domingo, 8 de setembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - IV

3.5.6 - Palácio de Cristal - I


Uma lei do Ministro Fontes Pereira de Melo pretendia que se organizassem sociedades agrícolas em todas as capitais de distrito. Reconhecia-se nela que “a agricultura era o recurso mais valioso e fonte mais abundante da riqueza nacional”. No Porto, por influência do Governador Civil, do Barão do Valado, foi criada a Sociedade Agrícola do Distrito do Porto, em Dezembro de 1854. O Dr. António Cruz, na História da Cidade do Porto coordenada pelo historiador Dr. Artur de Magalhães Basto, escreve: “Dispondo agora de todos os meios de que carecia, a comissão respectiva escolheu o Campo da Torre da Marca com a quinta adjacente, então já denominada de Carlos Alberto, como local mais indicado para a implantação de pavilhões e barracas destinados a recolher os produtos e animais que seriam expostos. Foi de 3 dias - 12,13 e 14 de Julho de 1857- o prazo estabelecido para manter a Exposição Agrícola aberta ao público. Não era de prever que a exposição despertasse, da parte do público, o interesse que ficou a assinala-la. Interesse que não era apenas evidente através da quantidade de expositores e qualidade dos produtos expostos porque o era também – e não esqueçamos que tudo isto se passou há um século e que foi esta a primeira grande exposição realizada em Portugal – através do subido número de forasteiros que acorreram nos 3 dias, ao Campo da Torre da Marca: nada menos de 10.000 pessoas. Uma vez mais o Porto foi o primeiro”.   


Planta do Porto – já aparece o Palácio de Cristal e a Alfândega Nova – publicação de 1865

O palácio de Cristal foi construído em terrenos que pertenciam à Câmara e nos conhecidos 7 campos que eram de particulares e que tiveram de ser expropriados. 
Foi criada a Sociedade do Palácio de Cristal tendo sido emitidas acções de 100$000 num total de 100 contos de reis, podendo o capital subir a 200 contos de reis.


1900


Medalha comemorativa do lançamento da primeira pedra do Palácio de Cristal, em 3 de Setembro de 1861, presidida pelo Rei D. Pedro V.


A frontaria já está construída e as obras da estrutura em ferro estão no seu início. Só em 19 de Abril de 1864 chegou de Londres a primeira remessa de ferro para a armação do tecto.


Antes da construção do Palácio de Cristal houve exposições agrícolas e industriais nesta cidade. De destacar o êxito da agrícola e industrial de 1857, a que acima nos referimos, bem como a industrial de 25 de Agosto a 16 de Setembro de 1861, realizada no Palácio da Bolsa. Esta, teve tal sucesso que o rei D. Pedro V a visitou por três vezes. Aproveitando a sua presença na cidade, foi-lhe pedido que presidisse ao lançamento da primeira pedra do Palácio de Cristal, a que ele acedeu, e se realizou em 3/9/1861. Fruto destes êxitos e por iniciativa de alguns ilustres portuenses, dos quais se destacou Alfredo Allen, 1º visconde de Villar d'Allen, numa época de grande desenvolvimento da indústria no norte do país e em especial na nossa cidade do Porto, foi construído um edifício à semelhança do Crystal Palace de Londres. Tinha por finalidade a realização, em lugar condigno, da grande Exposição Internacional do Porto, que se realizou em 1865. Para tal, acrescentaram-se ao terreno camarário da Torre da Marca, na Rua dos Quartéis, hoje Rua D. Manuel II, os 7 campos particulares em volta. A sua construção foi iniciada em 1861 e o autor do projecto, de três naves, foi o arquitecto inglês Thomas Dillen Jones. 
Durante a sua construção e exploração houve sempre grandes dificuldades financeiras que por pouco não puseram em causa a possibilidade de ser terminada a obra. Um homem, porém, decidiu a sua conclusão, pondo todos os seus muitos bens a cauciona-la, o médico-cirurgião Dr. António Ferreira Braga. Dado que a exploração foi sempre deficitária, os seus bens foram hipotecados, tendo falecido em 1870 na maior pobreza. 
D. Luis I veio, propositadamente, ao Porto para inaugurar o Palácio em 1865.





