa Mascarenhas, proprietário e presidente do campo inaugurado. Assistiram ao encontro cerca de duas mil pessoas, considerado na altura número de presenças recorde. O resultado seria um empate a três bolas. Integrado neste programa, realizaram-se ainda várias provas de atletismo e, à noite, num hotel, foi servido o banquete. 
É pois, o Boavista Futebol Clube, o mais antigo clube português de futebol, podendo afirmar-se que foi o primeiro clube português a introduzir o profissionalismo, em Janeiro de 1933. Mas a revolução que o facto produziu então no panorama do futebol português, com o clube "axadrezado" a derrotar todos os adversários, como o Benfica e o Sporting, provocou o fim da inovação. Com efeito, em face da sua inferioridade, os outros clubes decidiram boicotar o Boavista, alegando que não podiam jogar contra profissionais. O Boavista, afastado das suas competições oficiais, sem adversários para defrontar, teve de regressar ao amadorismo".



“A evolução do símbolo do Boavista passa por um escudo, rectangular, cujo campo é formado por treze quadrados pretos e doze brancos, dispostos em xadrez, encimado por uma faixa, de cor preta com as iniciais B.F.C., em branco, e uma coroa doirada, igual à que era usada no antigo brasão da Cidade. O escudo significa a muralha contra a qual se quebram o ímpeto e a valentia dos adversários, e a coroa o compromisso de bem honrar esta "Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto".  In Boavista Karate

Assistência ao Concurso Hípico no Campo do Bessa em 1913



Originalmente inaugurado em 1972, o Estádio do Bessa foi reconstruído no início do século XXI, tendo sido palco de três partidas do Euro 2004.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

BAIRROS DA CIDADE - XXVII


2.3.6 - Bairro da Boavista - II


Planta de Teles Ferreira, 1892, desde a Praça da Boavista (Mouzinho de Albuquerque) à Rua João Grave, antiga Rua de Fonte Arcada

Na planta acima pode ver-se, á volta da Praça da Boavista, no sentido dos ponteiros do relógio e começando pelo meio-dia, os seguintes locais: Avenida da Boavista, início Poente; “remise"  dos americanos e máquinas a vapor; Rua Príncipe da Beira, hoje Rua 5 de Outubro; Estação dos Caminhos de Ferro da Póvoa, hoje um banco; Rua dos Brandões, hoje princípio da Avenida da França; Rua das Valas, hoje de Nossa Senhora de Fátima; Hospital Militar D. Pedro V; Rua de Júlio Dinis, aberta até à Rua da Torrinha; Quinta do Bom Sucesso; Coliseo Portuense, praça de touros até 1898.
Na Rua de Agramonte vê-se o Cemitério Occidental. Quando da sua construção, as principais irmandades do Porto reservaram as zonas onde pretendiam colocar os jazigos dos seus irmãos defuntos. Leem-se os talhões da Trindade, S. Francisco e Ordem do Carmo. Também se pode ver uma pequena zona destinada aos não católicos. O mesmo aconteceu no Cemitério do Prado do Repouso.
 



