sábado, 11 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXVII

3.5.14 - Festas de S. João - III


Outra das grandes diversões era, e ainda é, o lançamento dos tradicionais balões, mas nem todos eram bem sucedidos – 2009 – foto JN


Este parece ter êxito


Sobe, sobe, balão sobe

Balões de S. João
https://www.youtube.com/watch?v=TemkM8KSLRM

https://www.youtube.com/watch?v=Yilk4wf454c


Miragaia – 2008 – foto JN


Um “outro” S. João muito animado é o dos pequenos bairros ou ilhas. Os vizinhos juntam-se e decoram as ruas e casas com balões e festões iluminados em que põem o maior entusiasmo. Na noite de S. João punham música do rádio muito alto e comiam, bebiam (por vezes demasiado), dançavam e cantavam com alegria; hoje convidam ou formam uma pequena banda. São momentos em que as amizades se estreitavam. Quantos amores e casamentos não saíram da noite de S. João!


Em Miragaia - blog Chuviscos


1966 - foto JN

Cascata frente à C.M.P. - 1990 - Foto JN


Noite de S. João na Avenida dos Aliados – 2001 – foto JN


Ribeira - esperando o começo do fogo de artifício



Á meia-noite há fogo no rio ou na Avenida dos Aliados, por cima da Câmara.


YouTube – Noite de S. João no Porto – 4 vídeos 






Noivos de S. João – foi tradição o casamento de S. João na Sé – 1967 – foto JN


Rusgas do S. João de 1957 – Tiveram início neste ano – foto JN

Cantavam-se louvores ao S. João como esta que ficou célebre:

São João santo bonito,
Bem bonito que ele é.
Com os seus caracóis de oiro,
E seu cordeirinho ao pé.
Não há nenhum assim,
Pelo menos para mim
Nem mesmo São José.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.

Rusga de Massarelos – 2007 e 2008

Grande marcha de S. João – 2010


Rusga da Victória – 2011

Rusga de Paranhos – 2011

Rusga do Bonfim – 2011 e 2012


Rusga do Orfeão da Foz – 2012



Foto afasoft



24/6/2012

“Dezoito barcos rabelos regressam ao rio Douro para participar, no próximo dia 25, na tradicional regata anual do Dia de S. João. Um evento único no Mundo que completará 23 edições.
De velas içadas e numa luta empenhada pela conquista do primeiro lugar, os 18 barcos rabelos da XXIII Regata do Vinho do Porto vão navegar, em cerca de uma hora, o percurso entre a Foz do Douro e a Ponte D. Luís I, para lembrar tempos passados, em que eram o único meio de transporte do vinho do Douro.
"Uma vez por ano, estes barcos históricos navegam desde a Foz do rio Douro até à ponte Luís I com as velas desfraldadas, constituindo um espectáculo de invulgar beleza e significado", salienta a Confraria do Vinho do Porto, em comunicado. Os barcos rabelos eram utilizados no transporte dos barris de vinho do Porto desde a região do Douro, onde o vinho é produzido, até às caves das empresas exportadoras, em Gaia. A última viagem de um barco rabelo da Régua até Gaia teve lugar no ano de 1964.
Desde então, as embarcações permanecem ancoradas no Douro, junto às caves das respectivas empresas, "como símbolo de um passado de tradições e de prestígio". Um dia por ano, os rabelos erguem as velas e deixam o cais, impulsionados pelo vento, num desafio tradicional que rasga as águas do Douro. No ano passado, o rio fez um bicampeão. A vitória destacada pertenceu à embarcação da Warre's Port e ao timoneiro Dominique Symington”. JN – Junho de 2006

Regata de barcos rabelos no dia de S. João


Em 24/6/1905 “Na casa comercial de Miguel Pacheco, ao largo de S. Bento, expõe-se um tão curioso como notável trabalho – uma procissão de S. João, constituída por 400 figuras feitas de rolhas de cortiça e vestidas a preceito em seda, trabalho de dois pacientes amadores que foi muito apreciado”. In O Tripeiro, Série V, Ano XI.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXVI

3.5.14 - Festas de S. João - II


Venda de manjericos e alhos porros – foto JN

Na nossa juventude o S. João era na baixa até à Ribeira e daqui às Fontaínhas.
Começava pelas 11 horas da noite até altas horas. Íamos em grandes grupos, a pé, da Boavista ao centro e, depois de umas horas de folia, sentávamo-nos a comer sardinhas assadas com broa ou cabrito assado e terminávamos no Palácio de Cristal a tomar uma chávena de chocolate bem quente para nos aquecer.


