segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XL

3.5.17 - Automobilismo - I

Outro desporto que entusiasmou e continua a entusiasmar muitos portuenses é o automobilismo.

Corrida de automóveis e cavalos no velódromo D. Amélia na Serra do Pilar – 1910 – repare-se que a matrícula do primeiro carro é do Norte (Porto).


Fernando Palhinhas foi um conhecido técnico de automóveis do Porto que tinha oficina na Rua de Campo Lindo. Nos anos 30 representava os automóveis Adler, de que houve três na nossa família. 



1931 – O da frente parece-nos um Adler e o segundo um BMW

A primeira edição deste circuito automóvel com o nome formal de “Circuito da Boavista”, realizou-se em 1931 e teve três singularidades: aconteceu num ano em que foram organizados um total de 8 circuitos em Portugal; para se determinar o vencedor utilizou-se o sistema de “handicap” (à imagem do utilizado no golfe) – pela primeira e última vez no nosso país; e o circuito era constituído por duas longas rectas nas faixas laterais da Avenida da Boavista (propositadamente alcatroadas), unidas por duas curvas com um raio de 10 metros. Esta competição foi ganha por Fernando Palhinhas ao volante de um Singer Nine, curiosamente um dos pilotos com maior “handicap”, o que fez com que tivesse apenas que percorrer 30 voltas em vez das 50 definidas para o circuito.


II Circuito da Boavista 1932 – vencedor Vasco Sameiro no seu Invicta


1932

Em 1933, evoluções mecânicas e novos modelos de automóveis à parte, os dois grandes atractivos para este “III Circuito da Boavista” foram a concorrência entre os pilotos Vasco Sameiro e Henrique Lehrfeld e a corrida de motos com a participação de 13 motos de origem inglesa, as melhores na época, nas versões de 350 cc e 500 cc. Já nesta fase, o automobilismo ameaçava tornar-se um evento bastante popular, como comprovava a quantidade de espectadores presentes, entre 10.000 e 12.000.


Manuel de Oliveira - 1937 - O hoje centenário e mundialmente conhecido realizador de cinema, foi um ferrenho adepto e corredor de automóveis, bem como seu irmão Casimiro de Oliveira.




Circuito de 1950 e anos seguintes


Felice Bonetto – Vencedor do I Circuito Internacional do Porto, em Alfa Romeu -1950 – para estar presente nesta prova veio a guiar o seu carro desde a Itália ao Porto!
O carro ficou uns dias estacionado em frente da esquarda da P.S.P. da Rua do Pinheiro Manso, pelo que todos os dias o íamos apreciar com o maior espanto provocado pela longuíssima frente em que estava o motor. Porém, recordámos que tinha um interior muito despido e feio com um banco que parecia muito incómodo.


À partida já Bonetto se havia destacado sendo seguido por Carini no seu Osca,  do Jaguar XK120 de Thomas Wisdom e dos Allard de Casimiro de Oliveira e José Cabral. O Oscar era um pequeno carro, mas que era delicioso ver curvar; até ficou no povo o dito de "curvar à Carini". O Jaguar era o mais belo e silencioso automóvel que já havíamos apreciado.


Felice Bonetto – descendo a Circunvalação – 1950


Piero Carini ficou em 2º. lugar no seu pequeno Osca. Este carro foi fabricado pelos irmãos Maserati e tinha um motor de 1.100 c.c.

O ano de 1950 marcou uma viragem no Circuito da Boavista, que surgiu reconfigurado e redimensionado, com um novo traçado de 7.775 metros, para o qual muito contribuíram a inclusão de novas ruas e estradas, como foi o caso da Estrada da Circunvalação. Além disso, o Automóvel Club de Portugal (ACP), responsável pela organização, alargou os horizontes da corrida atribuindo a esta um cariz internacional, conseguindo com isso a participação de mais e melhores pilotos nacionais e de alguns dos grandes talentos internacionais. Foi então criado o “I Circuito Internacional do Porto”, que se disputou em 18 de Junho de 1950.
Mesmo as “velhas glórias”, que fizeram subir a adrenalina dos espectadores dos anos 30, não foram esquecidas, participando também nesta corrida. Nesta primeira iniciativa internacional há a destacar os factos de a Ferrari se ter estreado no nosso país nesta corrida (com dois automóveis, sendo um deles pilotado por uma mulher: Yvonne Simon), a corrida de motos (realizada no dia anterior à dos automóveis) nas categorias de 350 cc e 500 cc, e a grande afluência de público, descritos pelo ACP e pela revista “O Volante” como sendo 100.000 e 150.000, respectivamente.
Com tudo isto, o vencedor foi o italiano Felice Bonetto, ao volante de um Alfa Romeo 412, que, curiosamente, fez os últimos 100 metros sem gasolina.



