segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

CONVENTOS DE RELIGIOSOS - XIX

3.12.11 – Convento de Santo António da Cidade - I



Planta do Porto - 12 local do convento



Projecto do Convento

“1747 - Alguns religiosos franciscanos da Província da Conceição vêm para a cidade do Porto e fundam um Hospício, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.

1749 - Dionísio Verney, homem de negócios, está a acabar de construir, no Campo de São Lázaro, uma capela, mais tarde adquirida pelos Religiosos da Província da Conceição para estabelecimento de um Hospício Regular.

1753 - Em disposição testamentária, Dionísio Verney refere-se à construção, em São Lázaro, de um convento, convento esse que tinha intenção de ceder aos Padres da Ordem da Santíssima Trindade.

1755 - Morre Dionísio Verney, sendo sepultado na sua capela, ao Campo de São Lázaro.

1776 - Maria Angélica Teresa vende a António José Mendes Guimarães a capela, bem como três moradas de casas, sitas no Campo de São Lázaro, que tinham pertencido a seu irmão, Dionísio Verney.

1778 - D. Maria I concede aos Religiosos Menores da Província da Conceição autorização para fundarem um Hospício Regular na cidade do Porto.

1779-1780 - Os Religiosos da Província da Soledade opõem-se a que os da Província da Conceição estabeleçam um Hospício Regular no Porto. Por isso, D. Maria I manda nomear um desembargador para superintendente da fundação do referido Hospício.

1780 - Em 26 de Novembro, os Religiosos da Província da Conceição compram a António José Mendes Guimarães uma «capella publica com casas místicas a ela» e outras casas e terrenos, situados no Campo de São Lázaro, que haviam pertencido a Dionísio Verney. A 30 de Novembro, a comunidade religiosa muda-se, das casas que habitava na Rua de Santa Catarina, para o edifício de São Lázaro. A 11 de Junho, o Ministro Provincial, Frei António das Dores, faz a primeira visita ao Hospício estabelecido em São Lázaro. No dia 3 de Julho, os Religiosos adquirem mais casas e terrenos para ampliação do seu Hospício.

1782 - É eleito, a 23 de Julho, o primeiro Prelado do Hospício de Santo António da Cidade, com voto e com o nome de Presidente «in capite».

1785 - Continuam as obras no Hospício, procedendo-se à extracção de pedra na Quinta da Fraga, às Fontainhas.

1789 - O edifício está ainda por concluir e promete vir a ser «um dos maiores Conventos da Cidade», segundo refere o Padre Agostinho Rebelo da Costa na «Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto».

1790 - O Hospício passa a Convento e Casa Capitular. Frei António de Jesus toma então posse como Guardião.

1791 - Realiza-se o primeiro Capítulo Provincial no Convento de Santo António da Cidade, a 27 de Agosto.

1808 - São abertas vinte e seis sepulturas nas «quadras do claustro», benzidas a 23 de Maio. Em Julho, é estabelecido no Convento um depósito para móveis e roupas das tropas espanholas que ocuparam a Cidade durante a 1ª Invasão Francesa. No mês de Abril, passa a funcionar no Convento um hospital para tropas francesas, hospital esse que, a partir de 20 de Maio, é destinado às tropas portuguesas. A 29 de Abril, o Guardião do Convento, Frei José de Jesus Maria, assina, por si próprio e pela comunidade, a acta da Vereação extraordinária da Câmara em que foi acordado comunicar a D. Miguel que a cidade do Porto o queria como legítimo representante da Coroa.

1829- 1830 - Prosseguem as obras na Igreja e sacristia.

1830 - Toma posse, em Capítulo Provincial de 29 de Maio, o décimo oitavo e último Guardião do Convento, Frei António da Natividade.

1831 - Em 3 de Dezembro é celebrado o último Capítulo (intermédio) no Convento do Porto.