1974 - foto JN



Diz a lenda, e alguns conhecedores, que a tradição do alho porro na noite de S. João vem de tempos longínquos. Terá sido um símbolo fálico que os rapazes usavam para passar pelo nariz das raparigas que lhes agradavam. Há 50 anos já os dois sexos os compravam e batiam com a flor, por vezes mesmo com a cebola, na cabeça do próximo. Outros afirmam que se tratava de uma erva aromática com virtudes mágicas e terapêuticas e que se pretendia desejar boa saúde e amizade aos outros brincalhões.
Ainda hoje há quem os compre para dependurar atrás da porta de casa para afastar a má sorte e só na noite de S. João do ano seguinte, o substituem.
De qualquer forma, foi um elemento indispensável para nos divertirmos na deliciosa noite de 23 para 24 de Junho.


1980 - foto JN

As ruas do Porto enchem-se de centenas de milhares de pessoas que, com um sorriso aberto e grande alegria batem com o alho pôrro ou cidreira uns nos outros. Nos anos 70 apareceu o martelinho, que, para nosso gosto, veio estragar um pouco a festa. Esta foto faz-nos lembrar os anos 70 em que íamos, acompanhados de alguns amigos, a orientar mais de 100 jovens desde a Boavista ao centro. Era uma responsabilidade grande, mas nunca tivemos problemas com a multidão. Costumávamos ir com as mãos agarradas, mas acontecia "quebrar-se a cadeia". Os da frente eram avisados para esperar enquanto procurávamos os atrasados. Era cansativo, mas muito divertido.

Porto Canal – alho porro


1963 - foto JN

"Oh "murcom", pega lá um complemento sobre a história do S. João do Porto, segundo o que recordo de os meus pais me contarem na minha meninice, nos anos quarenta.
Nessa época, não havia plásticos, o S. João estava limpo de martelos, o que não significava que, como sempre, essa não fosse a noitada de muitas marteladas… Fazia parte do ritual dessa festa, que remonta aos idos dos cultos pagãos da fertilidade, a compra do alho-porro inteiro (raiz, folhas, caule e flor) e dependurá-lo na principal parede da casa para dar sorte, ali ficando até ser substituído por outro no ano seguinte. Foi prática em minha casa até à minha adolescência.
Os grupos de famílias que saíam dos bairros e das ilhas a pé com destino às Fontainhas para verem a cascata do S. João compravam no caminho aos lavradores não só o tradicional alho porro, mas ainda outros vegetais simbólicos como vasos de manjerico e ramos de cidreira e de cravos.
Decorria a II Grande Guerra e havia foragidos ricos alojados no único hotel de luxo da Cidade – o Grande Hotel do Porto (o Infante de Sagres ainda não existia). A gerência colocava daquelas cadeiras de lona, tipo encenador, no passeio junto à portaria do hotel onde os hóspedes se sentavam e viam passar aquelas alegres rusgas familiares. A cada hóspede, a gerência oferecia um alho-porro. Então, as velhotas estrangeiras, sentadas e com o alho na mão, começaram a dar com a flor do alho delicadamente na cabeça dos passantes de ambos os sexos. Muitos começaram a imitá-las e em pouco tempo generalizou-se a prática de dar com o alho uns nos outros, ou a fazer passar a flor pelo nariz das moças, que retribuíam. E também o ramo de cidreira - com odor mais recomendável que o alho - se dava a cheirar.
E assim o que era um passeio alegre de todos os pontos da Cidade e arredores até às Fontainhas passou para uma divertida batalha campal pacífica.
O raio do plástico deu cabo disto tudo com os martelos fonte de sons estridentes e, por vezes, de pancadas dolorosas devido à rigidez do material.
Aprende que este "murcom-jubilado" não dura sempre e regista para que não se perca na memória.
Abreijos,
M. Gaspar Martins"


