segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XVII

9.17 - Testemunho extraordinário de Olivier Merson I - 1857, Porto visto séc. XIX e hoje, Ligação do Porto e Gaia, O Porto negociante, Grandeza e queda da nobreza no Porto, Porto antigo junto do rio, 


Século XIX – O Paço ainda não está terminado.


Foto de ameriCartucho – 2017 – Maravilhoso pôr do Sol!

De visita ao Porto, em 1857, o francês Olivier Merson escreveu uma descrição do Porto e dos portuenses, de tal forma notável, que decidimos incluí-la na quase totalidade: (In O Tripeiro, Volume 3, 1/10/1912).
“O Porto assenta sobre dois montes de pedra, junto dos quais passa o Douro. Do lado oposto, na margem esquerda do rio, eleva-se Vila Nova de Gaia (Portus Cale) que se tornou simples anexo da antiga Castrum Novum. A Catedral e o bispado dominam a cidade;…


James Holland – 1838 – Serra do Pilar ainda com vestígios do Cerco.
…o Convento da Serra do Pilar, transformado em cidadela, por D. Pedro, em 1832, protege ou ameaça a povoação…


…O Porto está ligado com Vila Nova de Gaia por uma ponte suspensa; navios de todas as nações enchem o porto; desde a base até ao cume das colinas desenham-se ruas a prumo, escadas cortadas na rocha; o Douro desaparece num fundo obscuro; nas duas margens, rochedos inacessíveis, à maneira de bastidores, fazem sobressair o motivo principal do quadro, e tudo isto, visto em distância, é de um efeito majestoso. Como decoração de teatro, como mise-en-scéne, é imponente, imenso, grandioso…



…O Porto é antes de tudo uma cidade de negócio. O comércio tem o seu assento junto do rio, próximo dos navios, no cais, onde há os escritórios, nas ruas adjacentes, e sobretudo na Rua Nova dos Ingleses, onde, numa espécie de bolsa aberta ao ar livre, cada um invade o passeio ou a rua, indo, quando chove, até à porta ou entradas das casas…As transacções fazem-se com grande actividade, mas com uma prudência sabiamente precavida. O negociante portuense é rico; algumas vezes riquíssimo. Todavia, fácil em inquietar-se, costuma reflectir muito antes de entrar n’uma especulação; pouco aventuroso, e desejoso de saber que sorte terá o seu dinheiro, não será ele que deixará correr à revelia essas trampolinas das finanças, a que a indústria e o comércio servem quase sempre de pretexto…


…A nobreza representou outrora no Porto um papel importante. Ela tinha o monopólio dos empregos administrativos e militares e, sem vergonha disso, comerciava ao mesmo tempo. A sua influência tem decaído muito...


Sede da Companhia das Vinhos na Rua das Flores - desenho de J. Victória Villa Nova - 1833

…Como era aferrada ao sistema de D. Miguel, e o regime liberal permaneceu, retirou-se completamente da cena política e comercial. Durante os anos que se seguiram à queda da causa miguelista, as famílias da nobreza viveram fora do Porto, hoje povoam outra vez a cidade, e suas moradas, agrupadas nas vizinhanças da Catedral, formam um quarteirão à parte, que corresponde ao arrabalde de S. Germano…


Da Rua de Cedofeita vê-se a Torre dos Clérigos

…Os homens do mundo financeiro, têm o seu arrabalde Santo Honorato na Rua de Cedofeita…


Foto de Frederick Flower – 1854


Ourivesaria Aliança - Rua das Flores - 1933


…Com menos adornos, menos ouro nas vidraças e tabuletas, do que em Paris, os estabelecimentos elegantes e confortáveis da cidade, quer de bijuterias quer de modas, fazem da Rua das Flores um ponto de reunião agradável para os ociosos. As casas da Rua das Flores datam do século XVI. Os cambistas moram na Feira de S. Bento;…


Rua de Pelames - 1936


Torre da Rua de Baixo – Barredo – séc. XIII


Rua da Reboleira


Rua Arménia ou dos Arménios


Escadas do Barredo e não do Codeçal


…e quanto aos marítimos, cujo número é necessariamente considerável, habitam as vizinhanças do Douro, por exemplo, a cidade baixa, a cidade velha, em ruas escuras, estreitas, a custo praticáveis, que cercam a Catedral do lado do rio. Finalmente, do lado esquerdo, fica Vila Nova de Gaia…


Vila Nova de Gaia - 1860 - ao cimo destaca-se o aqueduto que servia o Convento da Serra do Pilar.

