quarta-feira, 19 de junho de 2013

CAPÍTULO III - DAS FREGUESIAS E MORADORES QUE TEM, O SEU CARÁCTER, GÉNIO E COSTUMES; NÚMERO DOS PRINCIPAIS TEMPLOS E CAPELAS, CONVENTOS DE RELIGIOSOS E RELIGIOSAS

3.1 – Freguesias que tem a cidade


  
      



Crescimento da população do Porto entre 1758 e 1900 – História de Portugal coordenada por Oliveira Ramos

“A população da cidade do Porto, em 31/12/1863, cifrava-se nos seguintes e elucidativos números: Varões, 42.712; femeas, 46.167. Total 88.779. Desta população, apuram-se 65.279 indivíduos de maior idade e 23.600 de menor idade. A freguesia mais populosa era a de Santo Ildefons com 14.674 habitantes em 3260 fogos, seguida de Cedofeita com 12.225 em 2768 fogos. A menos populosa era a de Lordelo do Ouro com 684 fogos e 3044 habitantes”. O Tripeiro Série VI, Ano X.


Mapa das freguesias do Porto em 1903. Nesta data já as freguesias estavam integradas na cidade tal como hoje. 

Através dos séculos a cidade do Porto foi crescendo, ultrapassou as suas muralhas e foi integrando os núcleos populacionais vizinhos. Começou com a Freguesia da Sé, que deu origem, em 1583, ás de S. Nicolau, Victória e S. João de Belomonte. Esta só existiu durante 9 anos, sendo o seu território dividido pelas outras duas. Em 9/10/1710 foram criadas Miragaia, Santo Ildefonso, Massarelos e Cedofeita; em 1836 Campanhã, Lordelo do Ouro e Foz do Douro; Paranhos em 27/9/1839; em 1841 criou-se a freguesia do Bonfim em terrenos da Sé e Santo Ildefonso, e que foi a única criada por interesses políticos; em 21/11/1895 Nevogilde, Ramalde e Aldoar, que pertenciam ao julgado de Bouças, que passou a chamar-se Matosinhos em 6/5/1908. As freguesias de Santa Marinha e S. Cristóvão deixaram de fazer parte da cidade após as lutas liberais com a unificação das terras de Vila Nova de Gaia, em honra da bravura e esforço das populações durante o cerco.
As freguesias de Aldoar e Ramalde foram integradas na cidade quando foi aberta a Estrada da Circunvalação. 
Havendo um aumento significativo de tráfego entre as zonas exteriores e interiores do Porto, julgou-se necessário construir uma barreira eficiente para que se pudessem recolher todos os impostos municipais sobre os produtos que entravam no Porto. Foi celebrado um contracto entre a Câmara e o Estado, em 1889, para a construção de uma nova linha de barreiras. Iniciada a construção da Estrada da Circunvalação em 1889, esta só ficou concluída em 1897. Tinha duas vias, uma interior e outra exterior, separadas por uma vala de 2 a 3 metros de fundo. Em cada 150 metros, aproximadamente, havia um posto com sentinelas de forma a poderem ver-se uns aos outros. Desta forma, impedia-se a entrada clandestina de produtos sujeitos a imposto. Esta via começa em Campanhã e termina à beira mar, em Matosinhos. Tem um total de 16.340 metros.


A População do Porto entre 1700 e 1820 – estudo de Cândido dos Santos


Ramalde foi a única freguesia cuja população aumentou entre 1991 e 2001.

CMP – Notas sobre a evolução demográfica do Concelho do Porto – 1991 a 2005 

Censo 2011


Esta lindíssima fotografia mostra as seguintes Igrejas : Igreja dos Terceiros Franciscanos, Igreja de S. Francisco, Igreja de S. Lourenço (também chamada dos Grilos) e a Sé – uma belíssima perspectiva – gostaríamos de saber o autor para o poder referir.

Porto Antigo de José Ferraz - ppt

quinta-feira, 13 de junho de 2013

QUINTAS DO PORTO E ARREDORES - XI

2.13.21 - Quinta de S. Gens

Esta quinta também é referida como Quinta do Viso por aí ter existido, na época romana, um posto de vigia (ou “Viso”). 
Na Idade Média, terá sido erguido um pequeno templo em honra de S. Gens de Arles. Pertenceu no passado à freguesia de Ramalde e, antes da criação desta, à de Cedofeita.