24/6/1950

Ás três ou quatro da manhã saía o JN com o concurso das quadras de S. João. Acabávamos a noite a lê-las, antes de nos deitar. Desde 1929 que este concurso se mantém. Citámos abaixo algumas tiradas à sorte:

1929 
Os teus olhos são fogueiras,
Onde os meus querem bailar.
Hei-de cansar os meus olhos
                                     À volta do teu olhar                    (Salvador Dantas) 

1929 
Ao saltar duma fogueira
Na noite de S. João,
Não sei bem de que maneira
                                                Chamusquei o coração.         (Euclides Sotto-Mayor) 

1930 
Passa o rancho - e uma velhinha,
Que já foi linda e que amou,
Fica na sombra, sozinha,
                            A chorar quem Deus levou!           (D. Juan) 

1930 
Orvalho do céu caindo,
Tantas luzinhas a arder...
S. João, como isto é lindo...
- Que pena a gente morrer!... 

1932 
Tão branquinho como a neve,
Vermelho o cravo ficou:
Beijou-te o seio, de leve,
Teve vergonha, corou... 

1932 
Olhos com olhos - a chama,
Lábios com lábios - braseira.
Abraços - tudo se inflama,
                              Arde amor numa fogueira.             (A. Ramos)

1939 
  Desde que à fonte sorriste
Inda ninguém descobriu
Se chora porque fugiste,
                                         Se canta porque te viu...          (Nicolau Eusébio)

1981 
Não há fogueira sem lume, 
Profecias sem profetas,
Não há amor sem ciúme
                            Nem S. João sem poetas.             (Marujo) 

1982 
Na noite de S. João,
As juras de amor fiel,
São bolinhas de sabão
                                     E barquinhos de papel!                (Comicala) 

1985 
Dei-te um pé de manjerico,
Custou-me um dia sem pão...
- tripeiro que não é rico
Faz das tripas coração!... 

1987 
Teu seio, a medo, tocado,
Na noite de S. João,
Ficou-me sempre moldado,
                                     Na concha da minha mão!          (Manuel Corgo) 

1989 
A nossa rusga é modesta
Mas lá vai toda contente,
Mostrando dentro da festa
                                 Que a festa é dentro da gente!           (Benamor) 

2002 
Menina, tome cuidado
Nesse seu passo de dança...
Nem sempre um passo mal dado
                                    Acaba numa aliança.                     (Olho Vivo) 

2012 
Trevos de sorte não colhas
Na noite de S. João;
A sorte que vês nas folhas,
                             Pode bem ser ilusão!...             (Fátima) 

E já agora mais três quadras belíssimas: 

É noite de S. João 
E em cada rua modesta 
Cada pedaço de chão 
                              É um pedaço de festa.           (João Humilde) 

A roda do nosso abraço 
Tem um sentido profundo 
Quanto mais se aperta o laço 
Tanto mais se alarga o mundo. 

Ao pé do trevo colhido 
Temos outro por colher 
Um, é o tempo vivido 
Outro, o que está p’ra viver




Venda de cabritos de S. João – foto JN


A sardinha assada com broa e o cabrito assado são os petiscos mais tradicionais desta noite.


1988 - foto JN


A fogueira é um dos traços comuns que une esta festa em toda a Europa. 

“A tradição das fogueiras de São João está relacionada com o ancestral culto do Sol, em que o fogo simboliza o poder purificador e fertilizante. O saltar da fogueira está estreitamente ligado à saúde, ao acasalamento e à fecundação”. In Infopédia


1966 - foto JN




1992 – foto JN

Os vasos de manjericos com uma quadra são uma presença constante nesta grande festa.

