sábado, 15 de setembro de 2012

BAIRROS DA CIDADE - X

 
2.3.2 - Bairro da Victória - IV


Embora a Praça da República não pertença ao Bairro da Victória, pareceu-nos natural incluí-la neste bairro, por nela terminar a Rua do Almada, sendo a sua natutal sequencia.

Em 1790 Francisco de Almada e Mendonça mandou abrir, por ordem da rainha D. Maria I, uma praça no antigo campo de Santo Ovídio. Começou por chamar-se Praça ou Campo de Santo Ovídio dada a existência de uma capela, a Capela de S. Bento e Santo Ovídio, que foi construída pelo Dr. João Carneiro de Morais e sua esposa no ano de 1665, em terreno da sua Quinta da Boavista, que mais tarde, se chamou de Santo Ovídio. A capela foi destruída nos anos 90 do século XVIII.


Santo Ovídio – de origem siciliana, foi enviado para Braga no ano de 95 pelo papa Clemente I, e martir em 135 - patrono das dores de ouvidos e dos maridos infieis.

 

Esteve prevista a abertura de uma rua, em frente à Rua de Gonçalo Cristovão, mas que, por motivos de não acordo entre proprietários de casas a destruir e a câmara, nunca foi aberta. Alguns anos depois foi aberta a Rua de Álvares Cabral, como trataremos aquando da Quinta de Santo Ovídio.

Nesta praça verificaram-se vários acontecimentos importantes da nossa História, que deram origem a outras designações.


António Bernardo de Costa Cabral
Em consequência da insurreição militar de 1 de Maio de 1851, que provocou a queda de Costa Cabral, passou a chamar-se Campo da Regeneração.
 
 
Em 24 de Agosto de 1820, foi desta praça de saíram os revoltosos liberais. Fernandes Tomaz foi o criador do Sinédrio, deputado e presidente da Assembleia constituinte em 1820. Pormenor do quadro na Assembleia da Républica, em que se vê F.T. a discursar na Assembleia Constituinte de 1821.

Proclamação da República em 31 de Janeiro de 1891 por Alves da Veiga.
 
“No dia 31 de Janeiro de 1891, eclodiu no Porto um levantamento militar que, motivado e contrário à cedência do Governo e da Coroa ao Ultimatum de 1890 imposto pela Inglaterra, pretendeu instalar um governo provisório e chegou mesmo a proclamar a República na Praça da Liberdade.
A liderar e a impulsionar a então designada «Revolta do Porto», apoiando as forças reunidas e comandadas por capitão Amaral Leitão, alferes Rodolfo Malheiro e tenente Coelho, destacaram-se, entre outras consideradas figuras intelectuais da época, Alves da Veiga, Basílio Teles, João Chagas, Paz dos Reis, Sampaio Bruno e Verdial Cardoso.
Após empolgante percurso desde a actual Praça da República até à entrada na Praça da Batalha, os revoltosos foram inopidamente parados por um poderoso ataque da Guarda Municipal que, posicionada na escadaria da Igreja de Santo Ildefonso, abriu violenta descarga fuzilante sobre a multidão em marcha, tendo-se aí registado, entre mortos e feridos, à volta de meia-centena de vítimas, o que desde logo intimidou e obrigou à dispersão das hostes revolucionárias.
 Em severo rigor repressivo, os implicados na gorada intentona, cerca de 700 revoltosos civis e militares, foram sumariamente julgados por Conselhos de Guerra instalados a bordo de navios estacionados ao largo de Leixões e sentenciados a penas que oscilaram entre 18 meses e 15 anos de reclusão.
 Daqui e em memórica honra do ocorrido, logo que a República foi enfim decisivamente proclamada em 1910, entre as diversas ruas da cidade que tomaram o nome das mais importantes figuras revolucionárias, a rua de Santo António, que ascende da Estação de São Bento à Batalha, passou a chamar-se 31 de Janeiro.” Do J.N.
 
 
 
Principais revoltosos do 31 de Janeiro
 
 
 
Já lá vão mais de 200 anos de mudanças de nomes, mas os portuenses ainda a designam somente por CAMPO!