O “I Grande Prémio de Portugal”, em 1951, foi ganho por um português, Casimiro Oliveira, ao volante de um Ferrari 340 América, com o número 14. que o tinha recebido apenas três dias antes da prova.


Partida do III Grande Prémio de Portugal, na esplanada do Rio de Janeiro, próximo do Castelo do Queijo, em 1953. O Nº. 5 Nogeira Pinto, seu lado está o Jaguar C Type de Duncan Hamilton e o Lancia D20 de Felice Bonetto. Um pouco mais atrás vem o Ferrari n.º 3 de Casimiro de Oliveira que terminaria em segundo lugar.


José Nogueira Pinto descendo a Circunvalação no seu Ferrari 250 MM, a caminho da victória



Nesta prova sairia vencedor o Ferrari 250 MM Spyder Vignale de José Nogueira Pinto, com o n.º 5.


O vencedor com a coroa de louros




Garagem Aurora, na Foz do Douro, após o incêndio de 16/7/1981 que a destruiu completamente. Neste desastre morreu um rapaz de 13 anos e foram destruídos mais de 20 automóveis, muito de alto preço.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXIX


3.5.16 - Ciclismo


“Em 9 de Março de 1880, um grupo de rapazes fundava no Porto o Clube Velocipedista Portuense, a primeira agremiação velocipédica do nosso país, e em 18/7 o referido clube organizava a primeira corrida de velocípedes que houve em Portugal; em Lisboa só se organizaram alguns anos depois. A corrida foi em estrada, contra cronómetro, entre a Alameda de Matosinhos e o Passeio Alegre da Foz (cujo vencedor foi Aurélio Vieira que fez o percurso em 13 minutos e 8 segundos, em estrada com muito trânsito e mal cuidada)…


…Foi tão grande o seu êxito, que em Novembro seguinte se organizaram novas corridas – as chamadas “corridas de Outono” desta vez na Rotunda da Boavista.
Os jornais da época falaram, com espanto, do elevadíssimo número de pessoas que ali se juntou para presenciar as lutas que se travaram na improvisada pista; do extraordinário movimento de trens, de nunca vista afluência de gente nos Americanos, da grande quantidade de senhoras da nossa primeira sociedade que acorreu à função. 
O periódico humorístico de Sebastião Sanhudo, o famoso “O Sorvete”, dizia: 
“- Palavra que gostei… velocípedes a toda a brida, música de Caçadores, Senhoras entusiasmadas, convidados formalizados, muito povo a aplaudir os “cavaleiros”, muita chalaça aos mais ronceiros, muita animação, muita reinação e, sobretudo, muita satisfação. 
Tudo muito bom… gostei; para outra vez, fico freguês”. E, dizia ainda:
“- Agradou-me a função; falo com o coração na mão! Carlos Soares, Luis Vilares, Camilo de Almeida e Minchin, estes sim!
O Puls, o Sousa e o Tugman levaram sempre a vantagem… de correr atrás dos outros, como quem vai na bagagem…”. 
“- Senão fosse o garoto do Minchin, um inglesito azougado, desembaraçado, desempenado e que parecia desengonçado, a palma da victória, a grande glória tinha cabido toda aos portugueses”. Artur de Magalhães Basto em O Tripeiro Série V, Ano V.
Jorge Minchin Junior, o campeão, faleceu em 2/7/1939 com 77 anos


Campeão em 1880 – todo orgulhoso com as suas taças. 


Jacinto Matos (horticultor), Abel do Nascimento Pereira Magro (escrivão de direito) e Cristóvão Lagoá (negociante) velocipedistas que participaram na corrida do Palácio de Cristal, em 9/12/1883 – foto de Agosto de 1945


“Almeida Barros e Magalhães Campos, realisaram domingo passado, pelas 4 e meia da manhã, a corrida em bicycletas, desde o Club, Campo Pequeno, Villar, Campo Alegre, rua de António Cardoso, Bellos Ares e Boavista e vice-versa. A aposta entre os dois era de 10$000 réis e a condição era que: o primeiro que desmontasse em qualquer subida, perdia.
Magalhães de Campos, na subida de Villar, quasi ao cimo, teve de desmontar, seguindo sempre Almeida Barros, que foi sempre montado. Era vigia por parte do sr. Campos, Ernesto de Magalhães e por parte do sr. Almeida Barros, o sr. Dias, que acompanharam sempre os corredores.
Juiz de partida e chegada – Vidal Oudinot, o qual entregou a quantia de 10$000 réis ao vendedor”. O Velocipedista – 1893.