O manjerico de S. João

domingo, 5 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXV

3.5.14 - Festas de S. João - I


Os romanos festejavam já o solstício de verão. A partir da Idade média começou a substituir-se essa festa pagã pela de S. João Baptista, que se festeja na noite de 23 para 24 de Junho. 
Santo Elói, no século VII, proclamou do seu púlpito aos fiéis que o ouviam: “Eu vos peço... que na festa de S. João e em outras solenidades dos santos, se não faça uso do solstício; que não se entreguem a danças, a jogos, a corridas, a coros diabólicos…”. Os frades Loios fundaram no Porto o Convento de S. Elói em 6 de Novembro de 1491, que foi muito apoiado pelos portuenses até  que foi extinto em 1834, após a revolução liberal.

Festas de Verão de 1908 – Arco de triunfo na Rua de Santo António

O São João do Porto é uma festa popular que tem lugar de 23 para 24 de Junho na cidade do Porto, em Portugal. Oficialmente, trata-se de uma festividade católica em que se celebra o nascimento de S. João Baptista, que se centra na missa e procissão de São João no dia 24 de Junho. As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Mais tarde a Igreja cristianizou essa festa pagã e atribuiu-lhe o S. João como Padroeiro. 
Não se conhece com rigor quando teve início a festa do S. João do Porto. Sabe-se, pelos registos do Séc. XIV, já que Fernão Lopes, por essa altura se terá deslocado ao Porto para preparar uma visita do Rei, tendo chegado na véspera do S. João, deixou escrito na Crónica de D. João I que no Porto era dia de "maior folgança da cidade", festas "cheias de animação e entusiasmo desabrido". 
É no entanto possível que essa festa fosse mais antiga, pois existia uma cantiga da época que dizia “”té os moiros da moirama”” festejam o S. João. 
Era também no dia de S. João que a Câmara Municipal do Porto se reunia em Assembleia Magna, que corresponderia à actual Assembleia Municipal, reunião essa realizada no Claustro do Mosteiro de S. Domingos, pelo seu grande espaço, onde se procedia à eleição dos Vereadores e onde se tomavam as decisões mais importantes para a cidade”. In Wikipédia


“Em 1834, o Porto vivia com intenso júbilo a sua victória no cerco. Nesse ano, o S. João foi festejado na cidade com enorme euforia. Houve arraiais na Lapa, Campo de Santo Ovídio (hoje Praça da República), na Rua Nova do Almada e dos Caldeireiros diante do velho Hospital de S. João instalado na Confraria de Nossa Senhora da Silva”. Germano Silva 
Já em 1851 em vários pontos da cidade estalejou foguetório na véspera de S. João. A Rua de Trás, de Santo António, das Hortas, agora do Almada e outras estavam iluminadas, embandeiradas, e foi lançado fogo preso etc.


No alto da Rua de Santo António, S. João estava sentado numa grande cascata e havia iluminação pela rua acima. Na escadaria destacava-se o obelisco profusamente iluminado. 

“O despique político era a tónica dos festejos sanjoaninos, logo após a victória dos liberais. Os miguelistas não se davam ainda por vencidos. E aproveitavam a festa para mandar recados: 

O S. João da Lapa
Escreveu ao do Bonfim
Visse bem o que fazia
Que a coisa não ia assim…

Na Lapa o S. João fazia-se na alameda, onde está agora o hospital. Em 1844, 10 anos depois da victória dos liberais, escrevia-se nos jornais que o S. João da Lapa levou a palma a todos os outros. Entre danças e descantes, vendiam-se espetadas, peixe frito, tripas à moda do Porto, regueifas de Valongo, pão de Paranhos, doce da Teixeira. Nesse ano houve uma novidade, o vinho era de Amarante. A Irmandade da Lapa levava para a alameda os bancos da sacristia que alugava a quem quisesse assistir comodamente ao fogo-de-artifício. Rezam as crónicas que o fogueteiro desse ano foi muito aplaudido. Em 1845 o despique é entre os S. Joões de Cedofeita e do Bomfim. Moços e moças passavam em ranchos a cantar:

Não diga que tem saúde
Quem nesta noite se deita;
Sem tomar as orvalhadas 
Nos campos de Cedofeita.