 
Cerca de 1900
 
 
Missa Campal em 1908, em frente ao quartel de Santo Ovídio
 
 
 
 

Teófilo Braga - Pintura de Martinho da Fonseca
Na Praça da República, depois de ter servido de parada e local de treino militar, foi implantado, em 1915/16, o Jardim de Teófilo Braga(1843/1924), que foi escritor, poeta e político. Foi Presidente da República de 29 de Maio a 4 da Agosto de 1915.
Há jardins do Porto aos quais foram dados nomes de personalidades a quem se pretendia homenagear. Mas a verdade é que acabaram por “matar” a sua memória. Este é um exemplo disso. Quem se lembra ou diz que vai ao Jardim de Teófilo Braga? Melhor seria que tivessem dado o nome deste escritor e político a uma rua, mesmo de menor importância. Também podemos referir o Jardim de João Chagas, no Largo da Cordoaria ou ao Jardim Carrilho Videira, o popular Jardim do Carregal!

Nele foram plantadas árvores e canteiros, bem como várias esculturas decorativas e evocatívas.



Baco – de António Teixeira Lopes – 1916
 
 
Rapto de Ganimedes – Fernandes Sá . Lamentavelmente esta escultura foi retirada do jardim para, no seu local, ser colocada a estátua comemorativa do centenário da república. Perguntamo-nos porque a não passaram para outro local do jardim! Onde pára? Onde pensam coloca-la, se pensam isso?
 

Memória ao Padre Américo (23 de Outubro de 1887/ 16 de Julho de 1956), importante figura da Igreja e de Portugal pela sua Obra da Rua, dedicada aos rapazes abandonados, Casa do Gaiato, aos desalojados, Património dos Pobres e aos doentes terminais e abandonados, O Calvário. O escultor foi Henrique Moreira, 1959.
No Porto houve outra figura importante neste campo, foi o Padre Baltazar Guedes, no séc. XVII, de que trataremos aquando do Colégio dos Orfãos.
 

Centenário da implantação da República, de Nuno Marques

 
Principais saídas da cidade em 1848. João e Francisco de Almada foram os criadores da expansão da cidade para Norte.

 

sábado, 8 de setembro de 2012

BAIRROS DA CIDADE - IX

 
                          2.3.2 - Bairro da Victória - III                       
 


Sendo nossa intenção escrever sobre a Rua do Almada, pareceu-nos que antes de a apresentar, deveríamos fazer as considerações que se segue.