Fotografias do Porto antigo

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XVI


9.16 - Memórias de Faustino Xavier de Novais, Auto-retrato, Faustino e Camilo, Abadessados no Convento de S. Bento de Avé Maria, Outeiro no Convento de Corpus Christi, Versos no livro de António Bernardo Ferreira



Faustino Xavier de Novais (Porto 1820 / Rio de Janeiro 1869)


Figuras literárias do Porto – A. M. Basto





A – Convento dos Loios; B – Cerca com seu quintal; C – Casas que fazem frente dom a feira e costas ao quintal dos Padres Lóios e tem de largo 200 palmos “incirca” do convento; D – Largo da Feira; E – Porta de Carros; F – Os Padres Congregados; G – Porta do pátio que “feixa” as portarias das Religiosas de S. Bento; H – Seu Mirante



Entrada pelo lado da Igreja, na Rua do Loureiro

De três em três anos, quando da eleição das novas abadessas, realizarem-se os chamados Outeiros ou Abadessados para os quais eram convidados familiares e amigos das freiras e internas, figuras da sociedade e poetas famosos desse tempo. Eram uma espécie de serões culturais, que duravam três noites e terminavam altas horas da madrugada. A eles assistiam muitas pessoas e sobressaíam poetas repentistas. Camilo, Guerra Junqueiro, Xavier de Novais, Alberto Pimentel, Guilherme Braga e tantos outros eram costumeiros destas diversões.
“As freiras velhas e as juvenis educandas davam os motes, os doces e os vinhos; os poetas bebiam o vinho, comiam os doces e glosavam os motes; e quanto mais depressa tudo isso faziam, tanto mais eram admirados”. Punham-se luminárias nas janelas e a festa durava três dias e três noites consecutivas. Fora de portas, no pátio, o público aplaudia os poetas e regalava-se com as muitas iguarias que as criadas do mosteiro serviam”. In livro Porto Desaparecido

O Dr. Artur de Magalhães Basto refere um episódio entre uma freira e o poeta satírico Faustino Xavier de Novais. Aquela lançou o mote:
No açafate da costura
Se escondeu agora amor.

De imediato Faustino responde:

Se eu pudesse em noite escura
Ser por ti agasalhado,
Dormia mesmo enroscado
No açafate da costura;
E se lá dessa clausura
Fora me quisessem pôr, 
Tu dirias: não senhor
Não toquem nesse cestinho
Que lá dentro, encolhidinho,
Se escondeu agora amor.

Entre os vários poetas concorrentes fazia parte um mestre-escola menos feliz nas rimas. Foi-lhe dado o mote e ele retirou-se um pouco para pensar o seu madrigal. Porém, não lhe ocorrendo a versalhada pegou nuns rolos de cera e, acendendo-os, pretendeu escrever a sua resposta. Tanto demorou que começaram as risadinhas e zombarias. Perdendo a paciência o espontâneo Faustino atirou: 

Senhoras, peço e requeiro 
Que se apaguem já os rolos;
Não sejamos todos tolos,
Aliás d’aqui m’esgueiro…
Quem não pode um verso inteiro
Reter na sua memória,
Conte p’raí uma história,
Ou lenda de feiticeira,
Ou diga, então, quanta asneira
Reprimiu c’oa palmatória.