A velha igreja românica, era a esse tempo, um monumento isolado no meio de quintas e pinhais onde os festeiros da cidade acampavam com as suas merendas. O Sr. D. Prior de Cedofeita franqueava a sua quinta aos romeiros que por ela se espalhavam a cantar:

Que é aquilo,
Que é aquilo,
Que é aquilo?
É S. João a caçar um grilo…

Em 1849 começaram a organizar-se comissões de moradores em certas ruas e locais. Faziam-se subscrições cujo produto revertia a favor das festas. No Bonfim, iluminavam-se as ruas como nunca antes acontecera em parte alguma. O S. João é festejado sobretudo nos quintais com luminárias, foguetes, fogo de ar e preso. Dançava-se por entre as bichas de rabiar, os buscas-pés, as bombas. Nas ruas o povo suava e acotovelava-se… O S. João era nas ruas. Ainda estava muito longe o S. João do Palácio de Cristal. Pela simples razão de que o Palácio ainda não existia”. Germano Silva
Também o Conde de Rezende abria a sua bela Quinta de Santo Ovídio para os festeiros aí passearem, descansarem e comerem nessa noite.


Embora um pouco longo, entendemos que, a autenticidade da descrição das festas de S. João nas décadas de 60 e 70 do séc. XIX, o texto do eminente médico portuense Ricardo Jorge, escrito em Paris no dia 23 de Junho de 1919, tem o maior interesse em ser dado a conhecer.

“…No meu tempo o S. João de Cedofeita andava já a tocar ao viático, prestes a desaparecer. 
O da minha infância era o da Real Capela onde jaz o coração do dador, como se dizia em estilo do tempo; tão ardente fora o seu culto que os negociantes das Hortas, mercadores de ferro e linho, projectaram erguer-lhe ao norte da alameda templo próprio de que se viam ainda então os primeiros panos gretados e musgosos, onde se espetavam as varas dos silvados e faziam tocas as osgas e sardaniscas, que nós, os rapazes do colégio da Lapa, fisgávamos á pedrada. 
A novena de S. João cantava-se ao sol fora com singular e pitoresco acompanhamento: em vez do organista, dois matulões da Ribeira, trajando a rigor á moda de Redondela rufavam no tamboril e sopravam na gaita de fole…


O arraial armava-se na alameda da Lapa, donde a vista se espraia até á orla luzente do mar, alameda hoje atravancada por um hospital merencório que bem podia ter ido pousar-se noutro sítio, sem empecer um dos mais saudosos logradoiros panorâmicos da cidade— coisas do Porto. Doces de Paranhos, negros e duros de rilhar — barracas de lona onde se fregem com fragor e fumarada as espetadas e as postas de pescada tão amada do tripeiro, e se empipa no carro de bois o verde de Amarante e o preto da Companhia, bebidos em tigelas vermelhas de Aveiro, — as regueifas de Valongo sobre as canastras, a filarmónica do Pau-Teso, e um burburinho de ensurdecer onde estridulam as gaitas de chumbo sopradas pelos rapazes. Na clareira as raparigas da Maia de pé descalço e saia arregaçada, dançam ao som da chula a Cana-verde e o Regadinho. Noite de patuscada, até que para essa meia-noite, aos gritos de “”ó careca””, a isca incendeia as dobadoiras pirotécnicas do Devezas, saudadas de palmas quando se exala a centelha do último caniço da árvore de fogo consumida e morta. 


Os madrugadores desandavam então para o Campo de Santo Ovídio; os ranchos de viola, requinta, violão e flauta, enfiavam pelo portão amplo da quinta do Pamplona — o solar dos condes de Resende, sempre aberto fidalgamente ao povo. Ao romper da aurora colhiam-se as plantas míticas, a que o orvalho da manhã do santo servia de água benta — o alecrim, o louro, o azevinho, o alho-porro. Uma rua não sei de quê atravessa e sepulta hoje esta que foi uma estância paradisíaca, derrubando os balaústres do palacete, os tanques onde boiavam os velhos barbos, as magnólias negras de flores de neve, as sebes das japoneiras, os álamos frondentes, as murtas arbóreas, os loureiros estroncados, que bracejavam as rancas idosas pelos caminhos e maciços do parque, donde se soltavam os silvos aflautados dos melros.