Na sua importantíssima obra sobre o Porto do séc. XVIII, A.R.C., surpreendentemente, não se refere uma só vez a João de Almada e Melo. Tanto no urbanismo como nas estruturas política, económica e cultural, João de Almada e Melo e seu filho Francisco de Almada e Mendonça foram os impulsionadores das grandes transformações que se deram na cidade na segunda metade do séc. XVIII e primeiros anos do XIX. Na História do Porto coordenada pelo Professor Oliveira Ramos lemos: “Na segunda metade do séc. XVIII, momento de grande dinamismo económico e demográfico, urgia resolver três problemas centrais, cuja solução irá constituir o cerne das realizações urbanísticas da Junta das Obras Públicas. Tratava-se de dar dignidade e monumentalidade à Praça da Ribeira, centro comercial da urbe, e de melhorar as comunicações entre esse centro e a zona alta da cidade, cada vez mais populosa. Paralelamente, tornava-se necessário ordenar o crescimento da zona extramuros, que estava a processar-se de uma forma rápida e desorganizada… Com a abertura de novas ruas, pretende-se não só definir as grandes linhas de expansão da cidade extramuros, mas ainda facilitar as principais ligações entre a cidade e o seu “interland. Assim, as novas vias integram-se num plano mais geral de regularização das velhas estradas que ligam o Porto a Braga (Rua do Almada - Campo de Santo Ovídio – Rua do Sério), à Póvoa (Cordoaria – Praça dos Ferradores – Ruas de Cedofeita – Carvalhido), a Penafiel e ao Douro (Batalha – Rua de Santa Catarina – Praça da Aguardente)… O crescimento do Porto e o alargamento e centralização das funções do Estado na perspectiva do despotismo esclarecido, obrigam à implementação de novos organismos e equipamentos públicos em domínios diversos, desde a assistência ao ensino, do policiamento ao abastecimento e à organização económica”. De referir que foi sob o seu governo da cidade que se reconstruiu a Cadeia e Tribunal da Relação, e se edificaram o Hospital Novo da Misericórdia, hoje Hospital de Santo António, o Quartel de Santo Ovídio, a Academia de Marinha e Comércio, o Real Teatro de S. João e outras importantes obras.
Porém, não nos parece tão surpreendente este silêncio de A.R.C. sobre João de Almada, pois estamos convencidos que uma boa parte da população não apoiava as medidas que estavam a ser tomadas pelo governador por razões várias:
- João de Almada e Melo foi enviado para o Porto, que conhecia bem e onde tinha uma residência, pelo “todo-poderoso” Marquês de Pombal com a primeira função de “descobrir” e castigar os responsáveis pela Revolta dos Taberneiros, o que fez zelosamente, seguramente demasiado. Foram condenados 478 réus, dos quais 26 à pena de morte e efectivamente enforcados 17. Em lugar próprio trataremos mais pormenorizadamente esta tragédia. Foi, portanto um início de governo muito impopular.
- O povo da cidade desconhecia os planos das grandes transformações, pois estes estavam restringidos aos gabinetes dos dirigentes.
- As construções das novas vias exigiam grandes demolições e incómodos, tais como, muitos desalojados e avultados prejuízos para as famílias atingidas.
- A Junta das Obras públicas era subvencionada pelo imposto de um real por cada quartilho (1/2 litro) de vinho que entrasse na cidade, o que novamente aumentou o preço deste produto tão consumido e importante na economia familiar. Lembremos que quando da fundação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, poucos anos antes, o vinho já tinha sido aumentado e foi a razão da Revolta dos Taberneiros.
- Vivia-se em Portugal um período de absolutismo muito duro e castigador, o que era contrário ao centenar espírito livre dos portuenses. O Almada representava-o na sua política intransigente e policial.
- O povo do Porto sempre quis e conseguiu governar-se a si mesmo, apesar de muitas lutas e disputas com o poder central e episcopal. Neste caso estava a ser dominado por um absolutista comandado por Lisboa, tendo junto de si muitas pessoas da sua confiança e algumas não portuenses.
- “ … Sabe-se que houve pelo menos uma pertinaz e eficiente campanha de silêncio, campanha de sistemático esquecimento de João Almada e sua obra… opinam alguns ser esse propósito movido por causa política, acionado pelos partidários da “viradeira” (Março de 1777, quando Pombal pediu a demissão a D. Maria I): muitos, por ressentimento mais que legítimo, em desforço das violências perpetradas pelo “homem de pedras no coração”, e que era o compadre e o esteio de João Almada; outros apenas por interesse pessoal, costas voltadas ao passado, peito egoísta virado ao sol nascente. Fosse como fosse, certo é que o nome de João Almada foi obscurecido, quase apagado da memória pública portuense, para só reflorir na terceira década de oitocentos aquando da ressurreição do nome, também bem afundado no esquecimento popular, do próprio Sebastião Carvalho.” In O Tripeiro, Série VI, Ano XII.
- É significativo que não exista qualquer representação, pictórica ou outra, de João Almada. O militar inglês Arthur William Costigan (em Cartas sobre a sociedade e os costumes de Portugal - 1778/9, traduzidas por Augusto Reis Machado), que viveu no Porto em casa do consul John Witehead, dá-nos dele a seguinte descrição: “Sua Excelência é de muita idade e parace-se muito com um esqueleto; tem o corpo fraco e pequeno, nariz em bico de águia, acentuadamente curvo. Lamenta assiduamente os pecados da mocidade, melhor, o pecado, pois no respeitante a excessos a gente deste paíz só conhece um; foi este, confessa ele, que o reduziu a tão deplorável situação. É diminuta a sua capacidade e não dispõe de talento, embora lhe sobre boa vontade e o desejo de exercer o cargo com imparcialidade. Pratica todo o bem que pode e não faz mal a ninguém, apesar de muitas vezes poder fazê-lo. Eis uma rara e louvável qualidade, pois a maior parte dos portugueses, quando investidos de autoridade exercem-na plenamente, fazendo aos outros o maior mal que podem".   
- Por todas as razões que expusemos, não nos surpreende que o Padre Agostinho Rebelo da Costa, um conservador avesso a grandes mudanças, considerasse João de Almada e Melo personagem não recomendável, daí o seu silêncio “ensurdecedor” pela sua impossibilidade de escrever contra ele.