“A Quinta de São Gens parece ser uma das que andaram ligadas durante séculos ao morgadio instituído em Ramalde, um pouco antes de 1542, por João Dias Leite. Até à data da intervenção de Nasoni nas quintas de Ramalde e de São Gens, o morgadio de Ramalde foi administrado sucessivamente pelo fundador e por seus descendentes. Terá sido durante a administração de D. Maria Leite (falecida em 1738), ou de seus filhos, que nas Quintas de Ramalde e de São Gens se realizaram as obras credivelmente delineadas por Nasoni, sendo notável a similitude entre ambas as casas. 
Num percurso ainda residencial, na década de 1920, a Quinta de São Gens foi vendida a um brasileiro, o qual executou na casa diversas obras de remodelação, depois desta ter sido alvo de um incêndio; em 1928, a Quinta foi adquirida pelo Estado para nela instalar a Estação Agrária do Douro Litoral, sendo hoje uma das quintas de apoio à acção da Direcção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho…




A Quinta de São Gens no quadro das quintas do espaço suburbano portuense:
Conforme se afirmou anteriormente consta que, na década de 1920, a casa sofreu um incêndio, vindo a ser remodelada, ao que parece, pelo brasileiro que a comprou aos antigos proprietários; terá sido então que lhe foi acrescentado um prolongamento para o lado N. E que se ampliou o pátio para o mesmo lado, suprimindo as escadas exteriores e ajardinando o terreiro fronteiro, com canteiros abiscoutados, plantados de palmeiras e arbustos, em obediência ao gosto então expandido entre nós por numerosos emigrantes enriquecidos no Brasil…





(as 4 fotos acima foram recolhidas no blog LuadMarfim)

… podendo-se levantar a hipótese de ter sido nessa altura que se realizou a transferência das estátuas, tanque e bancos atribuídos a Nasoni. Na década de 1930, o ajardinamento do pátio foi, de novo, remodelado, sob a orientação do Engº Ruela e plantado com fruteiras; finalmente, já em fins da década de 1980, sob a orientação do Arq. Ilídio de Araújo, foi realizado novo arranjo do jardim”. Elvira Rebelo –IGESPAR
As 4 estátuas acima são atribuídas a Nicolau Nasoni e representam as quatro estações.


2.13.22 – Quinta de Villar d’Allen


“Situa-se esta frondosa quinta na Rua do Freixo, no sítio também conhecido por Campanhã de Baixo.
A designação de Vilar d'Allen foi dada a um conjunto de várias propriedades constituídas pelo núcleo da antiga quinta da Arcaria (também chamada Fábrica Nova) e vários terrenos contíguos, nos Montes de Além e Fonte Pedrinha. Adquirida a quinta em 1839 por João. Allen, imediatamente se iniciou a construção do palacete que serviria para residência de Verão. Isto mesmo é testemunhado por um pequeno painel de azulejo existente por cima da porta traseira do palacete e onde para além do já referido ano de edificação da casa se podem ler o nome do proprietário, João Allen e sua mulher, D. Leonor Amsink Allen. Em 1869, foi a propriedade acrescida pela compra da quinta de Vila Verde e, três anos mais tarde, foi a vez da quinta da Vessada ser integrada no património da família. 0 palacete da quinta, embora majestoso não apresenta pormenores arquitectónicos dignos de realce.






Já os jardins e a frondosa mata merecem algum destaque. Com efeito, os jardins planeados e executados por João Allen e sobretudo por seu filho, Alfredo Allen, granjearam justificada fama em todo o burgo portuense. Alfredo Allen, notável paisagista (foi o responsável pelos jardins da Cordoaria e do Palácio de Cristal) e botânico (foi um dos grandes impulsionadores de exposições nos campos da Torre da Marca e no já referido palácio) introduziu nos jardins vários elementos então muito em voga e que ainda hoje subsistem, embora sem o esplendor de outrora. Mas ainda vale a pena apreciar a balaustrada, fontanários,  cascatas, arcadas, o torreão e deleitar-se com os repuxos, lagos. e pontes existentes. Chamou-nos ainda à atenção um pedestal, um fogaréu e um jarro de frutas, esculpidos em granito e de traça bem delineada.