Perspectiva rara – vê-se o coreto e a Casa da Torre da Marca, na Rua do Triunfo – os jardins ainda estão pouco ornamentados.


Fachada posterior

O Palácio de Cristal viveu sempre com grandes dificuldades financeiras. Lembremos o infeliz, mas dedicadíssimo cidadão do Porto, Dr. António Ferreira Braga que, médico de grande fortuna, veio a morrer pobre por ter posto os seus bens como aval da construção e manutenção, logo em 1865.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - III

3.5.5 – Ditos e frases feitas


Escreve Ramalho Ortigão: “A língua é tão diferente que não nos entenderíamos se falássemos hoje aos nossos filhos a linguagem que ouvíamos então aos nossos pais. A um copo de vinho do Porto chamava-se “uma pinga de choco”, a um concerto “uma musicata”; era “Zé Pereira” um bombo; de um baile dizia-se “uma súcia”; e um passeio pelo rio acima uma “franciscanada”.


Há um dito muito comum no Porto, e possivelmente em mais zonas do país, que demonstra desprezo ou menor consideração por alguém. É ele “para quem é bacalhau basta”. Na verdade antigamente o bacalhau era um prato consumido pelas famílias mais pobres, pois era um alimento barato, e que a alta burguesia não apreciava. Sendo seco, conservava-se muito tempo.


Vem isto a propósito de uma interessante figura da Madalena (V. N. Gaia), da segunda metade do séc. XIX, que frequentava habitualmente os cafés e lugares públicos do Porto. 
Era o António Gomes Moraes da Magdalena, homem com uma extraordinária memória e que gostava de se divertir com os amigos usando esta seu dom. Chamavam-lhe o Memorião. Sabia de cor toda a obra da Camões, inclusive os Lusíadas, e enormes textos de outros autores.


Certa noite, no Teatro de S. João, houve um importante sarau de gala em que, durante um intervalo, o poeta Guilherme Braga (1845/1874) declamou, do seu camarote, um poema que foi muito aplaudido. Dado o entusiasmo do público, teve de o recitar segunda vez e de novo com grande sucesso. 
No intervalo seguinte, pelos corredores, as conversas giravam à volta de tão grande talento e os cumprimentos e palmadinhas nas costas do autor eram efusivos. O nosso Moraes, chegando-se perto de Guilherme Braga, afirmou em alta voz que já conhecia aquela peça literária. Todos os presentes, sobretudo o poeta, ficaram paralisados e estupefactos. Seria que Guilherme Braga, tão conhecido como bom poeta, teria copiado aquele poema? Como confirmação do que afirmava o Moraes recitou-a total e correctamente. Foi um momento de perplexidade e todos se viraram para Guilherme Braga esperando a sua reacção. Este, confuso, excitado e, possivelmente vermelho de fúria e vergonha, afirmou que tinha composto aquele poema para essa noite especial e o não tinha dado a conhecer. Para salvar a reputação do poeta, então o Moraes declarou que lhe tinha bastado ouvir duas vezes o poema para o decorar e afirmou que não havia dúvida que o autor era Guilherme Braga. 
Mas, pensarão os leitores, que tem isto a ver com o dito “para quem é bacalhau basta”. 
Calma! Ainda temos outras histórias a contar antes da explicação. 