A Praça da Boavista foi, durante muitos anos, local onde se realizaram importantes feiras. A Feira de S. Miguel, talvez a mais importante da cidade, realizava-se a 29 de Setembro na Cordoaria, desde os anos de 1672 a 1876. Por essa época a Câmara deslocou-a para a Boavista. “Prolongava-se esta feira por uns dias (um mês, aproximadamente) e nela apareciam à venda as alfaias agrícolas, os tamancos, os jugos e cangas, os móveis de madeira de pinho em cru  os cestos, varapaus, chapéus de palha, todo género de quinquilharias, louça de barro grosseiro, cereais,  muita cebola e muita abóbora, os típicos doces de Paranhos e da Teixeira, as fritadas etc. As barracas de comes e bebes também não faltavam no recinto bem assim como as diversões. Em matéria de comestível, além das regueifas de Valongo e das nozes, sobrelevavam-se aos restante produtos, as características espetadas, constituídas por carne de porco assada em espetos e vendida ao público espetada num pauzinho. 
Na feira de S. Miguel do ano de 1906, como novidade sensacional e como número de invulgar atracção, apareceu o primeiro animatógrafo ou cinematógrafo portuense – o salão High Life – instalado num modesto barracão de madeira coberto de folha zincada, ali mandado construir por Manuel da Silva Neves, que em Novembro desse ano de 1906, depois de terminada a feira de S. Miguel, passou a dar sessões de cinema mudo no largo fronteiro à Torre dos Clérigos, na Cordoaria, onde se conservou bastante tempo e para além da inauguração, em Fevereiro de 1908, do novo salão High-Life, na Praça da Batalha, do mesmo proprietário. No ano de 1906, a Câmara Municipal anunciou a mudança da feira de S. Miguel para o largo da Arca d’Água. Todavia, os feirantes, de comum acordo e fazendo orelhas moucas, deliberaram tomar de arrendamento um terreno particular na mesma rotunda da Boavista (onde estivera uma praça de touros) e aí continuaram a realizá-la pelo curto período de 2 ou 3 anos”. O Tripeiro série VI, Ano X. 
Foi transferida em 1909 para a Arca d’Água até 1917. 
A feira dos criados ou moços e moças da lavoura mudou da Praça dos Ferradores (actual Carlos Alberto) para a Boavista em 1876. Realizava-se duas vezes por anos. Em Novembro para os trabalhos de Inverno e em Abril para os de Verão. Esta feira era muito concorrida. Apareciam os lavradores e os criados que pretendiam trabalho. Havia um diálogo entre eles e quando chegavam a acordo davam um aperto de mão e tomavam um copo de vinho acompanhado de pão ou broa, que era oferecido pelo patrão, seguindo de imediato para os locais de trabalho. 
A Praça da Boavista foi ajardinada em 1906 passando o trânsito de veículos a fazer-se à sua volta.


Praça Mouzinho de Albuquerque e Cemitério de Agramonte – foto de Carlos Romão – início dos anos 80 de Séc. XX – ainda se vê a "remise" dos STCP, onde está hoje a Casa da Música, e o Mercado do Bom Sucesso.



Foto de Rubens Craveiro



Fotos.afasoft.net


Fotos de Fernando Pedro

A Guerra Peninsular foi a que uniu os portugueses e os ingleses contra os exércitos de França, de Napoleão Bonaparte, na Península Ibérica, no período de 1808 a 1814. No centro da Praça de Mouzinho de Albuquerque, ergue-se este monumento comemorativo. Da autoria do arquitecto Marques da Silva e do escultor Alves de Sousa esta obra levou muitos anos a ser concluída. Coube à Cooperativa dos Pedreiros o encargo de o erigir, sendo começado em 1909 e apenas inaugurado em 1951. Dada a morosidade do tempo de construção e a morte do escultor Alves de Sousa, ainda jovem (38 anos), a obra foi concluída sob a direcção dos escultores Henrique Moreira e Sousa Caldas. É composto por um pedestal, de 45 metros de altura, rodeado de grupos escultóricos em bronze. Estes, representam cenas de artilharia em movimento, podendo ver-se também soldados ingleses que vieram apoiar Portugal, a intervenção das gentes do povo na luta e o desastre da Ponte das Barcas. De notar a presença do elemento feminino em todos os grupos: no da frente, uma mulher, a Vitória, empunha, na mão esquerda, a bandeira nacional e, na direita, uma espada. Na base tem figuras de soldados e cenas de factos ligados às guerras napoleónicas, em relevos esculpidos no granito.  Duas datas podem ver-se em duas frentes da base da coluna: MDCCCVIII e MDCCCIX. A mensagem que estes números transmitem integra-se no espírito regional da estatuária portuense. Entre 1808 e 1809 a cidade esteve ocupada pelo exército de Soult. Assim sendo, o monumento pretende homenagear os heróis portuenses que resistiram e venceram este general. No pedestal, estão apostas as armas da cidade. Nos longos anos em que só existia a parte inferior do monumento o povo chamava-lhe o “castiçal” a que ainda  faltava a vela!


Na esquina com a Praça de Mouzinho de Albuquerque encontrava-se a casa da família Oliveira e Sá, industriais de cordas, que foram nossos amigos durante largos anos.