“Abilio Machado, José do Amaral, Baião, Meirelles, Mourão, Santos, Santos Vidal, irmãos Lopes e muitos outros, realisaram no domingo largos passeios, almoçando no campo, com um apetite, dizem, phenomenal. Maldita velocipedia!” O Velocipedista – 1893




“Foi tirada tirada num estúdio do Porto, na sua primeira viagem a esta cidade, cerca de 1894, esta foto do Infante D. Manuel [futuro Rei D. Manuel II]. (Cliché da Phot. União – Porto)” In Velocipedista.
“Pestalozzi, o celebre pedagogo, afirmava que no brincar da creança podiam vêr-se as acções futuras do homem. Por uma subtil revivescência de inclinações ancestrais, a mecânica, esse officio dilecto aos Orleans e aos Bourbons, exercia uma seducção irresistível sobre o pequeno Infante [ D. Manuel]. As suas mãositas travessas estendiam-se, súplices, para os relógios dos dignatários e dos familiares. Nada o entretinha como vêr caminhar os ponteiros nos mostradores de ouro ou porcelana, entre os algarismos romanos, e ouvir o tic-tac isochrono dos machinismos. O relogio era o grande mysterio fascinador, perante que se dilatavam os seus olhos meditativos. Os brinquedos que o interessavam eram, sobretudo, os de movimento. E a sua curiosidade avida exigia a explicação minuciosa dos segredos que faziam caminhar os comboios sobre os tapete e gesticular os polichinelos”. Foto e texto retirados do livro de 1908 de Carlos Malheiro Dias. In O velocipedista.



“Carlos Minchin, A. Machado, Peixoto, partiram para Braga no sabbado, em bicycleta, regressando domingo à noite, perfeitamente bem dispostos. Foram assistir às festas que a academia de Braga alli realisara”. O Velocipedista (1893)




Ciclista em Carreiros – Foz – 18/12/1897


“O Porto conta hoje perto de 2:000 velocipedistas sendo 500 montados”. In O Velocipedista de 1893.





“Que os velocipedistas medrosos – que não são em pequeno número, diga-se a verdade – se tranquillisem, certos de que podem entregar-se aos seus exercícios com a máxima confiança. Efectivamente, está demonstrado, por cálculos feitos sobre elementos estatísticos, que qualquer velocipedista tem uma probabilidade contra 680:000 de ser victima de um accidente velocipédico. 
Nenhum outro meio de transporte nos offerece tamanha garantia de segurança”. O Velocipedista (1893).


Chalet do Palácio de Cristal, onde foi fundado, em 1893, o Real Velo-Club do Porto.

“Realisou-se na segunda-feira 11 do corrente, pelas 7 e meia horas da tarde na séde d’este club, no Palacio de Crystal, sob a presidência do snr. Dr. Paulo Marcellino, secretariado pelos snrs. Dr. Bento Vieiro e Antonio de Lemos, uma assembleia geral extraordinária.
Lida e aprovada a acta da sessão anterior foi lida uma proposta da direcção para se eleger presidente honorário, sua majestade el-rei.
Em seguida o sr. barão de Paçô Vieira (Alfredo), como presidente da direcção, participou á assembleia que sua majestade acabava de dar mais uma prova da sua amabilidade para com este club, concedendo-lhe licença para estabelecer um ‘velodromo’ na quinta do real paço dos Carrancas. Propôz que em vista d’esta generosa offerta e das demais provas de consideração já dispensadas, sua majestade el-rei fosse também nomeado socio benemérito.
O sr. dr. Paulo Marcellino, fazendo notar o valor e importância da concessão feita por El-Rei, alvitrou que a votação da preposta do sr. barão de Paçô Vieira fosse feita por acclamação . A assembleia acolheu com ruidosas salvas de palmas as palavras do sr. dr. Paulo Marcellino, sendo em seguida levantada a sessão.
A assembleia esteve numerosamente concorrida.
Foi enviado a Sua Magestade o seguinte tellegrama:
‘Ex.mo Camarista de Semana de Sua Magestade El-Rei – Lisboa – A assembleia Geral do Real Velo-Club do Porto acaba de votar enthusiasticamente, por acclamação, socio benemérito e presidente honorário Sua Magestade. Rogamos a V. Ex.ª queira dar conhecimento d’este facto ao mesmo Augusto Senhor, apresentando-lhe os nossos agradecimentos e protestos da mais profunda gratidão. – O presidente d’assembleia geral, Dr. Paulo Marcellino Dias de Freitas; o presidente da direcção, Barão de Paçô Vieira (Alfredo)”. Notícia d’O Velocipedista (1893).