Frente ao monumento ao Infante D. Henrique existiu a Sociedade Camilo Castelo Branco, frequentado pelo Porto culto. Uma tarde, em solene sessão, numa data ligada àquele escritor, o Conselheiro José Augusto Correia de Barros (Porto 1835 – 1908) proferiu um discurso, possivelmente muito solene e longo, como era costume na altura. Aliás, este conselheiro era conhecido como escritor, jornalista, político etc. Homem de categoria! Foram recitados versos e textos do homenageado. Depois da sessão a direcção da sociedade ofereceu um copo d’água aos oradores, jornalistas e outros, tendo o Moraes sido convidado. Eis senão quando o Moraes, perante a perplexidade de todos os presentes, reproduziu o discurso do conselheiro de princípio a fim! E como brincadeira ainda recitou uma estrofe dos Lusíadas ao contrário, do 10º verso para o 1º. E, para mais espanto, repetiu o discurso de outro orador da tarde, Alves Mendes. 


Alguns amigos do Moraes forçaram-no a que oferecesse um almoço na sua terra, pois pretendiam ver o ambiente em que ele vivia. Mas, com a maior franqueza, informou-os que a Madalena era uma freguesia muito pobre e que receava não lhes poder oferecer um repasto ao seu gosto. Porém, eles insistiram e foi marcado dia para esse encontro gastronómico. Chegados à Madalena seguiram para uma tasca onde lhes foi servido um caldo fresco seguido de uma travessa de bacalhau cozido com batatas e cebolas de que pouco comeram. Tomaram por galhofa a prevenção, mas quando viram que a travessa saía da mesa para dar lugar a umas maçãs, sempre perguntaram ao Moraes se aquilo era a sério. 
–Pois não vos disse que a terra não tem recursos? Tendes de sujeitar-vos ao que há em casa. Nesse caso, amigo Moraes mande vir outra vez o bacalhau que nós sem comer é que não ficamos. 
É nossa convicção que o Moraes, tendo sido obrigado a oferecer o almoço, terá, propositadamente, seguido o aforismo popular. 


Já no séc. XVII se vendia no Porto o bacalhau, que em 1671 tinha o preço máximo de 25 reis o arrátel (459 gramas). Este peixe era vendido na Ribeira, junto da antiga fonte e só por negociantes devidamente autorizados pela câmara. Os barqueiros e particulares estavam proibidos de transportar para Gaia este portuense pitéu, salvo com licença da mesma.


Outro dito popular era “Vá receber ao falcão”! “Dizem-me que Falcão foi um antigo funcionário da Alfândega do Porto e era um endiabrado boémio. Foi hóspede de várias pensões e nunca pagava as mensalidades; quando se aproximava o fim do mês, mudava de pensão e assim comia e dormia sem gastar dez reis. Mas isto acontecia também com o sapateiro, com o alfaiate, etc., pois quando o procuravam na casa onde lhe tinham levado as botas ou o fato ele já tinha desaparecido. Presume-se que venha daí a frase – vá receber ao Falcão, visto ele nunca pagar”.


“Ir para o maneta” – Quando, em 1808, se deu a primeira Invasão Francesa, Junot veio acompanhado pelo General Louis Henri Loison famoso pela sua crueldade, torturando e matando numerosas pessoas. O general perdera um braço, num acidente de caça, tendo, por essa razão, ganho a alcunha de “O Maneta”. Passados que são 200 anos ainda se usa este dito popular associado à expressão "mandar ou ir para o maneta", com o significado original de ir para a tortura ou para a morte. Actualmente, a expressão pode significar "dar cabo de alguém ou de alguma coisa", "destruir", "escangalhar-se", "estragar-se", "perder-se e não ter recuperação".

Cuidado com a língua! 


Outra frase muito ouvida é “sou um portuense de gema”. Segundo Helder Pacheco os tripeiros da gema são os de Sé, S. Nicolau e Vitória (1583): da clara são os de Cedofeita, S.to Ildefonso e Miragaia (séc. XVII/ XVIII ), Foz, Lordelo e Campanhã (1836), Paranhos (1837) e Bonfim (1841 ) . Da casca são as da coroa disto tudo ,as mais recentes ,mas dentro dos limites da cidade : Nevogilde , Ramalde e Aldoar(1895).