No local do palacete acima foi construído, em 1976, o primeiro centro comercial da Península Ibérica, o Brasília. Foi o princípio de uma revolução no comércio a retalho do Porto, pois iniciou um nova visão de comercializar que, aos poucos, quase destruiu o pequeno comércio de loja. Descentralizou a tradicional zona comercial do centro histórico, que muito sofreu com isso. Esta nova centralidade da cidade, na Boavista, foi     provocada  pela abertura da Ponte da Arrábida e da Via de Cintura Interna. A Ponte Luis I era um tremendo estrangulamento da ligação a Gaia, sofrendo diariamente demoradíssimos engarrafamentos. Quando a Ponte da Arrábida foi aberta, e durante alguns anos, quase não tinha movimento. Actualmente sofre do mesmo mal de que sofria a Ponte Luis I nos anos 50 do passado século. Daí a necessidade de se construírem novas ligações.





A Câmara Municipal do Porto contratou a empresa ARS Arquitectos, dos Arquitectos Fortunato Leal, Cunha Leão e Morais Soares, para desenhar um novo mercado municipal para a cidade. O edifício foi projectado em 1949 e as obras iniciaram-se em 1951, sendo o novo edifício marcado por uma arquitectura moderna com uma boa iluminação natural. Foi inaugurado em 1 de Julho de 1952. Tem três pisos, de forma a aproveitar o declive natural da área, sendo bordejado com lojas independentes. Outra particularidade é a separação zonal do mercado, situando-se a peixaria num nível inferior de forma a permitir um melhor arejamento. O primeiro piso contém ainda uma galeria que circunda o mercado na qual podemos encontrar lojas independentes, como talhos e padarias.



A tourada foi um dos divertimentos preferidos dos portuenses. Houve, mesmo que episodicamente  várias praças de touros no largo da Aguardente (Marquês de Pombal), Foz do Douro, Rua da Alegria, Serra do Pilar e Praça da Boavista. Desta, mostramos acima duas fotos. Inaugurada em 28/7/1889 foi demolida no segundo semestre de 1898. Na tourada inaugural os bilhetes custavam o seguinte: Sol, 300rs; Sombra,600rs; Tribuna, 1200rs; Camarotes de Sol, 3.000rs; Camarotes de Sombra, 4.500rs. Tinha cerca de 8.000 lugares. Horácio Marçal diz-nos que: «A mais remota notícia acerca de touradas na cidade do Porto, pelo que sabemos, data de 24 de Junho do recuado ano de 1785, e refere-se a uma corrida de touros efectuada, com todo o esplendor, por ocasião das luzidas Festas Reais, em praça especialmente construída para o efeito no lugar da Torrinha, à estrada de Cedofeita». 



Foto Ricardo Morales
Na zona onde existiu a praça de touros foi construído o Tabernáculo Baptista. A Igreja Baptista Portuguesa tinha sido organizada de forma oficial no dia 20 de Dezembro de 1908. O templo só foi inaugurado alguns anos mais tarde, a 13 de Fevereiro de 1916. A sua construção foi financiada pelo comerciante inglês Charles Jones, o que influenciou na adopção de uma arquitectura similar à do Tabernáculo Metropolitano de Londres..



A Máquina na "remise" da Boavista, acabada de chegar de Matosinhos. Princípio séc. XX.


A primitiva "remise" da Boavista onde recolhiam a máquina e os americanos. Mais tarde também os eléctricos – construída em 1874, ardeu em 1928.


Das várias infraestruturas que apoiavam o funcionamento da rede de carros eléctricos do Porto, o local mais importante era a Boavista. Já desde a abertura da segunda linha de americanos em 1874, se situava aqui a sede da “Companhia de Carris de Ferro do Porto”. A Boavista e a sua mítica "remise" não abrigava apenas eléctricos, era também, a casa dos carros de tracção animal e  das máquinas a vapor. 
O seu momento mais negro viveu-se em 1928, mais precisamente a 28 de Fevereiro. Nesse dia a "remise" da Boavista foi destruída por um grande incêndio, onde se perderam vários exemplares de carros eléctricos, dos quais o carro eléctricos (CE) nº 22, (actualmente replicado e em exposição no museu do carro eléctrico), para além das próprias instalações. Posteriormente no mesmo local, onde hoje se encontra a Casa da Musica, foi construída uma nova "remise" e novas oficinas com um total de 20 linhas e por este facto era conhecida como as “Vinte Portas”, havendo mesmo quem as contasse para ter a certeza que este nome era verdadeiro. Esta é substituída pela de Massarelos em 1988 e desmantelada em 1999. 