 Velódromo Maria Amélia – 1900 – foto de Humberto Fonseca (1877-1940)


“Real Velo-Club do Porto – Já está concluída a pista do velódromo d’este Club, na quinta do palácio real, devendo ser posta à disposição dos sócios, para a trainagem, no próximo domingo 17 do corrente.
A tribuna principal, que é de um bello e elegante desenho, deve ficar concluída por toda esta semana.
Já foram nomeados os jurys para as corridas que teem de realizar-se ás 4 horas e meia da tarde do dia 29 do corrente, os quaes ficaram assim constituídos:
Juizes de chegada, conselheiro Campos Henriques, barão de Paço Vieira (Alfredo) e José Izidoro de Campos; juiz de partida Arthur Rumsey; fiscais de pista, Guilherme Andersen, Adolpho Vieira da Cruz, Henrique José da Cunha e Fernando Nicolau de Almeida; cronometro, John Minchin Junior.
Toda a obra do velódromo, construção da tribuna, etc., tem sido, desde o principio, dirigida pelo socio o snr. José Izidro de Campos, que a isso se prestou obsequiosamente.
Tem sido grande o numero de sócios ultimamente inscriptos.
Começou há dias a semear-se a relva no redondel do velódromo.
Calcula-se que a lotação das tribunas e lugares de peões seja approximadamente de 2:500 a 3:000 pessoas.
A commissão das corridas, convida os snrs. associados que desejem bilhetes de tribuna para a festa de inauguração, a requisital-os até ao dia 24 do corrente, d’esde as 8 horas da manhã ás 9 da noute.
A Direcção d’este Club, nomeou sócio, por acclamação , S. A. o infante D. Affonso, que sendo um distincto velocipedista, requereu n’esse sentido á mesma direcção”. O Velocipedista (1894).


No centro do circuito vêem-se os três campos de ténis.


Barão de Paçô Vieira, Presidente do Real Velo Clube do Porto e tribuna principal.


Real Velo Clube – 1937 – tinha campos de ténis


Velódromo Maria Amélia, nome dado em honra da rainha, que existiu, entre 1894 e 1910, nas traseiras do Palácio dos Carrancas em terreno cedido por D. Carlos. Foi construído em 1895. A pista tinha 333,33 metros, pelo que em 3 voltas se percorriam 1000 metros. A bancada real que tinha 700 lugares e 50 camarotes para os sócios. Neste complexo havia também 3 campos de ténis, desporto muito pouco praticado nessa época. Há cerca de 15 anos, passando pela R. Adolfo Casais Monteiro, notámos que o portão de acesso ao antigo velódromo estava entreaberto e a curiosidade levou-nos a entrar. O local estava em obras, mas ainda conservava intacto a inclinação da curva do lado poente, mostrando perfeitamente a estrutura do circuito e restos dos antigos campos de ténis. 
Existiram ainda velódromos na Quinta de Salgueiros, pertencente ao Clube de Caçadores do Porto e na Serra do Pilar que eram muito concorridos. 


Velódromo Maria Amélia em Abril 2012 – in Biclanoporto


Como se pode ver acima, também se realizavam festas no velódromo Maria Amélia. Esta carta-convite informa que, no Domingo de Páscoa, se realizará “uma grande Kermesse” a favor do Dispensário Rainha D. Amélia. Porém, devido ao mau tempo só se realizou em 5 de Maio, duas semanas depois. Os bilhetes custavam: entrada geral 100 reis; Tribuna 500 reis.
Dois pormenores desta carta-convite têm interesse: verifica-se que a sede do clube se manteve no Palácio de Cristal e reporta-se ao…


…futuro Dispensário Rainha D. Amélia que foi construído no largo onde existiu a Porta do Sol, a Capela de Santo António do Penedo e a Sul da Casa Pia. Photo Guedes - 1900





1952 

Já na nossa juventude o F. C. do Porto teve ciclistas de grande valia. De 1946 aos anos 50 o grande “ídolo” era Fernando Moreira. O ciclismo foi nessa época muito popular e o povo falava apaixonadamente deste corredor. Venceu a Volta a Portugal em Bicicleta de 1948.