“A cavalo dado não se olha a dente” – Como é sabido, quando alguém pretendia comprar uma cavalgadura, verificava o estado dos seus dentes pois, era por eles que aquilatava a sua idade e saúde. Ora se era dado…


“Do tempo do arroz de 15” – Tempos houve em que o arroz, que se importava da Índia, da China e de outros países, não pagava direitos alfandegários e era vendido a 15 reis o arrátel (0,459 kg.). 


“Sair pela porta do cavalo" – Esta expressão, quando usada no Porto, significava que alguém se eximia a sair sem ser vista, usando a porta das trazeiras. Isto, porque tinha na consciência pesada e não queria, por cobardia, ser confrontado com os outros. A “porta do cavalo” era a que existia nas trazeiras do Hospital de Santo António e que servia como porta de passagens das carruagens e dos cadáveres. Tinha um batente com a cabeça de um cavalo.


“Mandar às malvas” – expressão com muitas centenas de anos. No local em que está a Igreja dos Clérigos existiu “o campo das malvas” por aí haver muitas dessas plantas. Era o cemitério dos enforcados portanto, lugar maldito. Mais acima, onde está a Torre dos Clérigos existiu a Capela do Senhor dos Aflitos onde se realizavam os responsos daqueles infelizes. No séc. XVIII, quando da construção daqueles templos, esta capela foi mudada para o jardim do Hospital de Santo António. O cemitério dos enforcados passou a ser nas trazeiras deste hospital na Rua dos Quartéis, hoje D. Manuel II. Assim, “mandar às malvas” era uma expressão repulsa.


No último quartel do séc. XIX, com grande publicidade, apareceu no Teatro Circo (depois Príncipe Real e hoje Sá da Bandeira) uma mistificação denominada “Metempsicose” que atraiu muita gente, na esperança de assistir a coisas fantasmagóricas.
Num salão completamente às escuras aparecia, sobre o fundo preto, um busto de mulher com aparência de gesso. Usando espelhos e luzes “começava a incidir um ténue colorido que muito lentamente se ia modificando até que o busto tomava a cor natural de gente viva até que se tornava no perfeito busto de uma linda rapariga, que até ali era de gesso. Mexia os lábios e os olhos com tais sorrisos que naquela escuridão nos tornava a todos mexedores…”. In O Tripeiro, Volume 3, Dezembro de 1910.

Deste espectáculo nasceu a frase, durante muitos anos repetida, “está lá ou é de gesso?
Pretendia-se com esta expressão perguntar: estás disposto a aturar-me?; é verdade ou é mentira? etc...


O mercador portuense Afonso Martins (Alho), procurador do concelho, foi enviado por D. Afonso IV à Inglaterra com a finalidade de tratar com Eduardo III um acordo económico, que permitisse, entre outras coisas, a pesca de barcos portugueses naquela costa. Regressado, teve a anuência do Rei para em 20 de Outubro de 1353 assinar, em Windsor, o primeiro tratado entre Portugal e Inglaterra. Terá sido mesmo o primeiro tratado do mundo entre dois países. Dado a sua habilidade e diplomacia foi considerado um excelente embaixador dos nossos interesses. Os portuenses criaram então o aforismo “esperto como o alho”. Ainda hoje, mais de seiscentos anos depois, esta frase é repetida mas, infelizmente, duma forma deturpada, “esperto como um alho”, o que lhe tira qualquer sentido.