É natural que tão sólidos conhecimentos (teóricos e práticos) de horticultura e jardinagem se traduzissem na introdução de novas variedades de plantas, árvores e arbustos. Algumas foram mesmo introduzidas pela primeira vez em Portugal. Particularmente famosas foram as camélias desta quinta que participaram em várias exposições e que obtiveram importantes prémios. Ainda hoje funciona na quinta um horto particular, o horto de Vilar d'Allen que de certo modo é o responsável pela preservação deste importante património natural”. Site Quintas de Campanhã.


A concluir vamo-nos deter sobre o belo portão de ferro situado na principal entrada da quinta. O portão ostenta no cimo um pequeno brasão em ferro representando os símbolos heráldicos dos Allen: 

Composição - Pleno. 
Classificação - Heráldica de família. 
Leitura - Allen. 
O elmo é coroado com timbre e sem paquife. O escudo é inglês. 

Refira-se que a quinta ainda se encontra na posse desta família.

terça-feira, 11 de junho de 2013

QUINTAS DO PORTO E ARREDORES - X

2.13.19 – Quinta do Covelo


Photo Guedes – 1900



Blog Ruinarte


A quinta do Covelo estava situada numa colina de onde se desfrutava um lindo panorama, e daí ser chamada de Quinta da Boa Vista. Tinha cerca de 9 hectares e chegou a produzir 40 pipas de vinho e muitos carros de cereal. Germano Silva escreveu um interessante artigo, que abaixo reproduzimos, e onde se refere às lutas liberais, que imortalizaram o nome desta quinta:
“No século XVIII, aí por 1720, a quinta, então chamada do Lindo Vale ou da Boa Vista, pertencia a um fidalgo chamado Pais de Andrade. Pela morte deste passou, por herança, para duas filhas que a venderam a um negociante chamado Manuel José do Covelo. A partir daqui fica-se a saber por que é que a quinta se passou a chamar do Covelo. No século XIX há o registo de nova mudança de dono por 1829 ou 1830, a quinta foi vendida, pelos descendentes do Covelo, a Manuel Pereira da Rocha Paranhos e passou a ser conhecida, também, por Quinta do Paranhos. O Manuel José do Covelo foi sepultado num mausoléu de pedra no interior da capela que tinha Santo António como padroeiro. O que resta dessa grande propriedade pertence, hoje, à Câmara do Porto que ali instalou um parque público. A casa e a capela, um belíssimo conjunto da Arquitectura setecentista, foram incendiadas e destruídas, em 16 de Setembro de 1832, na sequência de combates entre liberais e miguelistas, ocorridos durante o Cerco do Porto.
Logo a seguir à entrada no Porto do Exército Liberal, a 9 de Julho de 1832, os miguelistas trataram de montar, a partir do que, então, eram considerados os arrabaldes da cidade, um apertado cerco aos sitiados. Nesse sentido, criaram posições ofensivas em sítios de onde mais facilmente, através das suas peças de artilharia, lhes fosse possível atingir o centro da cidade e, ao mesmo tempo, impedir o reabastecimento das tropas liberais e dos próprios civis.
O alto do Covelo, a que popularmente se chamava "o monte", foi considerado pelas tropas absolutistas como o sítio ideal para montar a artilharia que havia de metralhar o centro do Porto e vigiar as movimentações de civis no sentido de impedir, por exemplo, que os lavradores de Paranhos introduzissem na cidade mantimentos e outros víveres através da estrada da Cruz das Regateiras. E com estes propósitos criaram uma autêntica fortificação na Quinta do Covelo.
Só que os liberais não ficaram quedos. Consta que por iniciativa do próprio D. Pedro IV as tropas constitucionais resolveram, em 16 de Setembro de 1832, desalojar os miguelistas do reduto do Covelo, a fim de ficarem com o controlo daquela zona, de grande importância estratégica para os combates que estavam para vir. Os objectivos dos liberais foram conseguidos. Uma força de "mais de 1400 baionetas", além de terem escorraçado os miguelistas, a quem causaram inúmeras baixas, ainda arrasaram fortificações e destruíram baterias e canhoneiras.
Mas por muito pouco tempo os soldados de D. Pedro lograram manter as posições que haviam conquistado. Os absolutistas contra atacaram, em Março de 1833, e conseguiram, depois de renhidos combates, com enormes perdas para as duas partes, retomar as posições que pouco antes haviam perdido. De imediato iniciaram a construção de "defesas do monte" erguendo ao redor estacadas ou paliçadas com o que pretendiam ocultar os trabalhos de fortificação que andavam a fazer. E os liberais? Que fizeram?
Voltaram ao ataque. Numa das digressões que diariamente fazia aos locais onde o perigo mais se fazia sentir, D. Pedro passou pela Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal) e apercebeu-se do perigo que constituía para a sua causa o facto de os miguelistas terem retomado o Covelo e providenciou para aquela posição voltasse a ser ocupada pelos liberais. Isso aconteceu a 9 de Abril de 1833. E a delicada e arriscada tarefa foi confiada ao coronel José Joaquim Pacheco que, mais tarde, viria a morrer, em combate, na Areosa. A cidade, agradecida, deu o seu nome à antiga Praça do Mirante que é hoje a Praça do Coronel Pacheco. Uma crónica da época refere esta segunda tomada do Covelo pelos liberais, da seguinte forma "… a 7 de Abril descobriu-se a longa estacada feita pelos miguelistas desde as primeiras casas de Paranhos até às eiras do Covelo. Queriam fortificar-se ali. Não havia tempo a perder. Era preciso desalojá-los. A artilharia dos liberais começou a responder desde as primeiras horas da manhã do dia 9 e durou o fogo até ás seis da tarde. Cruzaram-se os fogos das baterias da Glória (Lapa), do Pico das Medalhas (Monte Pedral), do Sério (alto da Lapa), da Aguardente (Marquês de Pombal) e de S. Brás. Uma força de mil homens saiu fora das linhas para tomar de assalto o monte do Covelo. Mas no dia seguinte (10 de Abril) os absolutistas voltaram com o intuito de retomarem as posições perdidas e onde os liberais haviam levantado um reduto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas 200 soldados. Foram atacados por mais de 2000 do inimigo. Foram momentos decisivos. Duzentos homens livres conseguiram pôr em fuga 2000 do inimigo…"