Fazia parte da equipa, que também venceu essa volta e que era composta por: (da esquerda para a direita) Fernando Moreira, Moreira de Sá, Dias dos Santos, Aniceto Bruno, Joaquim Costa, Joaquim Sá, Amândio Cardoso, Grausse e Berrendero, todos excelente corredores.



Ribeiro da Silva, Artur Coelho e Alves Barbosa

Nos anos 50 destacou-se o grande Ribeiro da Silva, da equipa de Académico F. C., que venceu as voltas de 1955 e 1957. Neste ano fez ainda uma época brilhante em Espanha e França. Muito mais era esperável deste desportista, mas morreu tragicamente num acidente de motocicleta em Abril de 1958.
Alves Barbosa foi dos mais importantes ciclistas portugueses. Venceu as Voltas a Portugal de 1951, 1956 e 1958. Também correu em Espanha e França.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXVIII

3.5.15 - Balonismo


Lunardi em Londres

O italiano Vincenzo Lunardi (1759-1806) fez a sua primeira ascensão em Londres, em 1784, passando depois à Itália, Espanha e Portugal. Após uma subida em Lisboa no ano de 1794, veio ao Porto fazer a sua exibição em 10 de Maio de 1795. Esta foi a primeira subida em balão na nossa cidade.

Em 25/6/1820 Eugénio Robertson, fez uma subida em balão, “uma geringonça movida a fogo” com 21 pés de diâmetro, na Quinta do Prado, pertencente ao Bispo do Porto. A data foi escolhida para comemorar o S. João, em honra do nome de D. João VI.
“… principiou às três horas o trabalho necessário para a formação do gás hidrogénio, e às 5 horas a máquina, inteiramente cheia esperava o Aeronauta.
O Professor Robertson tinha prometido a sua sobrinha, a esposa do jovem Malabar, o prazer de a deixar elevar-se, estando a barquinha presa por uma corda; por isso antes da partida de Mr. Eugénio Robertson, ela subiu a certa altura. Esta jovem, desejando há muito tempo fazer uma viagem aerostática, tinha escondido um canivete, e uma carta no seu lenço, e intentava cortar as prisões, que a retinham: apenas o seu intento foi descoberto por Mr. Eugénio Robertson, que se assustou, e não queria ceder o seu lugar a pessoa alguma, lançou mão rapidamente da corda principal e conduziu o balão até ao recinto. Então esta dama cheia de coragem saiu da barquinha e Mr. Eugénio Robertson, substituindo o seu lugar, sustentando-se em pé, e tendo na mão a bandeira portuguesa elevou-se majestosamente às 5 horas e meia bradando: ”Viva El-Rei; Viva D. João VI”; e, lançando várias peças de versos em honra da Nação Portuguesa, análogas a tão brilhante circunstância.
Elevando-se o balão, o quadro que se desenvolvia debaixo dos pés do aeronauta tornava-se mais interessante; pois que o Douro, correndo ao longe, já parecia esconder-se por entre as montanhas, já descobrir-se de momentos a momentos. O viajante por uma parte via o Porto como num pequeno quadro; mas sem perder a menor circunstância, por outra parte divisava ao longe verdes florestas, deliciosos jardins, e campos cercados de parreiras que atraíam e encantavam seus olhos, e qual uma serpente, que dá tortuosas voltas para entrar na sua cova, assim o Rio Ave parecia dirigir-se para o mar.
O objecto mais tocante, que o aeronauta observou nesta viagem, foi a vista de mar, que brilhava debaixo de seus pés, e lhe parecia incendiado por todos os lados, efeito da reflexão do Sol que se ocultava no horizonte, e que sem dúvida foi a causa do viajante não sentir na altura a que se remontou o frio activo, que de ordinário se experimenta.
Mr. Eugénio Robertson viu certa poeira, que se levantava da terra, e julgando serem cavaleiros, que vinham ao seu encontro, tomou o óculo para melhor observar; mas era simplesmente o declive de alguns montes de terra argilosa, feridos pelos raios do sol que já declinava.
O Aeronauta, depois de ter subido em meia hora a uma grande altura, e achando-se por cima de uma floresta, escolheu um sítio sem árvores, e apto para findar a sua viagem; ele o conseguiu descendo tranquilamente perto da freguesia de Ferreiro um lugar além do Rio Ave, distante uma légua de Vila do Conde, e 5 léguas do Porto. As primeiras pessoas que apareceram no momento em que tocou a terra o nosso viajante foram dois caçadores, que presenciaram as duas ascensões, que fez em Lisboa; depois chegou a cavalo o Ajudante das Milícias de Vila do Conde, Lima, que tendo descoberto o aeróstato da varanda da casa do seu Tenente Coronel se dirigiu com ele para o sitio, em que lhes parecia cair o balão.
O Viajante recebeu dos mesmos Senhores todos os socorros possíveis, e os maiores testemunhos de estima; e, depois de ter pernoitado em casa do Ilustríssimo Major das Ordenanças em Bagunte, para onde o conduziu seu Filho o Ilustríssimo Tenente Coronel António Luiz, entrou no Porto no dia 26 quase ao meio dia, recebendo em todos os lugares por onde passou imensas provas de grande satisfação, e os aplausos que sempre costuma excitar em toda a parte esta rara e maravilhosa experiência. Reinou por toda a parte a maior ordem e harmonia em tão imenso concurso, efeito das sábias ordens que foram dadas pelo Ilustríssimo Desembargador Encarregado da Polícia, e pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Tenente General, Governador das Armas. – A tranquilidade, o contentamento, e a boa ordem que resplandeciam por toda a parte, e esta experiência feita em tais circunstâncias, parecia terem tornado este espectáculo uma verdadeira festa. No mesmo dia da viagem o público à noite deu provas da afeição que tinha ao jovem aeronauta, mostrando apenas acabou o teatro a sua impaciência, e o desejo de tornar a vê-lo; porém, não lhe foi possível voltar na referida noite ao mesmo teatro, como tencionava, para cumprimentar a tão respeitável reunião, e mostrar-lhe a sua eterna gratidão". In Gazeta de Lisboa n.º 161, 10/Julho/1820
Mr. Eugénio Robertson pela observação do barómetro avaliou a sua altura num quarto de légua no momento da maior elevação.