Por curiosidade referimos o seguinte: João de Almada casou, aos 48 anos , com D. Ana Joaquina de Lencastre, em 1752. Do casamento nasceram dois filhos, tendo sido seu sucessor no cargo de Corregedor o segundo, Francisco. O mesmo Arthur Costigan descreve D. Ana Joaquina e seus filhos da forma seguinte: “ Bondosa e cortês, alta e bem feita, outrora bela, pintada até às orelhas e por toda a parte, cobrindo-se de pó de arroz para disfarçar a pintura. Apesar dos seus numerosos filhos de três maridos (dois, na verdade), pois foi muito pretendida pelas suas qualidades pessoais e pela sua nobre ascendência, ainda é bela. Esses 20 filhos são notáveis: os rapazes por uma estupidez que resistiu a todos os professores, embora, devido à influência materna, ocupem lugares importantes na Igreja, no Exército e na Justiça (o que não inibe a incapacidade dos mesmos). As raparigas, pela sua leviandade, até neste país notada. Mercê do facto, à respeitável senhora os gracejadores do país aplicaram o cognome de mãe dos burros”.
As referências aos escritos de Arthur Costigan foram recolhidas no Boletim dos Amigos do Porto de 1960, Vol. III.

 
 
 
 
Crescimento da população do Porto entre1758 e 1900 – História de Portugal coordenada por Oliveira Ramos



Igreja e postigo de Santo Eloi e muralha fernandina antes de ser tapado o postigo e aberta a Porta de Santo Eloi, posteriormente do Almada.
 
 
Para que a Rua do Almada tivesse a utilidade que se pretendia, ligar de forma rápida a Praça da Ribeira ao Campo de Santo Ovídio, seria preciso resolver o estrangulamento provocado pelo estreito Postigo de Santo Eloi, tapando-o, e construir uma nova porta larga mesmo em frente à Rua da Hortas, hoje do Almada. Houve que a Câmara e os frades Loios chegassem a acordo para a abertura de uma praça em frente à porta da sua Igreja, sem que a Câmara tivesse qualquer despesa. Assim, concordaram, em Julho de 1764, que os frades cedessem parte do adro da sua igreja e comprassem várias casas existentes em frente, demolindo-as por sua conta. Em troca receberiam o corredor intramuros que ia da nova porta até à Porta dos Carros, em frente aos Congregados.
 
 

Desta forma, destruídas as referidas casas e mais uma parte do adro, nasceria uma larga praça, hoje Praça dos Loios, na qual seria construída, pela Câmara, a nova Porta de Santo Eloi, terminada em 1766. Em 1794 os frades foram autorizados a demolir a muralha que dava para a Praça Nova das Hortas e a construir um majestoso edifício com a frontaria para esta praça. Em 1833, por decreto de D. Pedro IV, foram os seus bens confiscados, não estando ainda terminadas as obras. A igreja e o mosteiro, virados para a Praça dos Loios, foram destruídos por estarem em estado ruinoso, em 1833
 
 
Mais tarde foi adquirido por Manuel Cardoso dos Santos, brasileiro de torna viagem, que o comprou por oitenta contos de reis com obrigação de concluir o palácio segundo o antigo projecto, tendo sido terminado, em 8 de Junho de 1853, pela sua viúva. Daí, segundo Horácio Marçal, dever-se-ia chamar Palácio da Cardosa e não das Cardosas. Blog Porto Sentido
 