Antiga sede dos STCP na esquina da Avenida da Boavista com a Rua de 15 de Novembro. Hoje encontra-se aqui um grande prédio.



Casa da Música - Foi projectada pelo arquitecto holandês Rem Koolhaas, como parte do evento Porto Capital Europeia da Cultura de 2001, no entanto, a construção só ficou concluída em 2005. Foi construída no local onde estava a recolha dos eléctricos, na Praça Mouzinho de Albuquerque. O custo inicial previsto para a construção, excluindo o valor dos terrenos, era de 33 milhões de euros, acabando por custar 111,2 milhões e ficando concluída quatro anos depois do prazo inicial previsto. 
Foi alvo de uma grande polémica devido ao atraso e ao elevadíssimo desvio no custo de construção. Infelizmente as altíssimas expectativas da Capital Europeia da Cultura foram grandemente frustradas. Obras muito caras e descaracterizadoras em vários locais da cidade, em especial no Jardim da Cordoaria, na Praça da Liberdade e na Avenida dos Aliados. As que não foram começadas ou terminadas “safaram-se” desta hecatombe. 
Para este local esteve prevista, nos anos 60 do séc. XX, a construção de um teatro municipal.



Máquinas a vapor na estação da Boavista – 1968. Esta estação foi construída em via reduzida para as linhas da Póvoa de Varzim e Famalicão. As linhas foram inauguradas, respectivamente, em 1873 e 1875. Foram suprimidas em 1965.

sábado, 5 de janeiro de 2013

BAIRROS DA CIDADE - XXVI

2.3.6 - Bairro da Boavista - I

Com o Bairro de Vila Nova, ARC concluiu os 5 bairros em que dividiu a cidade do seu tempo, “para a tornar mais compreensível ao conhecimento do leitor”. Seguindo o seu critério, vamos descrever o que chamamos Bairro da Boavista, tratando as vizinhanças da Rua e Avenida com este nome.
A Rua da Boavista e a Avenida que se lhe segue, isto é, desde a Praça da República ao Castelo do Queijo, têm a extensão de 6.620 metros, divididos nos sectores seguintes: Rua da Boavista 880 m.; Avenida da Boavista até à Praça Mouzinho de Albuquerque 350 m ; Praça Mouzinho de Albuquerque 220 m. de diâmetro; Avenida da Boavista 5.000 m.; Praça Gonçalves Zarco 170 m de diâmetro. Este trajecto atravessa e confina com as freguesias de Cedofeita, Massarelos, Ramalde, Lordelo do Ouro, Aldoar e Nevogilde.


Planta de Teles Ferreira, 1892, desde a Praça da República à Praça da Boavista, actual Mouzinho de Albuquerque.


A primeira parte, a mais antiga deste percurso, é a Rua da Boavista, que começa na Praça da República e termina na esquina da Rua de Santa Isabel. O seu nome deriva do facto de ter sido aberta em terrenos da Quinta de Santo Ovídio, cujo antigo nome era de Quinta da Boa Vista, pertencente a Manuel Figueiroa Pinto. Este proprietário ofereceu parte da sua quinta para ser aberta esta rua, em 1794. Pertence à Freguesia de Cedofeita.


Junta de Freguesia de Cedofeita


Antiga Igreja da Colegiada de Cedofeita. Sobre este tema trataremos, mais pormenorizadamente, lugar próprio.


A Colegiada de Cedofeita tinha rendimentos avultados, pois o seu couto era vasto e muito fértil. A área que lhe pertencia foi integrada na cidade em 1710, juntamente com Massarelos. Porém a Colegiada manteve-se separada da diocese até 1910. Em 1907 o prior queixava-se de grandes dificuldades económicas e pelo que estava ameaçada de ruína, pois o local era pouco povoado. Alguns priores foram personalidades importante, tais como D. Gonçalo Pereira que foi deão da Sé do Porto, Arcebispo de Braga e depois de Lisboa e que era avô de S. Nuno de Santa Maria; o infante D. Henrique que foi Arcebispo de Braga, de Évora e depois Cardeal e Rei de Portugal. 


Desde 1910 existe no nº. 158 o Grande Colégio Universal. Este edifício pertenceu a uns tios de Almeida Garrett e este ia lá visitá-los de vez em quando. Tem um brasão dos Silvas, Almeidas e Leitões.