Em 1884, Emile Castenet, balonista já conhecido no Porto por anteriores ascensões, decidiu subir no seu “Portuense” com um burro amarrado à barquinha. Ao Primeiro de Janeiro de 25 de Março saiu um testemunho desta aventura contada pelo próprio:
“Aproximadamente à altura de 800 metros fendi as nuvens e por cima d'ellas me conservei, subindo à altura de 1.400 metros. Emergindo das nuvens, deparei com um espectáculo surprehendente - um sol esplêndido, brilhante, quente, irradiante, dando às nuvens a configuração de um mar de prata, accidentado de vagas. Por de cima d’esse mar a sombra do balão, contornando-se nitidamente. 
Obra ahi de 1.600 metros d'altura, mudou o balão de rumo, em direcção a Espinho. O aeróstato subia sempre, rapidamente chegando a attingir uma altura de 2.000 metros. Tentei descer por três vezes, mas inutilmente. O balão não obedecia porque o gaz que eu expellia pela válvula, era substituído pela dilatação que ficava. Subindo a uma altura de 2.000 metros, forcejei descer pela quarta vez, o que consegui abrindo de todo a válvula. A 2.000 metros d'altura tomei a direcção 0 e a 1.500 o primitivo rumo.
A 700 metros avistei terra. A descida operava-se com uma extraordinária velocidade quando me encontrei sobre um extenso pinheiral. A fim de evitar a queda na matta, descarreguei o ultimo sacco de areia e assim pude manter-me á mesma altura. Pouco depois d'alguns minutos de marcha, avistei uma ampla campina. N'estes comenos icei o burrico paro a barquinha e procurei arpoar a terra, lançando ancora mas não dava em terra firme. N'isto o balão a poucos metros d'altura do solo, esbarrou n'um pinheiral e a barquinha ficou ahi presa. O aeróstato estacou, inclinou-se sobre a franja dos pinheiros, mas súbito levantou-se, rompeu para o alto chegando a barquinha a despedaçar os ramos a que se tinha enleado. 
Por effeito do impulso violento do balão, a cesta tombou e eu encontrei-me de cabeça para baixo agarrado ás cordas. N'esta situação o burro cahiu na mesma posição que levava quando sahiu do Palácio. O balão com o impulso do vento foi bater n'outro pinheiral. A barquinha ia batendo d’árvore em árvore, e eu para evitar qualquer desastre conservava-me de cócaras, agarrado às cordas. A corda da ancora despedaçava os ramos das árvores, o gaz evadia-se e a corda a que ia ligado o burro prendeu-se a um ramo, e como as forças do balão se extinguissem, foi bastante a demora para que acudissem os lavradores, puxando a corda da ancora e conseguindo por ultimo suspender o balão. 
Desci às quatro horas e meia em Cavadas, freguezia de Pijeiros, concelho de Villa da Feira. Recebi os máximos cuidados das pessoas que me cercaram. Ahi me foi servido este petisco "um tracanaz de broa e vinho" que me soube extraordinariamente, pela muita fome que me devorava. O balão ficou um tanto estragado. Metti-me n'um carro de bois e cheguei às duas horas da manhã ao Alto da Bandeira. Querendo vir para a cidade, oppoz-se a isso um conductor de carros, dizendo que áquella hora não podia atravessar a ponte. Fiquei pois, dentro do carro, debaixo d'um alpendre, vestido apenas com a roupa com que subi. Ás cinco da manhã, encaminhei-me para a cidade, chegando aqui (ao Porto) ás 6 horas. Penaliza-me a sorte do burro”.
Em Lisboa, o aeronauta César Campos subiu n’O Portuense, pondo muitos milhares de lisboetas “a olhar para o balão”, indo aterrar na praia da Caparica.