 
Planta do bairro das Laranjeiras e rompimento da Rua do Almada, por Francisco Xavier do Rego, 1761 – História de Portugal do Dr. Artur de Magalhães Basto – Planta existente no Gabinete de História da Cidade
Analisando esta planta sugere-nos fazer os seguintes comentários:
- A parte inicial da actual Rua do Almada chamava-se Rua das Hortas, e terminava na de S. António dos Lavadouros, depois dos Lavadouros, hoje Rua Elíseo de Melo. Parte dela foi destruída quando da abertura da Avenida dos Aliados. No mapa a R. de S. António dos Lavadouros seguiria, para poente, pela antiga Rua da Picaria, que era no lado Norte da actual Praça de Filipa de Lencastre onde ainda existe a casa em que esteve instalado o tribunal que absolveu Camilo e Ana Plácido. A actual Rua da Picaria era a antiga Travessa da Picaria, que termina na Praça da Conceição, hoje com o horrível nome de Mompilher.
 - A rua prevista para ser iniciada junto aos lavadouros de cima até à confluência com a Rua do Almada e Praça de Santo Ovídio não foi construída. Existia sim a Travessa da Douda ou da Doida, que veio a chamar-se Rua das Liceiras e, mais tarde, do Alferes Malheiro.
- A parte nascente do Monte da Douda foi destruída, possivelmente para a construção da Igreja da Trindade. Muitos anos ali se encontrou uma inestética pedreira.
- A rua marcada com “rua que se abre” nunca chegou a sê-lo. O mesmo aconteceu com a rua desenhada desde a Rua de Santo Ovídio às Liceiras.
- A começar na Praça da Conceição, para nascente, já está desenhada as Travessas do Pinheiro e do Laranjal, actual Rua de Ricardo Jorge.
Em 29 de Julho de 1760 D. José I autorizou a construção da Rua do Almada. As obras de abertura e calcetamento começaram em 1761 e duraram até 1785. Foi delineada por Francisco Xavier do Rego, autor da planta acima. Este escreveu na sua planta: “ A nova rua tem bem meio quinto de légua de comprido; pareceu preciso alargar-se a nova rua desde a boca da dita Rua das Hortas até ao fim da rua delineada, principiando logo em 32 palmos de largo, que é mais 2 palmos do que tem a Rua das Hortas, e acabando em 52 palmos junto de …(?) e isto para emendar a pouca largura que tem a Rua das Hortas e não ficar parecendo esta grande rua demasiadamente estreita”. Como se verifica o projectista construiu uma rua 4,40 metros mais estreita no início do que no final! A rua cortou parte do terreno de João Gomes, e o que sobrou veio a chamar-se Quinta do Pinheiro.
A Rua do Almada estende-se por 3 freguesias: Victória, lado poente desde a Rua dos Clérigos à Rua Ricardo Jorge; Cedofeita, lado poente desde Ricardo Jorge à Praça da República; Santo Ildefonso, todo o lado nascente.

 
Muito interessante comparar esta planta somente 52 anos depois da anterior. Nota-se perfeitamente a rápida evolução que a construção da Rua do Almada, Praça Nova e Praça do Laranjal trouxeram a esta zona da cidade.
 

Planta de Teles Ferreira de 1892 – a cidade, nesta zona, já é quase a actual. A Avenida dos Aliados foi aberta em 1916.
 
 
Comercialmente foi, durante muitos anos, a rua do comécio das ferragens e cutelarias. Hoje ainda tem algumas casas deste ramo. Referindo-se a esta actividade comercial, dizia Sousa Viterbo: "Parecia aos sábados uma feira de gado, tantos eram os burros dos ferreiros sertanejos, que chegavam ajoujados de ceiras de pregos, e partiam carregados de verguinhas de ferro, em feixes, ao longo da albarda, levados pela Rua do Almada acima num trotesinho miúdo e diligente, que batia os grandes lajedos da calçada com um ruído festival de castanholas."
 
 

Recordamo-nos bem de duas excelentes livrarias, onde comprávamos os livros escolares: a Simões Lopes e a Educação Nacional. Esta encontrava-se no prédio onde, desde 1820 a 1880 esteve um dos mais movimentados cafés do Porto, o Café das Hortas, de que nos ocuparemos em local próprio.
Actualmente encontra-se lá o Hotel Internacional do Porto – esquina da Rua do Almada com Rua da Fábrica
 
 
À esquerda da foto pode ver-se o lado Poente da Garagem d’ O Comércio do Porto. As casas da direita foram destruídas na construção da Praça de Filipa de Lencastre.
 

Praça D. Filipa de Lencastre antes da abertura da Rua de Ceuta – anos 1940
 

Casa onde existiu o tribunal em que Camilo foi julgado e absolvido pela sua ligação com Ana Plácido, numa tarde de tal tempestade que o povo dizia que “era Deus que não queria a sua condenação”. Fica na Praça Filipa de Lencastre, esquina com a Rua da Picaria.
 

 
Rua do Almada acima da Rua do Alferes Malheiro
 
 
Capela do Divino Coração de Jesus, mais conhecida por Capela dos Pestanas, construída entre 1878 e 1888 e desenhada pelo Arqº. José de Macedo Araújo Junior. É a única capela neo-gótica da cidade –  Imagem de S. José pelo escultor Soares dos Reis, que se encontra na fachada.
 