In Livro Porto Desaparecido

Deste importante abadessado, dá-nos o escritor Firmino Pereira uma viva descrição: 



Convento de Corpus Christi - Gaia

Era costume, também neste convento realizarem-se, em dias de grande festa, os chamados Outeiros, em que convidados e conhecidos mostravam às meninas recolhidas e freiras os seus dotes de improvisação poética. Após graças e boa disposição, era servido pelas freiras uma refeição com os melhores doces da casa; e diga-se que habitualmente eram os melhores da cidade.
Em 1848 houve um neste convento onde o poeta satírico Faustino Xavier de Novais foi concorrer. Tinha ido num velho carroção. À entrada, berra para as grades onde estavam vultos femininos;

Seis patuscos qual mais ratão
À custa do seu dinheiro
Chegam agora ao Outeiro
Metidos num carroção.
Trouxe sempre os bois a trote,
Que sem darem um pinote
Aqui põe os vates prontos:
Portanto nada de contos
Oh! Meninas, venha o mote.

De imediato lhe foi lançado o seguinte:

Negro zelo vai-te embora.

Em voz alta, recitou:

Vou aprender a torneiro
Que é ofício muito bom;
Trabalha o pé e a mão
Ganha-se muito dinheiro;
Vou comprar a um ferreiro
Um torno, mas dos de fora,
Porém, lembra-me agora
Tenho aqui um tornozelo;
Fica o torno e digo ao zelo
Negro zelo vai-te embora. 

Entra em cena o segundo vate, o Pároco de Mafamude, José Maria de Sant’Ana e Silva, e diz:

Eu não quero marmelada, 
Tão pouco doces, licor
Venho aqui por favor
Não quero me deem nada.
Quero sim ver acatada a musa do trovador;
Eu cá não sou impostor
Ás madres digo o que sinto:
São mudas nesse recinto?
Louvado seja o Senhor!

De imediato baixou o mote:
Amor é a alma da vida

Glosou o poeta:

Olhem que amor não é cego
Vê um mosquito na Lua
É um lampião de rua
É firme como um prego
Em que a gente anda pendida.
É amor uma torcida
É amor um parafuso
E sendo ele em bom uso
Amor é alma da vida.

Uma bela história, ligada ao Corpus Christi, que encontrámos em O Tripeiro Volume 6:




Poesias de Faustino Xavier de Novais - Tem poesias maravilhosas

domingo, 3 de dezembro de 2017

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XV

9.15 - Memórias de Camilo Castelo Branco - II, As mulheres do Porto e o seu fascínio segundo Camilo, Lutas entre fãs de cantoras de ópera, Camilo recorda a juventude no Forte de S. João da Foz.






Lavradeira do Porto







In Figuras Literárias do Porto de Artur de Magalhães Basto   



Adélia Dabedeille

A Ópera, no séc. XIX, era muito apreciada, concorrida e bem frequentada. Os sucessos dos cantores e das óperas eram muito comuns e, habitualmente, o público muito conhecedor. Sucessos como os que descrevemos  no lançamento anterior devem ter sido raros, mas ficaram na história.


Estalagem da Ponte da Pedra –C.P.F.

Na noite de 6/3/1849 os fanáticos de Adélia Dabedeille homenagearam-na na famosa Estalagem da Ponte da Pedra. Por coincidência ou não, Camilo e seu amigo Aloísio Seabra, apoiantes de Clara Belloni, foram lá cear. Vendo o que se passava, começaram a dar vivas à sua preferida. Rapidamente tal provocação degenera numa valente rixa. Camilo e o amigo tiveram de bater em retirada, pois os “inimigos” eram muitos. Como escreveu Camilo “Aloísio retirava ferido pela ponta de um estoque de bengala; eu que entrara resoluto a morrer, inutilizado o copo na cabeça do mais cobarde, cruzei os braços esperando a morte numa atitude romana”


Camilo, em 1868, escreve sobre a sua passagem pelo forte de S. João da Foz , com saudades da sua juventude:


Camilo – As memórias do cárcere

Porto e o Norte – belo vídeo de McNamara 
https://www.youtube.com/watch?v=wgO_Zk3P1q0