Esta quinta foi doada ao Ministério da Saúde e à C. M. do Porto com a intenção de estas entidades aí instalarem um hospital para doentes tuberculosos. Porém, não tendo chegado a acordo para a sua construção, o M. S. aceitou que a C.M.P. transformasse esse espaço num parque onde os portuenses pudessem recrear-se. Foi desenhado pelo Arq. Castro Calapez.


2.13.20 – Quintas de Fafiães e do Chantre 

Referir-nos-emos neste texto a duas quintas e um palacete dado que pertenceram à mesma família e neles supõe-se que esteve trabalhando o grande arquitecto/pintor Nicolau Nasoni. 



Quinta de Fafiães

“Muito embora não tenham subsistido testemunhos documentais relativos à maioria das casas de campo, nos arredores do Porto, que se encontram associadas à figura de Nasoni, a sua atribuição a este artista italiano tem sido defendida por diversos autores (SMITH, 1967 e 1973; CARITA, 1987; FERREIRA ALVES, 1986). É este o caso da Casa e Quinta de Fafiães, que tal como a Quinta do Chantre ou a Casa do Dr. Domingos Barbosa, devem resultar de uma encomenda da família Barbosa Albuquerque ao referido arquitecto italiano. 
Manuel Barbosa de Albuquerque foi Chantre da Sé do Porto entre 1732 e 1736, época em que terá estabelecido contactos com Nasoni no sentido deste intervir em Fafiães, dado que a capela apresenta uma inscrição com a data de 1731 (SMITH, 1967, p. 75). Esta ideia surge corroborada na investigação levada a cabo pelo historiador norte-americano Robert Smith, que ao analisar a obra de Nicolau Nasoni relacionou determinados elementos da Sé do Porto com a Casa de Fafiães. Entre outros, destacam-se os motivos de granito no muro que divide o jardim (SMITH, 1967, p. 76). 
Este muro, situado no eixo da capela, separa a zona de acesso à Casa do espaço que lhe fica defronte, e onde sobressai a fonte, de remate sinuoso, com motivos muito semelhantes aos da portada do patamar da escada dos Clérigos (SMITH, 1967, p. 76). Assim, e neste conjunto arquitectónico e paisagístico de grande unidade, Nasoni terá optado por se aproximar do ideal de arquitectura civil europeu, em que todo o espaço "(...) é submetido a um grande eixo de desenvolvimento, onde a casa, como acontece nas villas italianas ou palácios franceses, se situava no centro deste eixo" (CARITA, 1987, p. 250). 
A planta da Casa desenvolve-se em L, com fachada principal marcada pelas escadas de lanço único, de acesso ao andar nobre. A porta e janela centrais, unidas num único motivo, concentram em si a decoração do frontispício. A capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro, que domina a zona lateral da Casa, a Norte, apresenta fachada rematada por frontão curvo e pináculos volumosos. Um remate que, de acordo com Smith, parece evocar os desenhos das gravuras do maneirismo flamengo (SMITH, 1967, p. 75). O portal, de desenho recortado, forma um bloco com a janela, também recortada, que se lhe sobrepõe. A sua concepção denota grande proximidade com a Capela da Quinta do Chantre, onde Nasoni optou por um esquema idêntico. Contudo, e ainda que mais planos, voltamos a encontrar uma série de elementos decorativos que recordam os utilizados na Sé portuense, nomeadamente ao nível da cartela da janela, das borlas do peitoril da janela ou das folhas de acanto no perfil da janela (SMITH, 1967, p. 75)”.
(Rosário Carvalho) IGESPAR. 