 
Palacete dos Pestanas – Construída no séc. XIX pela família Pestana da Silva, tinha o maior jardim particular do Porto, excepto o do Palácio de Cristal. Hoje está ocupado por vários prédios, sendo um deles a sede de uma companhia de Seguros proprietária do palacete.

 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

BAIRROS DA CIDADE - VIII

  
2.3.2 Bairro da Victória - II


Alçado existente em O Porto no Época dos Almadas de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves.

O Arquitecto Teodoro de Sousa Maldonado trabalhou para a Junta das Obras Públicas entre 1789 e 1792. Dada a sua competência foi nomeado o primeiro arquitecto da cidade em 1792. Desenhou e executou várias importantes obras, dentre as quais destacamos: a Rua de Santo António, a Calçada dos Clérigos e a Rua da Boavista. Além de arquitecto, era um excelente desenhador a quem se deve a magnífica vista do Porto inserida na primeira edição do livro de A.R.C. Faleceu em 1799.


Porto, da Torre da Marca ao Recolhimento dos Órfãos
Gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, 1789 -
Esta é a primeira gravura do Porto em que se vê a Torre dos Clérigos.


Armas da Cidade inseridas na gravura acima. Nossa Senhora de Vandoma rodeada por duas torres e a legenda “Civitas Virginis”

A Rua dos Clérigos começou por chamar-se Calçada do Correio-mor, depois Calçada da Fonte da Arca, Calçada da Natividade e por fim Calçada e Rua dos Clérigos. O Correio-Mor encontrava-se, no séc. XVII, na actual Rua do Conde de Vizela, antes Rua do Correio. A Fonte da Arca, na parte Sul/Poente da Praça da Liberdade, mais tarde Fonte da Natividade após as obras em que nela foi colocado um nicho com a imagem de Nossa Senhora da Natividade (ver Fonte da Arca e da Natividade quando tratarmos das fontes do Porto).

“A calçada dos Clérigos desce com bastante declive desde a frontaria do templo até á praça de D Pedro. Prestando-se, pela sua muita largura a ser guarnecida de arvoredo, mandou a câmara municipal modernamente plantar dois renques de arvores um de cada lado junto aos passeios. Quando o sr. Seabra tirou a photographia de que é cópia a nossa gravura, ainda não existiam alli as arvores, e era macadamisada. Actualmente está calçada com pedras cúbicas, todas de eguaes dimensões. É a calçada dos Clérigos um dos sítios mais concorridos do Porto. Deve esta vantagem a diversas circunstâncias taes como: a sua visinhança de parte do principal mercado público, e da outra, da praça de D. Pedro, e de outras ruas onde o movimento commercial é mais activo; as lojas de variados objectos que a guarnecem; e a ser a mais bela communicação da cidade baixa para a alta. O mercado do Anjo, assim chamado por ter sido edificado no logar dantes ocupado pelo recolhimento d'aquella denominação, fica ao norte da egreja dos Clérigos, apenas separado d'ella por uma rua. As lojas referidas encerram, no maior número, fazendas de seda, lã, linho e algodão, e muita diversidade de objectos de moda, porcelanas, cristaes, bronzes etc. Nenhuma se faz notar pela elegancia da armação, nem pela bonita disposição dos productos, mas algumas são notaveis pela muita cópia, e mesmo pela riqueza d'estes últimos.” I de Vilhena Barbosa in Archivo Pittoresco, Ano de 1864 -  Do Blog Porto Antigo
Em 1766 foi feito o rebaixamento e calceteamento da Calçada da Natividade, hoje Rua dos Clérigos.


Rua Arquitecto Nicolau Nazoni, antiga Travessa dos Clérigos – foto de Francisco Oliveira