Existe no Porto a Rua Afonso Martins Alho, entre a Rua das Flores e a de Mouzinho da Silveira, e onde se encontra a conhecida Adega do Olho.

domingo, 1 de setembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - II

3.5.4 – Serões e festas de família e de clubes


Horácio Marçal em O Tripeiro, Número Especial de 1974, e referente ao séc. XIX, informa-nos que: “De Inverno, como não havia festas, faziam-se visitas a pessoas amigas ou aparentadas, por via de regra, á noite. Aí pelas 10 horas, servia-se o chá, que os visitados, com simulada modéstia, designavam por pinga de água morna. Juntamente, apareciam as fatias de pão com manteiga, os biscoitos de argolinha, ladrilhos de marmelada e queijadas do mosteiro de S. Bento de Avé Maria, iguarias estas dispostas na bandeja com determinado requinte. Se algum dos convidados não apreciava chá (o que raras vezes acontecia), serviam-lhe então uma pinga do choco, isto é, um cálice de vinho fino. No final do delicado repasto, vulgarmente, jogáva-se o loto ou quino a feijões. O jogo do quino era divertidíssimo, não tanto pela natureza, como pelas facécias que os circunstantes lhe interpunham ao cantarolarem os números. Se não havia jogatina, havia musicata ao piano pelas meninas ou pela dona da casa, pois nesses tempos já passados, era chique e de boa distinção saber dedilhar o teclado de um piano”. 
Estes romanticos serões terminavam ordinariamente pela seguinte frase atirada da porta da sala à multidão amarruada “está lá em baixo o criado das senhoras com o saco de chales e o lampião”. 

Alexandre Heculano viveu no Porto cerca de um ano, tendo acompanhado D. Pedro IV na sua entrada na cidade em 1832, com 22 anos. Foi-lhe dada a incumbência organizar a Biblioteca Municipal. Em carta, escrita em 1862 a uma senhora do Porto, afirma: "O Porto passou sempre por produzir bem só quatro cousas: dinheiro, morangos, nevoeiros e patriotas: eu protestei constantemente que produzia além disso uma quinta – lindas meninas. É verdade que começei os meus protestos quando vivia no Porto e tinha 25 anos; mas ainda hoje guardo pura a religião com que os fiz”.



“O uso do chá generalizou-se no Porto por acasião de duas grandes epidemias do reinado de D. PedroV. Até então era remédio para compor o estomago ou, quando muito, bebida de grande cerimónia. Mas depois que foi adoptado como ceia inofensiva servia-se às 9 horas da noite, o mais tardar, nas melhores casas da cidade” Alberto Pimentel




Sede da Assembleia Portuense a partir de 1859 – foi demolida aquando da construção da Avenida dos Aliados e ficava no local onde hoje se encontra o Clube dos Fenianos

A Assembleia Portuense foi fundada em 31/5/1834 na antiga Praça da Erva, depois Largo do Laranjal e finalmente Praça da Trindade. Pretendeu-se criar um local onde os associados pudessem encontrar-se para conversarem, jogarem “jogos lícitos” e lerem. Também aí se realizavam bailes de grande agrado dos sócios em que eram servidas bebidas e doces. Interessantes eram algumas das regras que proibiam os associados de entrar em certos locais com capote, chapéu e galochas que deveriam deixar na portaria. Só na sala de bilhar e de leitura era permitido usa-los. Era proibido cuspir, assobiar, discutir alto para não perturbar a ordem. Na sala de leitura o silêncio deveria ser absoluto. 
Este clube destinava-se à mais alta burguesia. 
Jocosamente chamavam à sala de convívio o “Palheiro”, pois tinha o chão forrado com uma “alcatifa” em esparto para maior comodidade dos sócios. Irónicamente, Camilo afirmou desconhecer a razão, mas como esta palavra vem de palha, talvez fosse para designar o alimento dos que a frequentavam. Todas as noites era distribuído gratuitamente pelos presentes chá e bolos. Em 1842 tinha mais de 300 associados. 
Em consequência do empobrecimento desta classe, por força das lutas políticas dos anos 40 do séc. XIX, houve muitos sócios que abandonaram a A.P. pelo que esta sofreu graves prejuízos. Pretendeu a Direcção acabar com o referido chá gratuito, o que causou grande divisão entre os associados. Realizaram-se diversas A.G. e ao fim de mais de um mês de discussões, os que pretendiam continuar com este costume perderam a votação em A. G. (c.f. Alberto Pimentel), pelo decidiram fundar uma nova associação.