1832 - Continua a construção da nova Igreja, encontrando-se já a capela-mor muito adiantada. Em 20 de Maio, é registada a última patente, dada pelo Ministro Provincial, Frei Francisco de Santa Maria dos Anjos, no Convento do Porto. O Ministro Provincial faz a última visita ao Convento, no dia 4 de Junho. O Convento é abandonado pelos Religiosos no dia 9 de Julho, data da entrada do Exército Libertador na Cidade, permanecendo apenas um membro da comunidade, Frei Joaquim da Assunção. A 14 do mesmo mês, o Convento é ocupado por tropas inglesas que combatem ao lado dos liberais, as quais furtam móveis, alfaias religiosas e livros. No dia 26 do referido mês, são fuzilados pelos liberais, o Irmão Definidor, Frei Francisco da Pureza, e o Irmão Corista, Frei António de Ave-Maria, que se haviam refugiado na Quinta do Fojo. Na presença de Frei Joaquim da Assunção, são inventariados, a 30 de Agosto, os bens do Convento. Em 25 de Setembro e 3 de Outubro, é retirada a «Livraria», a qual é entregue ao Bibliotecário da Comissão dos Conventos Extintos ou Abandonados. O Batalhão Francês, que ocupava o Convento, abandona-o em Novembro, tendo feito nele grandes estragos, o que leva a Comissão dos Conventos Extintos ou Abandonados a comunicar o sucedido a D. Pedro IV. No dia 13 desse mês, a referida Comissão compra um livro de coro, pertencente ao Convento, que estava na posse de um soldado francês.

1833 - Em Outubro, a mesma Comissão entrega a João Baptista Ribeiro, entre outros quadros e painéis, a «Ceia» da autoria de Joaquim Rafael, que havia pertencido ao Convento de Santo António da Cidade. Em 30 de Dezembro, por o Prefeito do Douro e a Comissão Municipal entenderem que a Biblioteca Pública – provisoriamente instalada no Hospício de Santo António de Vale da Piedade, à Cordoaria, e no Paço Episcopal – necessitava de um edifício mais espaçoso, é mandado examinar, para esse efeito, o «abandonado Convento de Santo António da Cidade», por uma Comissão constituída pelo 1º Bibliotecário, Diogo de Góis Lara de Andrade, pelo Arquitecto da Cidade, Joaquim da Costa Lima Sampaio, e pelo 2.º  Bibliotecário, Alexandre Herculano.

1834 - O Prefeito do Douro, em 13 de Março, remete ao Governo as plantas da Praça de São Lázaro e do Convento de Santo António da Cidade, bem como o orçamento das despesas necessárias para neste edifício se instalar o Museu e a Biblioteca.

1836 - Em Agosto, é anunciada a venda dos «materiaes das Igrejas nova, e velha do extincto Convento de Santo António da Cidade».

1839 - O edifício do Convento é doado à Câmara do Porto, em 30 de Julho.

1842 - É definitivamente instalada no edifício do Convento a Real Biblioteca Pública do Porto e inaugurada em 4 de Abril, dia do aniversário da Rainha D. Maria II”.
Meireles, Maria Adelaide – Cronologia - in O Convento de Santo António da Cidade: exposição no 150.º aniversário da instalação definitiva e da abertura oficial da Biblioteca Pública Municipal do Porto.


Convento de Santo António da Cidade - Gravura de Joaquim Villanova – 1833 – nas obras de transformação para Real Biblioteca a igreja, ainda em construção, foi destruída.

“Em 1747, religiosos franciscanos da Província da Conceição, vieram à cidade do Porto, para aqui fundarem um Hospício, da invocação de Nossa Senhora da Conceição. No ano de 1780 compraram uma capela pública e outras casas e terrenos, no Campo de S. Lázaro. Em Novembro desse ano mudam-se para S. Lázaro. Em 1790 o Hospício passa a convento e casa capitular. Assim nasceu no Porto o Convento dos Frades Menores Antoninhos da Província da Conceição, mais conhecido por Convento de Santo António da Cidade. A sua construção prolongou-se por vários anos, e ainda no ano de 1832 prosseguiam as obras da nova igreja. Em 9 de Julho de 1832, o convento é abandonado, por se ter verificado a entrada na cidade do Porto das tropas liberais. No dia 14 o convento é ocupado pelas tropas inglesas. 
Em 1833 a Biblioteca Pública, que provisoriamente estava instalada no Hospício de Santo António do Vale da Piedade, na Cordoaria, e no Paço Episcopal, começa a ser mudada para o Convento de S. Lázaro. Em 1839 o Convento é doado à C.M.P. e em 4 de Abril de 1842, dá-se a inauguração de Real Biblioteca Pública do Porto.” - Fernando Moreira da Silva em Boletim dos Amigos do Porto de 2003.


Biblioteca Municipal do Porto – 1848 – a vermelho está desenhada a área a ser construída “pra tornar o edifício regular e simétrico”. 


Brasão virado à Rua Visconde de Bóbeda – foto Manuel José Cunha


Fonte no Convento


Além de convento, este edifício foi Real Biblioteca Pública do Porto, Academia de Belas Artes…



…e o Museu Portuense. primeiro museu público de Portugal.