Na esquina da Rua da Boavista com a Rua das Águas Férreas esteve esta fonte que agora se encontra no Parque da Cidade. Está ligeiramente alterada da original.


Abaixo deste colégio, á direita, fica a Rua das Águas Férreas, onde existiu a grande Quinta de Santo António da Boavista, que pertenceu à família dos Sousas e Melos, desde o séc. XVIII a meados do XIX. Era uma grande e bela quinta que descia desde a Lapa até à Carvalhosa, hoje Rua de Aníbal Cunha. Tinha um mirante na parte superior donde se podia ver o mar. Ficava no alto do monte da Lapa. 


Já tivemos a oportunidade de apreciar esta vista de cima de um antigo moinho de vento, que ainda existia há poucos anos. Ainda lá se encontrava, encostada a uma parede, a mó. D. Pedro IV, durante o cerco do Porto, passava lá para ver , deste lugar privilegiado, o decorrer das operações.


Bem perto fica a Capela da Ramada Alta, construída a partir de 28/6 1737 e restaurada em 1883.


A Casa da Pedra é um singelo edifício urbano construído no século XVIII, em zona onde uma nascente de águas sulfúreas havia dado origem ao topónimo Águas Férreas. .Nesta casa viveu o escritor Oliveira Martins no último quartel do séc. XIX. A casa ficou conhecida por ser o local de encontro dos intelectuais da Geração de 70 em tertúlias dinamizadas por Antero de Quental, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, e Ramalho Ortigão, os quais, com Oliveira Martins, compunham o chamado "Grupo dos Cinco".


Joaquim Pedro de Oliveira Martins (Lisboa, 30 de Abril de 1845 - Lisboa, 24 de Agosto de 1894) foi escritor e político.


O Hospital de Crianças Maria Pia, foi fundado em 1/1/1883, começou a funcionar na casa da família Chaves, à Rua da Carvalhosa, e transferido para a esquina da Rua Augusto Luso, para um edifício construído sob projecto do Eng. Estevão Torres, em terreno oferecido por D. Emília Cabral. Por falta de segurança e integração no Centro Materno Infantil do Norte os seus serviços foram provisoriamente transferidos para o Hospital de Santo António.




O Eng.  da Câmara Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa ( Porto 1818-1899) foi o  criador da abertura de uma avenida, larga e moderna, à imagem dos Champs Élisées de Paris. Projectou-a em meados do séc. XIX. Importante personalidade da cidade, dirigiu as obras do Palácio da Bolsa, da Academia Politécnica e do Palácio de Cristal, entre muitas outras. Foi um dos fundadores da Associação Comercial do Porto e desenhou a escadaria em pedra e o salão árabe do Palácio da Bolsa. Foi Catedrático da Academia Politécnica do Porto. 
A Avenida da Boavista começa na esquina da referida Rua de Santa Isabel e só termina na Praça Gonçalves Zarco, perto do Castelo do Queijo e do mar.



Início do século XX


Ainda antes de chegarmos à Praça da Boavista (hoje Praça Mouzinho de Albuquerque) encontramos o Hospital Militar D. Pedro V. Foi construído em terrenos do lugar de Pardelhas, entre as Ruas da Boavista e das Valas. A sua construção “foi autorizada por Carta de Lei de 18 de Abril de 1854, por D. Fernando II, Regente em nome do seu filho menor, o Rei D. Pedro V. Lançada a primeira pedra em 22 de Abril de 1862 foi baptizado em homenagem ao Rei D. Pedro V, falecido no ano anterior. Recebe os primeiros doentes em 1869, quando só 1/3 do projecto estava concluído. Na sequência do golpe militar de 1910 o hospital passa a designar-se "Hospital Militar do Porto". Quando da reorganização do Exército de 1926 o estabelecimento passou a ser o hospital da 1ª Região Militar, com a designação de "Hospital Militar Regional nº 1". Em 1990, em homenagem àquele grande rei, o hospital voltou a incluir o nome do Rei D. Pedro V na sua designação oficial que passou a ser "Hospital Militar Regional nº 1 (D. Pedro V) ”. O Tripeiro Série VI, Ano X. As obras só terminaram em 1914. 
Quando da construção da capela foi para lá deslocado um dos altares barrocos do Convento de Monchique que ardeu no grande incêndio de 27 de Julho de 1918.