sexta-feira, 12 de julho de 2013

RELIGIÃO QUE PROFESSAM - I

3.3 - Religião que professam - I

                     

Hospitais e Albergarias – História do Porto, Luis A. De Oliveira Ramos





A tradição do Lausperene ainda hoje se mantém, todos os sábados, na Igreja dos Clérigos.

Artur de Magalhães Basto escreve, em O Porto do Romantismo, referindo-se o período de 1850 a 1890 , o seguinte: “ A burguesia, que chegara a andar um tanto arredada das igrejas, arrependera-se, parece, como já notámos; mas por voltar a praticar os actos externos do culto católico, não se deve concluir que tivessem recrudescido nela a Fé e o verdadeiro espírito religioso...


Confraria da Celestial Ordem da Santíssima Trindade 


...Porém, o que é facto é que os burgueses eram, quase todos, segundo Ramalho Ortigão, “irmãos de Confrarias, mensários de Irmandades, fidelíssimos às pomposas procissões da Trindade, do Carmo e de S. Francisco, fervorosos devotos do Senhor de Matosinhos e do Senhor da Pedra, e grandes festeiros de S. João. Alguns iam à Missa das Almas em cada dia. Todos frequentavam regularmente os Sacramentos e visitavam aos domingos de tarde o Senhor Exposto...


...Quase todas as lojas comerciais tinham na parede do fundo um nicho com a imagem de Santo António, ...


...E na casa de qualquer bom burguês havia sempre um santuário, com relíquias de Santos, figuras de Cristo na Cruz, da Mater Dolorosa, de S. João – diante do qual uma lâmpada permanentemente ardia, “ nos lutos de família, nas duras atribulações domésticas e nas ocasiões de alguns júbilos inesperados, conta-nos Alberto Pimentel falando da casa de seus pais na Rua da Sovela, era diante do santuário, abertas de par em par as cortinas de seda vermelha, que todos ajoelhavam, de mãos postas, rezando a Deus”…


Dispensário Rainha D. Amélia junto ao antigo Convento de Santa Clara.


...Em benemerência não tinha o Tripeiro quem o ultrapassasse. Além da Misericórdia que os portuenses muito auxiliavam eram numerosos os estabelecimentos de caridade que o Porto sustentava”.



Procissão do Corpo de Deus – antes de 1910 


Esta solene procissão, a partir de D. João V, tinha a sua disposição hierárquica estabelecida da forma seguinte:
- 1 clarim e seis batedores a cavalo
- dois tambores rodeando o alferes da milícia antiga com a bandeira com as quinas portuguesas
- cavalos de estado de S. Jorge
- Imagem de S. Jorge montado num cavalo branco
- Zeladores Municipais em uniforme
- Irmandades e Confrarias particulares das freguesias de Lordelo, Capela de Fradelos, Carmo, Cedofeita, Santo António da Porta de Carros e Santo Ildefonso.
- Irmandades dos ofícios da cidade, segundo uma ordem determinada
- Confrarias do Santíssimo Sacramento da cidade e seus subúrbios 
- Oficial maior da municipalidade e Juízes Eleitos e de Paz
- Meninos órfãos com seu Reitor
- Ordens Terceiras; da Lapa, Terço e Caridade; Carmo; S. Francisco e Santíssima Trindade
- Clero dos subúrbios da cidade
- Párocos das freguesias da cidade
- Cúria e câmara eclesiástica da cidade
- Cavaleiros Professos, os Comendadores e grandes do reino 
- Cabido da Sé Catedral 
- Pálio com o Bispo do Porto
- Câmara Municipal
- Comandante da Terceira Região Militar e Estado Maior
O trajecto era o seguinte: Sé, Arco de Vandoma, Rua Chã, Rua Escura, Largo S. Sebastião, Rua dos Pelames, Rua da Bainharia, Rua de Santana, Rua dos Mercadores, R. Nova dos Ingleses, Rua das Congostas, Calçada de S. Domingos, Largo S. Domingos, Rua das Flores, Largo de S. Bento, Rua do Loureiro, Rua Chã, Arco de Vandoma e Largo da Sé. 