Subida do “Lusitano” (e não Lusitânia) no Palácio da Cristal.


Ascensão na praça de touros da Serra do Pilar

O sucesso, o entusiasmo e a moda da subida em balão apossou-se do Porto e alguns corajosos e extravagantes decidiram também entrar nessa “corrida”. Os lugares preferidos para as subidas eram o Palácio de Cristal, e as praças de touros da Serra do Pilar e da Rua da Alegria. Em 1903 o francês Emile Carton acedeu a levar consigo, no seu balão Mariposa, um entusiasta do balonismo, tendo-lhe dado noções de como dirigir o balão. Era o farmacêutico gaiense Belchior Fernandes da Fonseca. A “paixão” foi tal que convenceu o seu amigo a vender-lho, tendo tido a contribuição dos seus parceiros César Marques dos Santos e engº. José António de Almeida. Deram-lhe o nome de “Lusitano”. Com a presença de multidões subiram 3 vezes, tendo terminado o voo em diferentes lugares. O Belchior, muito senhor de si, afirmava já ter conhecimentos suficientes para mais ascensões. 



Tendo sido prevenido por Franz Burmester do perigo de ser levado, por ventos em altitude, para o mar, não levou em consideração tais avisos, afirmando mesmo “considero estes ares como meus”. Marcou uma nova ascensão para 21 de Novembro de 1903 em que embarcaram os seus sócios. Tendo subido muito correctamente, dirigiu-se para Sul. Sobre Vila Nova de Gaia, repentinamente virou a oeste, desaparecendo sobre o Atlântico. Ainda foram enviados vários barcos em seu socorro, mas nunca mais os seus corpos foram encontrados. 
Esta tragédia foi, durante muito tempo, motivo de conversa e de notícias nos jornais do Porto. Havia quem comparasse os três desaparecidos a D. Sebastião, pois muitas vezes corria o boato que alguém os tinha visto ou sabia onde se encontravam. Os ceguinhos, á porta do mercado do Anjo, cantavam, em voz triste, as quadras do Fado do Belchior!


António da Costa Bernardes “O Ferramenta” 