Quinta do Chantre

A Casa e Quinta do Chantre devem a sua designação ao cónego da Sé do Porto, Fernando Barbosa de Albuquerque, que sucedeu como Chantre da referida Sé ao seu tio Manuel Barbosa, em 1736. Esta família gozava de grande proximidade com Nicolau Nasoni, o arquitecto que tão fortemente marcou o panorama arquitectónico do Porto, e do Norte do país, no reinado de D. João V, tendo-lhe encomendado diversas obras, entre as quais a casa do Dr. Domingos Barbosa, e a Casa de Fafiães. Note-se que a pedra de armas existente na fachada da Casa da Quinta do Chantre é igual à da Casa do Dr. Domingos Barbosa .

“Muito embora não subsistam testemunhos documentais desta obra, as suas características particulares parecem ser suficientes para atribuir o seu risco a Nicolau Nasoni, que deverá ter trabalhado aqui na década de 40 do século XVIII, uma vez que alguns elementos decorativos se aproximam de outros empregues na igreja de Matosinhos e na capela da Quinta da Conceição em Leça, estes devidamente documentados.

No conjunto de casas de campo desenhadas por Nasoni, nos arredores do Porto (margens dos rios Douro e Leça), a Casa do Chantre ganha maior destaque por ser considerada uma das obras fundamentais na carreira do arquitecto. É, não apenas o maior solar de tipologia comum desenhado por Nasoni, mas principalmente aquele em que se percebe o gosto pelas grandes alamedas, enquanto elementos de dinamização do espaço. Contudo, e tal como acontece na Quinta de Ramalde, a vasta alameda da Quinta do Chantre traça uma linha directa entre a casa do portão, mas sem se impor efectivamente na organização da paisagem. À semelhança do que acontece um pouco por toda a Quinta, também no portão se concentram alusões heráldicas à família – os dois leões são símbolo dos Barbosa e as flores-de-lis dos Albuquerque.

A Casa é constituída por um bloco rectangular, de tendência claramente horizontal, apenas interrompido pela torre que se ergue ao centro da fachada principal. A pedra de armas dos Barbosa de Albuquerque encontra-se sobre a janela da torre, no eixo do portal principal. Esta fachada “(…) é, depois do Palácio do Freixo, o mais rico exemplar, nos arredores do Porto, da ideia que Nasoni expressou, no frontispício de Mateus, de uma passagem térrea central flanqueada por uma dupla escadaria conduzindo à entrada nobre da casa”. De um dos lados da fachada e formando um ângulo recto com esta, situa-se a capela, rematada por frontão contra-curvado encimado por pináculos de dimensões consideráveis. O portal principal e a janela de sacada com balaústres situam-se no mesmo eixo central, recordando o esquema idêntico utilizado na capela da Casa de Fafiães.
Uma última referência para os chafarizes implantados junto ao portão, que tal como as janelas do jardim, apresentam vãos centrais, bastante recortados”.  (
Rosário Carvalho - IGESPAR)