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer seu ninho…

Há vinte e cinco anos, antes do meu exílio, assisti com a emoção bucólica do herbanário de Júlio Diniz a este arboricídio que me levava as sombras viridentes onde se esbateu a minha desinquieta meninice.


Iam-se os olhos nas cascatas onde o santo precursor e o carneiro branco troneiam, debaixo duma arcada de ramalhoça e sobre um monte de escórias e areia, povoado de monos de barro pintado, adquiridos nas lojas de traz dos Clérigos — imaginária popular tão curiosa, a reproduzir as cenas triviais da vida rústica, fabril e doméstica. Espécie de presépios, mais variados e movimentados, pois que os anima a minúscula catarata dum veio de água: gira a roda do moleiro da azenha, bate o malho do ferreiro na bigorna, sai do túnel o comboio, volteja o burrinho da nora, faz vaivém a serra do madeireiro... Que pequenas maravilhas de cenário e de hidráulica se não engenhavam para o engodo e alegria dum dia! 
Há hoje justamente quarenta anos que fiz a ultima noitada de S. João com um grupo de rapazes divertidos, meus camaradas da Escola Médica. Não sei se alguns d'eles ainda a rememorará, porque aqueles que me lembram, só nas loisas tomarão as orvalhadas. 
Havia festa rija e fogo preso na Rotunda da Boavista, e de lá vamos cear aos Caldos de galinha do Carmo.


Nova estação no mercado do Anjo, todo iluminado, empavesado e enramado, onde as colarejas á roda da fogueira, foliam danças e descantes abrejeirados. Ao Santo que pagava com a cabeça as suas austeras imprecações contra a dança lúbrica da Salomé, tocam os restos do culto fálico e fescenino, de mescla com o S. Hilário e o S. Gonçalo de procazes alusões populares:

Repenica, repenica, repenica,
S. João a m… em bica.
Repenica, e tornar a repenicar,
S. João sempre a m…


O último passo era nas Fontaínhas, onde de madrugada convergiam de toda a parte os bandos e as ranchadas, na frente o harmónio ou a banza e os pares em fila, de cravo ao peito e de grandes chapéus de palha feitos na Cadeia, entrapados em lenços de chita berrante: 

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras, 
Viva o rancho das mulheres solteiras. 

E os compassos esfusiantes do hino popular do S. João a retinir sempre, até ao lusque-fusque da manhã a palhetar de rosicler as agulhas da rotunda fronteira do Pilar e as arestas dos penhascos que se empinam sobre o fosso onde escorre fundo e lobrego o veio do Douro - a paisagem severa e solene que Herculano dizia ter sido lavrada por Miguel Ângelo. 
Sol fora enfim, sol alegre a bailar, como é de tradição neste dia solsticial, em que o homem e a natureza se abraçam panteisticamente numa convulsão de alegria: 

Se S. João bem soubera 
Quando era o seu dia, 
Descera do céu á terra 
                                    Para dançar de alegria.                Ricardo Jorge 


“O S. João das Fontaínhas ainda não existia. Só começaria a despontar 35 anos depois (1869), quando um morador do sítio resolveu montar na Alameda uma monumental cascata ao redor da qual se vendia cabrito com arroz de forno, arroz doce e aletria, e café quente com pão com manteiga. Os ranchos que cirandavam pela cidade deslocavam-se ao célebre miradouro para apreciar a novidade e a curiosidade transformou-se em rotina. Os romeiros cantavam:

Abaixai-vos carvalheiras
Com a rama para o chão;
Deixai passar os romeiros
                            Que vão ver o S. João”.           Germano Silva

O S. João era a oportunidade dos poetas fazerem quadras, ligadas, em grande parte, ao amor e ao casamento. São conhecidas as quadras, cantadas, que referem as festas nos locais acima, tais como:

- Donde vindes S. João
Com a capa de estrelinhas?
- Venho de ver as fogueiras
Do largo das Fontaínhas

Orvalhadas, orvalhadas, orvalhadas…
E viva o rancho das mulheres casadas.