“Ainda a terra gaiense estava mergulhada na maior dor, pela perda no mar de três dos seus filhos aeronautas, em 21 de Novembro de 1903, e já outro gaiense, nascido no Candal e serralheiro de profissão, se preparava para o seu “baptismo” de voo em aeróstato. Trata-se de António Bernardes, conhecido pela alcunha de “Ferramenta”, o homem que acompanhou as ascensões de Emilie Carton, no Porto e que era assíduo frequentador das tertúlias aeronáuticas na farmácia do Belchior, na Rua Direita de Vila Nova de Gaia. 
Também o “Ferramenta” aspirava construir um balão e ascender nele e nem a tragédia do desaparecimento do “Lusitano” o demoveu da sua paixão. António Bernardes construiu o seu balão que denominou de “O Português”, com uma capacidade para 1 200 metros cúbicos, que poderia elevar-se com o peso bruto de 800 Kg e marcou a sua primeira ascensão para o dia 3 de Abril de 1904 nos jardins do palácio de Cristal. No dia aprazado o balão foi conduzido ao Palácio, em dois carros de bois, com a filarmónica a abrir caminho. Quando se ensaiava a ascensão o governador civil, temendo o pior, proibiu a subida. No entanto o “Ferramenta” cortou as cordas e o balão depois de roçar nas tílias subiu mesmo, perante os aplausos do público. Andou quatro horas pelo ar e foi pousar num campo, em S. Cosme, no concelho de Gondomar. 
Em Setembro de 1904 o governador civil do Porto negou aos aeronautas “Ferramenta” e Magalhães Costa autorização para nova ascensão. 
Entretanto Ferramenta construiu um novo balão, o “Nacional”, com 22 metros de comprimento e capacidade para 800 m3 de gás o qual foi exposto na Praça de Touros da Serra do Pilar. Nele fez uma primeira ascensão em Lisboa, na Praça de Algés, com uma subida pouco feliz. Repetiu depois no Jardim Zoológico de Lisboa, perante a assistência entusiástica de milhares de pessoas e foi pousar próximo de Santo António da Charneca, depois de ter subido a grande altura e de ter pairado no ar durante bastante tempo. 
Transcrevemos a notícia dada pelo jornal “A Defesa”, do Candal, na sua edição de 5 de Abril de 1905, que seguia de perto o percurso do seu conterrâneo. 
De seguida partiu para o Brasil onde fez subidas em S. Paulo, Pernambuco, Pará e Rio de Janeiro mobilizando grande entusiasmo junto da comunidade portuguesa que o aplaudiu como um herói. 
Depois deste périplo regressou a Gaia, em 1906, cheio de dinheiro e fama. Reuniu enormes apoios para a construção de um aparelho mais sofisticado tendo partido para Paris onde desenvolveu um balão que baptizou com o nome de “Internacional”. Com ele fez uma série de ascensões, com o maior êxito, no Porto, em Lisboa e na Figueira da Foz. 
Em Julho de 1906 realizou na Praça de Toiros da Rua da Alegria, perante uma multidão de mais de 15 000 pessoas, a 24ª. ascensão.


No mês seguinte, a 26 e 27, realizou-se um festival aerostático, de novo na Praça da Alegria, em que, para além do “Ferramenta”, tomou parte uma ginasta espanhola, de nome Mercedes, tendo substituído a barquinha do seu balão “Granada” por um trapézio, tendo realizado, a 100 metros de altura, arrojados números. Desta vez o “Internacional” atingiu mais de 1000 metros de altura, e desceu na Rechousa, na quinta do tenente Joaquim Rangel, da Guarda Municipal. 
Em Setembro teve lugar a 28ª ascensão e foi especial por ter sido a primeira ascensão nocturna em Portugal. O balão subiu até aos 400 metros de altura e, como o vento ameaçasse desviar o “Internacional” para os lados do mar, “Ferramenta” preparou, com êxito, a descida indo pousar na Rua do Gólgota. 
Subiu outra vez no Palácio de Cristal, em benefício da aeronauta espanhola Mercedes, que tinha partido uma perna numa ascensão na Praça da Alegria, e que terminou na Quinta de Sacais, tendo sido socorrida pelo Dr. Alfredo de Magalhães. O balão do “Ferramenta” foi pousar a Rio Tinto, no meio de um viçoso nabal, tendo o seu proprietário exigido a reparação dos prejuízos causados. 
O “Internacional” foi vendido ao aeronauta César Campos e “Ferramenta” deslocou-se de novo a Paris onde comprou, por um conto de réis, na Casa Lachambre, um novo balão, segundo o modelo nº 14 de Santos Dumond, em que o aeronauta brasileiro que foi pioneiro em voos em aeroplanos dera voltas á Torre Eifel. 
Em Julho de 1907 quando o “Ferramenta” juntamente com os barqueiros Alfredo “Bóia” e Augusto “Intruja” e auxiliado pelos seus amigos Alfredo Pinheiro da Rocha, Carlos Saraiva e Manuel Fonseca “Carne Seca”, procediam ao enchimento do seu “Aero-Móvel”, deu-se uma inesperada fuga de gás que provocou uma intoxicação que os deixou a todos em estado grave. Este acidente foi fatal para António Bernardes “Ferramenta” que não resistiu aos gases mortíferos e sucumbiu, depois de ter efectuado, com êxito, nada menos que 31 ascensões”. In blog Memórias Gaienses 


Nesta ascensão foram lançados muitos prospectos de publicidade a casas comerciais e foi aterrar em Ovar.
Muitos outros entusiastas do balonismo subiram nesta cidade pois foi, durante uns três decénios, uma grande paixão e entusiasmo do povo portuense.