Sede do Clube Portuense a partir de 1857, onde estava a Assembleia Portuense desde 1834 até à cisão dos sócios. Esta casa pertencia à família Ferreirinha.

Assim, em 24/5/1857 foi fundado, pelos associados dissidentes da A.P., o Clube Portuense. Eram várias dezenas de personalidades da Cidade do Porto, entre os quais se encontravam proprietários, futuros titulares, homens de governança da Cidade e diversos estrangeiros, nomeadamente ingleses cuja colónia detinha uma grande influência na sociedade e economia da Cidade. A Assembleia de Constituição foi na Casa da Fábrica, mais tarde infelizmente destruída. Era uma das mais belas casas do Porto e foi prometido reconstruí-la na Cordoaria, mas nunca tal veio a acontecer. 
Em 1924 mudou-se para a Rua de Cândido dos Reis, para o edifício aí construído pelo Conde de Vizela, onde ainda hoje se encontra.
Na década de 1980, o edifício foi adquirido pelos sócios ao antigo banqueiro António Brandão Miranda.


Este clube teve desde o séc. XIX uma intensa vida social, onde se realizaram dos melhores bailes da cidade, além de muitas outras actividades. Recebeu a visita de D. Pedro V em 1860 e da família Real, D. Luis, a rainha e seus filhos, em 1863; D. Carlos, em 1884, D. Manuel II, em 1908, e do Presidente da República, Dr. Cavaco Silva.





Carnaval de 1905


Carnaval de 1906


1931

“Comemorou-se a 25 de Março deste ano o aniversário deste clube fundado por um grupo de bons Cidadãos Nortenhos – o CLUBE FENIANOS PORTUENSES. Inscreve na sua bandeira a legenda “PELO PORTO” – símbolo da divisa que no futuro orientaria as suas realizações, a favor do progresso e civilização da CIDADE INVICTA .Os primeiros estatutos do clube são aprovados por alvará do Governo Civil do Porto a 17 de Junho de 1904. 
Colectividade de grande prestígio realizou ao longo de anos e anos, eventos na cidade do Porto, como Cortejos de Carnaval, Bodas aos pobres, festejos de St. António, festas de Verão, além de ter contribuído com a sua influência social para a resolução de carências da cidade e da sua população, como a abolição das Portagens da Ponte D. Luís I, a regalia do descanso dominical, a inauguração rápida dos serviços de viação eléctrica para V.N. de Gaia, a criação de sociedades de Previdência Social, a criação do Teatro lírico ou Teatro modelo (hoje Teatro Nacional de S. João), o socorro a vitimas de catástrofes e o auxilio a combatentes, o alargamento do Estatuto do Porto de Leixões, de porto de abrigo a porto comercial.
Na construção da actual Sede Social foi lançada a 1º Cunhal em Agosto de 1920 com a presença do Dr. António José de Almeida, então Presidente da República, e que já em 1910 tinha inscrito no LIVRO DE HONRA do clube a seguinte frase: “ ESTE CLUBE É O EXEMPLO DE QUE A UNIÃO FAZ A FORÇA ”.
A partir daqui foram muitas as acções e actividades desenvolvidas, desde ginástica, iniciação musical, bilhar, filatelia, xadrez, ténis de mesa, conferências e debates sobre vários temas.
São inúmeras as homenagens, os galardões, as medalhas de mérito e os louvores recebidos de diversas entidades da vida portuense e nacional". In Associação das Colectividades do Concelho do Porto

Carnaval de 1905 - Vídeo





Nas festas da alta sociedade do séc. XIX e até anos 20 do passado século, as meninas levavam um carnet de bal no qual iam anotando o nome dos cavalheiros que as convidavam para dançar e que elas aceitavam. Alguns eram muito luxuosos e mostravam a riqueza da família a que pertenciam. Por vezes causava dissabores ou revolta entre os candidatos, ou porque pretendiam antecipar a sua vez ou mesmo porque lhes era negada a dança pelos pais ou pela pretendida. Não era raro uma menina aceitar sucessivamente a inscrição do mesmo cavalheiro, o que era logo notado e comentado pela assistência. Estamos persuadidos que em casos extremos terá levado a algum um duelo. 