Na noite de S. João
É bem tolo quem se deita
Todos vão às orvalhadas
Aos campos de Cedofeita.

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras…
E viva o rancho das mulheres solteiras.

Fui ao S. João à Lapa
Da Lapa fui ao Bonfim;
Estava tudo embandeirado
Com bandeiras de cetim.

Orvalhudas, orvalhudas, orvalhudas…
E viva o rancho das mulheres viúvas.

“Diz a tradição que a água das orvalhadas da madrugada de São João tem poderes excepcionais de purificação, regeneração e protecção, garantindo amores felizes e casamento próximo, para além de proporcionar vigor aos idosos e beleza aos jovens. Este simbolismo universal das águas também se observa nos poderes místicos de certas plantas, como o alho-porro, o manjerico, a alcachofra, o cardo ou a cidreira. A alcachofra tem o poder de adivinhar a realização do casamento, devendo por isso ser queimada ou chamuscada na véspera do dia 24, à meia-noite, na fogueira de São João -""Em louvor de São João, para ver se fulano me quer bem ou não"" - e deixada ao relento, enterrada num vaso. O casamento está garantido se a planta reflorir no dia seguinte”. In Infopédia


Festas de S. João na Rua de D. Pedro – 1908

Após a Revolução do 5 de Outubro, a República pretender modificar muitas das tradições. Uma delas foi a alteração dos dias feriados nacionais e a imposição a cada câmara a escolha do seu feriado municipal.
No Porto foi feito um referendo, através do Jornal de Notícias, em que se pedia ao povo que escolhesse o dia da sua preferência, entregando no jornal o seu voto em envelope ou mandando um postal até 2/2. No dia 4/2/1911 foram publicados os resultados:
Dia de S. João – 6.565 votos
Dia 1 de Maio – 3075
Dia de Nossa Senhora da Conceição – 1975
Dia 9 de Julho – 8.
Portanto, só a partir desta data o dia de S. João é, oficialmente, feriado municipal.


Cascata de S. João – Museu Etnográfico do Porto 



Uma tradição centenária são as cascatas. Nas ruas e nas casas ou seus quintais era obrigatório haver uma. Infelizmente é uma das mais belas tradições que se está perdendo. Os nossos filhos e netos já não as fazem.
Em nossa casa, desde muito pequenos, guardávamos, de ano para ano, algumas figuras imprescindíveis e quando íamos ao Senhor de Matosinhos comprávamos as que eram novidade ou se tinham partido.
Encostado a um muro ou parede construíamos um monte de terra e cobríamo-lo com musgo. 
No cimo estava o S. João com o seu cordeiro e pela rampa abaixo figuras como carneiros, pastores, uma banda de música, uma procissão aproveitada do presépio, lavadeiras, vendedeiras e muitas outras figuras típicas em barro. Também não faltava um pequeno lago com uma figura de um pescador. Por vezes era um espelho redondo muito usado nesse tempo, como publicidade de casas comerciais. O que mais nos divertia era a forma tão entusiasmada com que a construíamos e depois a melhorávamos e limpávamos. 
Assim que ficava noite nosso pai e tios traziam algum fogo-de-artifício tal como bichas de rabiar, pirilampos, estrelinhas e outros pouco perigosos. Mas os momentos mais emocionantes eram o fogo preso, os vulcões e pequenos foguetes que faziam muito barulho e eram muito lindos no ar.
Só nos deitávamos à meia-noite, o que para nós era tardíssimo. 


A decorar a nossa cascata havia sempre alguns balões de papel que lhe davam muita graça e cor.


Nas ruas do Porto era comum encontrar rapazes a pedir 1 tostãozinho para a cascata. Assim que a construíam punham-se de guarda para que nada fosse tirado, mas continuavam a pedir o tostãozinho. 

Cascatas de S. João 

Desejamos aos nossos leitores um Novo Ano cheio de saúde, alegria e Paz