No seu livro O Porto do Romantismo Artur de Magalhães Basto diz: “O primeiro museu público do país foi o Museu Portuense (1833), criado por D. Pedro IV no rigor do cerco. Também se lhe chamava Ateneu D. Pedro. O seu recheio constava do espólio dos conventos extintos nas províncias do Norte, das obras de arte encontradas nas casas particulares sequestradas, e do fundo que pertencera à Academia Real da Marinha e Comércio do Porto… O museu Municipal foi por essa época  fundado, - manifestação de bairrismo inteligente e prático -, com a compra da colecção Allen (1850), a melhor colecção particular que existia na cidade e, talvez, em Portugal”.
Em 1911 passou a chamar-se Museu Soares dos Reis. 


Museu João Allen  

Magalhães Basto continua: “João Allen




Em 1940 o estado comprou à S. C. M. do Porto o Palácio dos Carrancas, que após grandes obras. recebeu, em 1942, o espólio vindo de S. Lázaro. Em 1992, na sequência da criação do Instituto Português de Museus, o Museu Nacional Soares dos Reis iniciou um projecto de remodelação e expansão, da autoria do Arquitecto Fernando Távora, concluído em 2001.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CONVENTOS DE RELIGIOSOS - XVIII

3.12.10 – Convento de Santo António da Porta de Carros - IV


Um forasteiro do Sul escreveu em 1908: 

“Uma das coisas que contribui para a melancolia do Porto é o antigo costume dos enterros à noite; este uso, especialmente de Inverno, dá uma impressão tristíssima a quem não estiver habituado a ele. Ao anoitecer, disfruta-se muitas vezes na Praça D. Pedro um espectáculo deveras lúgubre: os sinos dos Congregados dobram, atroando os ares; dentro da Igreja, grande quantidade de pessoas até à porta, com tochas acesas, assiste aos responsos; rapazinhos do Colégio dos Órfãos com seus trajes eclesiásticos, entoam cânticos fúnebres; a eça elevada deixa distinguir, mesmo da rua, o cadáver deitado no caixão, que tem as paredes desengonçadas para os lados; na rua a berlinda espera o corpo para o conduzir ao cemitério; na praça, olhando para o lado de Santo António ou para o dos Clérigos, vemos enterros subindo pelas acidentadas ruas e, à distância, o aspecto das duas longas fileiras de tochas, mexendo e treme tremeluzindo, dão-nos a impressão de que aqueles tristes cortejos têm pressa de desaparecer para sempre na eternidade. Os caixões das crianças, quer sejam conduzidos em berlinda, quer sejam levados à mão, têm sempre a tampa aberta, vendo-se o “anjinho” enfeitado de flores e muitas vezes deitado sobre grande quantidade de amêndoas e confeitos! Numa ocasião acompanhámos um enterro a pé, como são quase todos, ao Cemitério do Repouso; a noite estava chuvosa, relampejava, quando atravessamos a rua principal, por entre as duas filas de túmulos, e assistimos ao acto profundamente tétrico de meter o caixão na cova à luz de tochas, julgámo-nos transportados ao Hamlet de Shakespeare, lembrando-nos com saudade do nosso grande actor António Pedro, que tão magistralmente desempenhava o papel de coveiro.
Os enterros de dia são raros. Os cemitérios do Porto são verdadeiros jardins com grande abundância de mimosas flores, muito bem cuidados, numa ordem e asseio irrepreensíveis e possuindo artísticos e grandiosos mausoléus. As coisas fúnebres, parece não incomodarem muito os portuenses; pois se até há bilhetes postais ilustrados com vistas de ruas de cemitérios! Francamente achamos a ideia extravagante. Quem escreverá nestes postais? Talvez algum genro a saber notícias da saúde da sogra…” In O Tripeiro Volume 2, 20/5/1910.


Legenda: Aprovado – Porto na Câmara - 25/6/1838

Prolongamento da rua da Alegria pela Quinta dos Congregados, em 1838. Cruzando com a rua da Alegria, vê-se, à direita, a rua da Firmeza. 
Durante o Cerco do Porto (1832-33), esteve aqui instalada uma bateria de defesa (claramente assinalada na planta, do lado esquerdo do monte).



In O Tripeiro, Série VI, Ano XI


Veteranos do Cerco do Porto


Vista do Monte do Tadeu sobre o Porto – ao fundo Gaia e Gondomar – in Blogue A vida em Fotos



Blog A Vida em Fotos



Este é o ponto mais alto da cidade do Porto; o depósito de água da Rua da Alegria e o prédio onde se encontra, no 14º. andar, o Restaurante Portucale.