Foto J. Portojo 

“A actual Casa-Museu Guerra Junqueiro foi, inicialmente, a casa do cónego da Sé do Porto, Dr. Domingos Barbosa, que a mandou construir cerca de 1730. Tradicionalmente atribuído a Nicolau Nasoni (SMITH, 1966)… Independentemente do seu arquitecto, o edifício que foi residência do cónego da Sé, revela uma série de aspectos que importa destacar. Confina com a rua D. Hugo, do bairro da Sé em que se insere, através da fachada lateral marcada pela abertura das três janelas de sacada com gradaria da época e que são mencionadas no testamento do Cónego, com data de 1746 e que recordam as da fachada traseira da Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco, de Nasoni (SMITH, 1966). Já as respectivas bandeiras, de desenho exótico, são muito semelhantes às da capela da Quinta de Fafiães, desenhada pelo arquitecto italiano para Manuel Barbosa de Albuquerque, Chantre da Sé do Porto. Este alçado prolonga-se pelo muro que isola o pátio da via pública e que se impõe pela monumentalidade do portal, coroado por um par de leões e duas flores de lis, elementos heráldicos emprestados do brasão dos Barbosa de Albuquerque… 
No interior, merece especial referência, pela sua monumentalidade, a escadaria de acesso ao piso superior, que se encontra ao fundo da entrada. 
Na posse da mesma família durante anos, a casa foi herdada pelo genro de Guerra Junqueiro (Luís Augusto Pinto de Mesquita Carvalho era casado com Isabel Maria, filha do escritor) e em 1940 foi doada pela sua filha à Câmara Municipal do Porto, com a condição de aí ser instalada uma Casa-Museu com as colecções de arte e literatura de Guerra Junqueiro, então também doadas à autarquia (o acervo tinha cerca de 600 peças). 
Entre 1994 e 1997 a Casa-Museu foi objecto de uma importante remodelação cujo projecto esteve a cargo do arquitecto Alcino Soutinho, dispondo hoje de uma sala de exposições temporárias, um pequeno auditório, uma cafetaria e uma loja (SOUTINHO, 2001)”. 
Rosário Carvalho – IGESPAR

sábado, 8 de junho de 2013

QUINTAS DO PORTO E ARREDORES - IX

2.13.18 - Quinta do Campo Alegre


No séc. XVIII era chamada Quinta Grande, e pertença da Ordem de Cristo. Em 1802, o médico francês Jean Pierre Salabert, fabricante de "chapéus finos", comprou-a e passou a ser conhecida como Quinta Grande do Salabert. Após as Invasões Francesas foi confiscada pelo Estado ao seu proprietário, tal como muitas outras propriedades de cidadãos desta nacionalidade. Por altura da Revolução Liberal de 1820, já era propriedade de João José da Costa e, posteriormente de Arnaldo Ribeiro Barbosa. Em 27/2/1875, a propriedade foi adquirida à sua viúva D. Carolina Augusta da Costa Barbosa por João Pereira da Silva Monteiro, "brasileiro de torna viagem", por 6 contos de reis. Este ordenou a demolição da antiga habitação e a construção de um palacete. Tendo tido necessidade de voltar ao Brasil, Silva Monteiro não regressou e não terminou a sua construção, pelo que não chegou habitá-la.


Vinte anos depois a quinta, que tinha uma área de 12 hectares, passou para a posse de João Henrique Andresen Júnior (1861/1900) e de sua mulher, Joana Andresen. João Andresen era filho do homónimo industrial e comerciante de vinho do Porto e foi avô dos escritores Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Ruben A. (1920-1975).


João Andresen concluiu o projecto de renovação da casa e dos jardins. Este industrial de Vinho do Porto dava grandes festas e recepções, das quais se destacou a passagem de ano de 1898, em que participaram mais de 500 pessoas.


Estas prendas poderão ter sido para a filha mais velha, Maria Joana, que casou em primeiras núpcias com Walter Stuve e depois com Wilhelm Thessen.



Roseiral



Quando os Andresen compraram a propriedade a casa estava bastante adiantada na sua estrutura, tendo-se preocupado de uma forma muito especial na construção dos jardins.






Desta importante família do Porto nasceram dois escritores: a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen e Ruben A - foto de 1958.