Procissão do Corpo de Deus - 2013 


Última Ceia – Pertenceu ao Convento de S. Bento de Avé Maria


Oratório de Nossa Senhora da Boa Fortuna na Rua do Barredo 



Em 15/5/1982 o Papa João Paulo II passou pelo Porto onde foi recebido por uma incontável multidão. O povo da cidade e de outras terras do Norte acolheu-o com grande entusiasmo, tendo assistido a uma Missa e uma homilia inesquecíveis. Veio a Fátima agradecer a Nossa Senhora o tê-lo salvado de uma morte certa no atentado de 13/5/1981. Na foto acima vê-se o então Bispo do Porto, D. Júlio Tavares Rebimbas.



Em 14 de Maio de 2010, Ano da Missão na nossa Diocese, o Papa Bento XVI, tendo visitado Lisboa e Fátima, veio ao Porto onde teve uma apoteótica recepção dos católicos do Norte do país.

Papa Bento XVI no Porto – vídeos


Em local próprio trataremos dos Conventos, Igrejas e Capelas do Porto, bem como de outras actividades religiosas.
                                             

segunda-feira, 8 de julho de 2013

CARÁCTER,GÉNIO E COSTUMES DOS PORTUENSES - V

3.2 - Carácter, Génio e Costumes dos Portuenses



Traje de rua

Ramalho Ortigão, saudoso cidadão da nossa cidade, escreveu sobre “A toilette de uma senhora em dias de semana estava completa com as seguintes peças: uma saia preta para vestir por cima do vestido de trazer por casa; um xaile atravessado no peito e pregado com um broche da cor e da forma de um ovo frito: uma mantilha de lapim, umas luvas de meio dedo e um lencinho de três pontas destinado, para que se não engordurasse a Côca da mantilha, a embrulhar o chignon… Também era outro o nome disso. Ao rolo das tranças sujeito sobre a nuca por um atilho e um pente de pechisbeque chamava-se-lhe na minha terra puxo”


“Quando saíam a passeio, apresentavam-se de rico vestido de seda, de saia ampla,com muitas outras por baixo, e na cabeça um flamejante chapéu de cetim cor de rosa ou de outros tons claros e alegres”. O Porto do Romantismo do Dr. Artur de Magalhães Basto.


Nos anos 20 do século passado, chamados “anos loucos”, e fruto da mudança de mentalidades devido à primeira Grande Guerra, a moda sofreu uma autêntica revolução. A mulher adquiriu uma nova liberdade de viver. Aboliu as saias compridas e a silhueta em 8, adoptando a moda do vestido leve, vertical e curto. Também os chapéus se simplificaram e usavam-se tapando a cabeça até às orelhas. Os penteados seguiram a simplificação das roupas tornando-se curtos e lisos ou levemente ondulados. Eram os chamados “cortes à la garçone”.


Após o “crash” de 1929 seguiu-se uma década sem estilo definido, e, só depois da II Guerra Mundial, em 1947, Christian Dior lançou o “New Look”. Esta moda repunha a mulher em 8, com o peito destacado, a cinta estreita e a anca bem definida.




Almeida Garrett – o arbitro das elegâncias

“Ele aí vai flamante de casaca azul de botões amarelos, colete branco, calça preta de polaina e presilha, bota de polimento, e com o seu nédio e espelhante chapéu alto; na camisa de folhos “na fofa e empinada camisa, ostente um alfinete rico de topázios e pérolas”. Foi assim que o Dr Artur de Magalhães Basto descreveu a moda masculina do romantismo.


Família burguesa do Porto


Meninas do Porto - 1915


Traje académico – Fac. Ciências – 1922


Cortejo da Queima das Fitas


Lavradores com utensílios da eira


Rancho Folclórico de Ramalde



Blog Trajes de Portugal


Traje do Porto – 1913


Lavadeira do Douro



Fins do séc. XIX


Lavradores ricos de Gondomar




Mordomas da festa – Minho

Ouro de Viana do Castelo

Em O Tripeiro Série I, Ano I, 1908, encontrámos uma interessantíssima descrição da mulher dos arredores do Porto:




“Um Porto velho, pacato e até com muito regionalismo e assim se identificava com a constante chegada de pessoas vinda dos arrabaldes e da terras do Douro que à cidade se deslocavam para vender uns presuntos; uns enchidos de carne de porco; uns ovos e uns cestos de frutas para depois com o produto da venda comprarem umas miudezas nos armazéns do Largo dos Loios, umas mercearias nas lojas da Mouzinho; ou uma fatiota nos prontos a vestir da rua dos Clérigos para vestir e melhorar a roupagem do filho, com um fato domingueiro, do moço “espigadote” ou um xaile de “merino” para a moça casadoira. Mas além do xaile para a rapariga, porque não? Se na bolsa fechada e apertada com um atilho e, bem segura nas mãos se ainda houvesse uns “dinheiritos” para umas arrecadas ou uns brincos nos ourives da Rua das Flores para a rapariga ou, ainda uma corrente de oiro para o rapaz prender o relógio no bolso do colete.” In O Tripeiro Série V, Ano V

Filme sobre o Porto antigo 

Cinemateca Portuguesa - Porto e Foz 1913 


Porém, no que se refere ao amor pela sua liberdade e previlégios, os portuenses sempre foram muito ciosos. Demonstraram-no diversas vezes nos motins contra o Bispo ou o Rei. Lembremo-nos de algumas revoltas como as das Maçarocas (1629), do Papel Selado (1661), contra a Companhia dos Vinhos (1757), do pão (1856), contra a ocupação francesa (1809) e a Revolução Liberal (1820), etc. Sobre estas e outras revoltas trataremos mais pormenorizadamente em local próprio.


Mapa de Março a Maio de 1809 aquando da ocupação dos franceses

O Professor Francisco Ribeiro da Silva resume de forma perfeita em O Tripeiro VII série, 1997, a páginas 182: “ Desde as lutas dos burgueses do séc. XIII contra as prepotências do Bispo D. Martinho Rodrigues até à corajosa denúncia da ditadura Salazarista do Bispo D. António Ferreira Gomes,foi a recusa à tirania, ao autoritarismo desumanizante que apontou a trajectória dos portuenses na via da liberdade. Por vezes, o preço que se pagou pela rebeldia foi excessivamente alto. Mas a luta pela liberdade, ainda que às vezes motivada por razões aparentemente materiais, é, em última análise, altruísta  desinteressada e solidária”


Revolução de 24 de Agosto de 1820 – Sociedade Martins Sarmento


Manuel Fernandes Tomás (1771-1822) 

Esta figura do liberalismo português vintista foi um dos fundadores do Sinédrio e um dos principais mentores da Revolução de 1820. Magistrado e legislador de profissão foi escolhido como vogal da Junta Provisional de Governo do Reino em 1820. Deputado e Presidente das Cortes Constituintes e detentor das pastas do Reino e da Fazenda em 1821, Manuel Fernandes Tomás integrou, entre outras, a comissão encarregada de elaborar as bases da Constituição jurada por D. João VI. A sua actividade como parlamentar destaca-se como das mais produtivas da história do parlamentarismo português, nele inscrevendo novas referências jurídicas e constitucionais. São de sua autoria os célebres Manifesto da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino aos Portugueses e o Relatório acerca do Estado Publico de Portugal. Na Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Almeida Garrett elege-o como "o patriarcha da regeneração portugueza."


Planta do Porto em 1833 – desenhada por W. B. Clarke entre Agosto e Dezembro desse ano, pois já está representada a ponte das barcas, retirada durante o cerco. Este decorreu de Julho de 1832 a Agosto de 1833. 


Revolta do 3 de Fevereiro de 1927 - de lado. o soldado Emídio Guerreiro

."O tripeiro nunca foi lá grande entendedor na matéria mas quando a política estava na rua lá estava ele, na barafunda fazendo monte e a dar o seu apoio e ajudar às “barafustadelas” dos políticos a sério. E nestas os “bófias” na linha recuada do ajuntamento de cassetete pronto para entrar em acção a todo o momento. Os “tripeirotes” até lhes dava gozo o “sô polícia” fazer os cem metros, sem barreiras, em correria atrás dessa maldita irreverente catraiada com uma mão a segurar o “bastão”, maleável para não quebrar ossos e outra o boné não fosse por aí este saltar com a trepidação da correria nos paralelepípedos, desnivelados, da rua. Política nunca foi o forte da gente humilde do Porto. A população deste burgo é de raízes operárias e das “terras de lá de xima” e arribaram os seus ancestores quando se deu o começo do desenvolvimento industrial do Porto.  In Porto Tripeiro