In. O Tripeiro, Série VI, Ano XI

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

CONVENTOS DE RELIGIOSOS XVII

3.12.10 – Convento de Santo António da Porta de Carros - III


Igreja dos Congregados – Altar-mor e laterais – reformados em 1823 – pinturas murais de Aécio Lima.




Sagrada Família



Foto RGPSousa


Relíquias de S. Clemente

Foto RGPSousa



A Festa de Nossa Senhora das Dores nesta igreja era uma das mais famosas da cidade do Porto. Realizava-se na Sexta-Feira anterior ao Domingo de Ramos. Era tradição ser executado o Stabat Mater de Rossini.
Na década de 40 do século XIX cantaram-se as missas do pianista e compositor Francisco Eduardo da Costa, muito querido no Porto e que faleceu em 1850. 
Destaque especial para as festas de 1891, 1894, 1900 e 1901
Durante décadas a música era interpretada  pelo Capella Silvestre.

O ilustre historiador do Porto Artur de Magalhães Basto escreve em O Tripeiro Série V, Ano X, de 1954:





Padre Francisco Correia Pinto (1873-1951), grande orador e primeiro Pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição (1927-1936). Foi o pregador na festa de 1903, o seu primeiro sermão no Porto.


Após a Revolução de 5 de Outubro de 1910 foram estas festas interrompidas, por alguns anos, por proibição governamental. 



“A riqueza da ornamentação, a quantidade de lumes symetricamente dispostos, e de flores artisticamente colocadas em jarras de preço, o nome do orador encarregado do discurso religioso e a parte musical desempenhada em cada ano por distintos executantes, dão a esta festividade um superior cunho de imponência, e de majestade, ao mesmo tempo que numerosa concorrência de senhoras da nossa primeira sociedade que a ella costuma afluir, dá uma prova frisante da sua crença pelo culto religioso”.

Nas festividades de 1926 a decoração da igreja foi da responsabilidade do armador Alberto Pereira, sendo oradores os Padres Leonardo de Castro e o Abade de Paredes.
A parte musical foi dirigida pelo Pe. Consolini, ao tempo director das Oficinas de S. José. Executou-se o Stabat Mater de Perosi, e não o habitual de Rossini, mas acatou-se a determinação da Santa Sé, que proibia as senhoras cantarem nas igrejas.


Na madrugada do dia 3 de Fevereiro de 1927 rebentou no Porto uma revolução que foi derrotada no dia 8. Foi, pelas defesas, instalado um posto de artilharia na Serra do Pilar com a intenção de bombardear os pontos mais importantes de cidade. 


In O Tripeiro Série V, Ano II


Foto Francisco Arago

Vídeo sobre a Igreja dos Congregados 

Estudo artístico de Natália Marinho e Joaquim J. B. Ferreira Alves 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CONVENTOS DE RELIGIOSOS - XVI

3.12.10 – Convento de Santo António da Porta de Carros - II


Nesta foto, de 1896, veem-se soldados do lado direito o que pressupõe a recepção a alguma entidade militar ou civil importante – á direita já não existe o Convento de S. Bento de Avé Maria, mas os cobertos provisórios da estação de S. Bento. Á entrada da Rua do Bonjardim ainda está o convento antes da abertura do Bonjardim, depois Rua de Sá da Bandeira.


A igreja ainda com a escadaria no exterior, já muito diferente da apresentada na gravura de Villanova (1833). É visível, à direita, a estação de S. Bento ainda em construção, pelo que a foto é de 1905 a 1915.


Procissão descendo a Rua de Santo António e virando para a Praça de S. Bento – foto de Aurélio Paz dos Reis.
Os confrades da irmandade serviam, pelo Natal, um jantar abundante aos pobres que aparecessem. A maioria instalava-se no claustro, mas os “envergonhados” comiam numa sala separada.


Em hora de Missa de Festa – foto de Aurélio Paz dos Reis


Em 1908 a Igreja dos Congregados foi utilizada como Assembleia Eleitoral!


Praça D. Pedro e Igreja dos Congregados - ao fundo a Câmara Municipal até 1915.








Azulejos de Jorge Colaço – vitrais de Robert Leone - 1920


Ferros da porta principal


Belíssima foto de Henrique Gonçalves – 2014
Tirada do Terreiro da Sé – vê-se o mercado, a Estação de S. Bento, A Igreja dos Congregados, as torres da Câmara e da Igreja da Trindade, J.N., Hotel D. Henrique, prédio da Cooperativa dos Pedreiros etc.