Lago com rapaz de bronze


“...num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas que o cobriam com os seus ramos. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz de bronze. E durante o dia O Rapaz de Bronze não se podia mexer e tinha que estar muito quieto, sempre na mesma posição, porque era uma estátua. Mas durante as noites ele falava, mexia, caminhava, dançava, e era ele que mandava nos jardins, no parque, no pinhal, nos pomares e no campo. E todas as árvores e todos os animais e todas as plantas lhe obedeciam porque ele era o senhor do jardim e o rei da noite”. Sophia, O Rapaz de Bronze (1965) – Na realidade o rapaz de bronze é uma senhora, mas Sofia descreve-o assim nos seus contos infantis.


Jardim de buxo cercado de japoneiras


“À medida que se avança no terreno contornando a casa surgem os Jardins de Sophia. Nestes espaços é possível reviver o universo ficcional de Sophia, que se inspirou nos jardins para escrever histórias infantis para os filhos. “O «Rapaz de Bronze» nunca foi rapaz, é na realidade uma senhora, mas temos de lhe chamar assim”, explicou Teresa Andresen, salientando que esta obra é de leitura obrigatória e o facto de as crianças lerem a história neste sítio motiva para a leitura. Aliás, as crianças ficam encantadas quando visitam o jardim e identificam os cenários das histórias. Além do «Rapaz de Bronze», é também possível entrar no universo do Jardim dos Anões do conto «A Floresta». O carvalho centenário onde vivia a personagem Anão Velho teve de ser derrubado, mas o toco foi mantido. “É um lugar para crianças, que incentiva à leitura, à ciência, à biologia. Tem uma potencialidade fantástica”, sublinhou Teresa Andresen, referindo que o projecto de ficcionação é da autoria dos arquitectos Paulo Farinha Marques e Ana Catarina Antunes.

Nas traseiras da casa destacam-se ainda o Jardim das Plantas Aquáticas (construído onde outrora estava o campo de ténis da casa da Quinta do Campo Alegre), a adega (que serve de depósito de água e é um dos edifícios mais antigos da Universidade do Porto), o Jardim das Plantas Anuais (que era a horta), o Roseiral e o Jardim dos Jotas (de João e Joana Andresen). Estes espaços estão separados por meio quilómetro de Camélias talhadas em sebes. “É único, mais ninguém tem, podia entrar para o Guiness”, salienta Teresa Andresen. A arquitecta paisagista salientou ainda que nestes jardins se encontram os cenários da obra de Sophia, por exemplo a glicínia, que envolve o caramanchão do Jardim dos Jotas”. Lúcia Pereira em As camélias das Japoneiras.


Jardim dos Jotas – fotos de manueladlramos 


Jardim dos Jotas 

“Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos. Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas… -Os jardins civilizados- são sempre jardins de buxo. Perto dos gladíolos estava um caramanchão com glicínias e bancos de azulejos… -Nos jardins antigos – diziam os gladíolos – há sempre azulejos. Os buxos, quando ouviam isto, sorriam e murmuravam com voz de buxo, que é uma voz pequenina, húmida e verde. –Nos jardins antigos havia buxo e azulejos, mas não havia gladíolos…” Sofia em O Rapaz de Bronze


Neste local está hoje instalado o Instituto de Medicina Legal.


Do Blog Porto Antigo 

Havendo a absoluta necessidade de ampliar o quartel da Guarda Municipal, o Jardim foi deslocado em 1903 para a Cordoaria, mas por muito pouco tempo, pois a Academia não tinha qualquer autoridade sobre esta praça, pelo que a única coisa que lhe era permitido fazer era classificar e etiquetar as plantas lá existentes. Desta forma, o Porto ficou privado do seu Jardim Botânico cerca de meio século. O Professor Américo Pires de Lima com a colaboração do alemão Franz Koepp, na sequência da compra da Quinta do Campo Alegre pelo Estado, em 1949, procedeu à sua adaptação para o Jardim Botânico da U.P., tirando partido do traçado de jardins e da vegetação já existentes ao gosto das quintas de recreio do Porto de finais do século XIX. Depois do atravessamento da propriedade pelos acessos da ponte da Arrábida, ela ficou reduzida a 4 hectares, eram 12, tendo conservado os jardins iniciais e na parte sobrante dos campos de cultivo e da mata foram sendo instalados novos jardins, nomeadamente de plantas suculentas e de aquáticas assim como um arboreto.




Foto blog Luademarfim