Mas havia outro tipo de carnet. Em certos bailes era distribuído um, à entrada, com a sequência das obras que iam ser executadas e seguida de uma linha onde era anotado o respectivo convidado.



Nos princípios do século XX existiu o Casino da Ponte, situado à esquerda da saída em Gaia do tabuleiro superior da ponte Luis I. “Ocupava um bizarro conjunto de edifícios entre a rua depois chamada do Casino da Ponte, à cota do tabuleiro superior e, lá em baixo, a Calçada da Serra, distribuindo-se por patamares pela escarpa abaixo. O edifício principal aproveitara as cantarias do demolido mosteiro de S. Bento de Avé Maria do Porto”. Gonçalves Guimarães em O Polo Industrial da Serra do Pilar.
Este edifício era da propriedade de Abílio Loureiro Dias, que o arrendou a José Luis de Couto Querido. Este instalou o casino que foi destruído por um grande incêndio em 21/8/1919.


“A história deste clube, que começou por ser uma sociedade recreativa (Sociedade Nova Euterpe, fundada em 29 de agosto de 1869) para se tornar num clube burguês, está intimamente ligada à própria história da cidade do Porto, identificando-se especialmente com as suas atividades culturais e cívicas. Ainda hoje os ideais desta associação mantêm uma "cultura da pluralidade", recebendo e promovendo actividades culturais e artísticas num clube privado aberto à cidade. Esta tendência de disponibilizar ao exterior o usufruto de alguns dos seus espaços remonta às suas origens, no século XIX. 
A primeira sede desta sociedade, na Rua da Porta do Sol, foi mais tarde substituída, a 31 de maio de 1885,por um edifício mais apropriado, situado na Rua de Passos Manuel, no centro da Baixa portuense. 
Detém na sua biblioteca mais de 80 mil volumes e possui um museu privativo.” (Infopédia)


Foto dos anos 40 do séc. XX


O Clube de Leça foi fundado em 1/9/1884 na casa de Gustavo Adolfo de Sousa Oliveira, tendo pouco depois passado para uma casa pertencente a José Nogueira Pinto, onde esteve atá 1914. Após ter passado por várias dificuldades, mudou em 1938 para o local onde ainda hoje se encontra. Durante a sua existência lá se realizaram muitas sessões culturais, concertos, reuniões dançantes, excelente serviço de restaurante. Por lá passaram alguns dos maiores artistas musicais nacionais e estrangeiros, destacando-se Óscar da Silva e Guilhermina Suggia. Mas muitos outros vultos do teatro, literatura e outras actividades culturais por lá passaram. 
Depois e uma grande crise durante os anos 80 e 90, o clube “renasceu” pela entrada de novos sócios interessados em dinamizar o clube. 
Hoje está em plena actividade, sobretudo no Verão, com a presença de muitos sócios e de seus filhos, atraídos pela piscina. 


O Brig. Nunes da Ponte fala-nos no Clube de Leça em 16/2/1901: “para as festas e reuniões onde se dançasse, mesmo nos clubes ou casinos de verão, era rigorosamente exigido o uso de luvas. Nos bailes calçavam-se luvas brancas. 
Nenhum rapaz convidava qualquer senhora para dançar sem que previamente tivesse sido apresentado aos pais ou pessoas de família que as acompanhassem, e durante as festas as mamãs sentavam-se geralmente junto das suas filhas, cujos passos pressurosamente vigiavam”.