A muralha Fernandina passava pelo local onde estão construídas as casas do lado Sul da Rua dos Clérigos. “As demolições (desta parte da muralha) começariam a partir de 1787. Nesse ano, o Presidente da Junta pediria para Lisboa a autorização necessária para ser apeada a muralha do “lado meridional” da Rua dos Clérigos, não só porque ameaçava ruína, mas também porque permitiria o seu alinhamento… O derrube da muralha do lado Sul da Rua dos Clérigos, permitiria, para além do alinhamento referido, abrir uma rua que faria a comunicação entre aquela rua a a chamada Rua de Trás (actual Rua do Arquitecto Nicolau Nazoni). A raínha autorizou os proprietários possuidores de casas encostadas à muralha, ou a ela contíguas que pudessem “adianta-las e crescer com ellas até o alinhamento regular da referida rua; sujeitamdo-se eles a fazer as frentes que para ela ficarem segundo o prospecto, e plano aprovado e posto em execução nas outras propriedades situadas na mesma rua”. A área demolida não se confinaria só ao lado sul da Rua dos Clérigos. Foi autorizado o apeamento da muralha desde a Porta dos Carros (em frente à Igreja dos Congregados) até à Igreja dos Clérigos." In O Porto na Época dos Almadas de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves



Fotografia que, pessoalmente, muito me diz. Vê-se a Rua dos Clérigos, em 1908, engalanada esperando a passagem do Rei D. Manuel II que acabava de chegar ao Porto em visita oficial. À direita vemos a casa Á Noiva onde em 1893, com 12 anos, o meu avô paterno, Francisco da Silva Cunha, entrou como moço de recados, ao tempo chamado marçano, e onde foi desempenhando de forma brilhante a sua profissão. Ascendeu a empregado de balcão, pondo gravata como era de tradição, e mais tarde a gerente da loja. Nesse tempo os empregados viviam na própria casa dos patrões, habitualmente no último andar onde se encontrava a cozinha e os quartos das criadas e dos empregados. Tendo-se apaixonado pela Menina Luisa, filha do Sr. Alves, o patrão, decidiu sair e lançar a sua própria casa de retalho em 1903. Deu conhecimento disso ao Sr. Alves, que aceitou e apoiou, pois via no seu gerente um homem sério e trabalhador. Foi assim que, em 1903, fundou no nº. 54 o ESPELHO DA MODA. Prometeu ao Sr. Alves que, assim que lhe apresentasse dois balanços com lucros suficientes para manter a sua casa, lhe iria pedir a mão da menina Luisa. Em 1905 casou com a minha avó, vindo a ter 3 filhos. Por alturas desta fotografia o ESPELHO DA MODA tinha 5 anos e não é visível por se encontrar tapado pelo eléctrico.
Uma curiosidade é verificar-se que nesse tempo, à inglesa, ainda se circulava pela esquerda, e só em 1928 o novo código mudou para o sistema continental de circulação pela direita.


Espelho da Moda - fachada inicial de 1903


Fachada de 1928 a 1945
Publicidade dos anos 30 e 40 do séc. XX

Espelho da Moda e Rua dos Clérigos engalanada no Natal - a nova fachada foi inaugurada em 8/12/1945 - projecto e decoração do Arquitecto Amoroso Lopes. 


Montra de 1945

Comemoração dos 75  anos - 1978

Nos anos 60 foi inaugurada um boutique no primeiro andar

Muitas e interessantes histórias teria para contar sobre o que foi a actividade do meu avô Francisco desde 1903 a 1954, quando se retirou do Espelho da Moda, passando os seus últimos anos entretido a comprar, vender e trocar selos. Filatelista desde rapaz, ganhou várias medalhas de ouro em exposições nacionais e internacionais. Por esta casa passaram três gerações dedicadas ao desenvolvimento da firma F. da Silva Cunha & Filhos. Chegou a ser a casa mais antiga do Porto do ramo de malhas e meias, tendo em 1918 introduzido na cidade as meias de seda natural, produto importado e muito caro.
Pelo menos desde o princípio do séc. XX e até aos anos 50 as casas comerciais do lado esquerdo, quem sobe, da Rua dos Clérigos eram os chamados fanqueiros ou carapuceiros. Vendiam fazendas, xailes, lenços de cabeça, carapuços e outros artigos usados para o público dos arredores do Porto e criados ou criadas e empregados de comércio. Do lado direito perdominávam as lojas de moda, camisarias, miudezas, que vendiam artigos mais caros. Recordamo-nos muito bem desta diferença de expor e de técnica de venda.
O comerciante do Porto era muito cioso da sua reputação na “praça” e na continuidade do seu negócio. Havia pais não autorizavam os filhos a ir estudar para Coimbra com receio que seguissem outra profissão e a sua casa não tivesse continuidade. E, muitas vezes, aqueles que tiravam uma formatura, regressavam ao estabelecimento do pai. Pelo menos um dos filhos deveria manter a tradição da família.