sexta-feira, 8 de junho de 2012

LIMITES DA CIDADE - IV


2.2.6 – Limite Sul


Pormenor do mapa de Telles Ferreira - 1892

A cidade do Porto incluiu até 1834 a parte de Vila Nova de Gaia que vai até à R. do Marquês de Sá da Bandeira e Largo dos Aviadores, incluindo a Serra do Pilar. Durante o cerco do Porto os Miguelistas tentaram tomar o reduto da Serra do Pilar, mas os chamados “Polacos”, sob o comando de Bernardo Sá Nogueira não o permitiram, defendendo-o energicamente. Este, depois feito Marquês de Sá da Bandeira, foi ferido no baço direito na batalha que decorreu no Alto da Bandeira ( actual Largo dos Aviadores) . Levado para o Hospital militar, sedeado no palacete da família Guedes da Aveleda na Batalha, foi-lho amputado e enterrado junto de uma árvore do jardim. Os valentes soldados que resistiram foram chamados de “Polacos” em honra dos que heroicamente defenderam Varsóvia na guerra contra os Russos.



Bernardo de Sá Nogueira, Marquês de Sá da Bandeira – 1795-1876



Convento Serra do Pilar – gravura de J. Holland – 1838



                    Mosteiro da Serra do Pilar – em 1º. Plano a Muralha Fernandina

O primitivo convento foi construído no então chamado Monte de S. Nicolau ou Meijoeira, para substituir o de Grijó que estava muito velho e arruinado. Foi autorizada a construção do mosteiro, em 1537, por D. João III no tempo do Bispo do Porto D. Frei Baltazar Limpo. A actual igreja começou a construir-se em 1598, e foi inaugurada em 1602, conforme data escrita no claustro.

Curiosidade: pelo que já lemos há anos, para a construção da cúpula da Igreja da Serra do Pilar foram utilizados altos troncos para a escorar. Assim que terminada, as autoridades tiveram receio que a mesma se desmoronasse se os troncos fossem retirados. Desta forma a Igreja não foi utilizada durante dezenas de anos. Com o tempo os troncos, apodrecidos, caíram, mas a cúpula manteve-se segura. Será lenda?




Monumento em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral

O Alto da Bandeira situava-se no local que hoje se chama de Largo dos Aviadores, em honra de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Estes realizaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Saídos em 30/3/1922 só chegaram ao Rio em 17/6/1922. Tiveram grandes problemas técnicos e o primeiro avião afundou-se numa amaragem. Tendo o navio Carvalho Araújo levado um segundo avião, os aviadores conseguiram concluir a Viagem.


Adenda à publicação de Domingo 3 de Junho – LIMITES DA CIDADE – III

Já depois de feita esta publicação,sobre a Igreja da Lapa, encontrámos um interessantíssimo artigo de Horácio Marçal, em O Tripeiro Série VI, Ano I que contem alguns pormenores que a enriquecem: “Serviço permanente de confissões (as noturnas para os que evitavam ser conhecidos) devia manter a capela; por tal razão construiu-se junto dela um hospício (destinado à habitação dos padres confessores), em cuja roda se depositavam os objectos roubados para serem restituídos a seus donos. Eis o que motivou a invocação da capela, a da Nossa Senhora da Lapa das Confissões.
Breve se reuniram alguns devotos com o projecto de formarem uma irmandade, a qual foi aprovada por Benedicto XIV, em bula de 29/7/1755”.




“As pedreiras ali existentes faziam parte do chamado monte da Lapa, no cimo do qual, como adiante diremos funcionou um telegrafo – o Telegrafo da Lapa – e o terreno destinado a uma praça e espraiado para passeio e desafogo e retiro do público, converteu-se numa frondosa e frequentada alameda, que não obstante ter sido logradouro público, veio a servir para nela se edificar o actual Hospital da Lapa, cujo terreno, pertencente à Câmara, só em 1925 por um preço convidativo, veio a ser adquirido pela respectiva irmandade”




Fonte de Salgueiros ou da Lapa


“Para a formação deste jardim, (no quartel de Infantaria 18) foi necessário destruir uma fonte que havia junto do portão do dito quartel, que ficava num sítio fundeiro e para o qual se descia por uma rampa, e construir uma outra fonte em sua substituição, na embocadura da rua de Salgueiros, para onde as águas, como é obvio, tiveram de ser desviadas. Data, pois, a construção da actual Fonte de Salgueiros, que está por baixo e encostada ao muro do jardim da Ordem da Lapa, do ano de 1818.”




domingo, 3 de junho de 2012

LIMITES DA CIDADE - III


2.2.5 Limite Norte - Lapa

O Culto a Nossa Senhora da Lapa vem desde 1498. Ao subir a serra da Lapa encontramos um dos mais antigos e famosos santuários portugueses, que atrai peregrinos de todo o país. A capela inicial de Nossa Senhora da Lapa foi construída pelo povo logo após a aparição da imagem. Mas o culto é muito anterior, havendo quem o remeta para o século X, quando as investidas dos mouros fizeram com que a população cristã tenha escondido uma imagem da Virgem numa gruta ou "lapa" na Serra do mesmo nome, diocese de Lamego.

You Tube – Santuário de Nossa Senhora da Lapa
http://www.youtube.com/watch?v=7EFEjlCC-xY



Capela do Santuário e capela original na rocha


Imagem no Santuário e penedos estreitos - diz a lenda que só passam entre estes dois penedos quem não tiver pecados mortais!


Antiga cadeia – o actual Reitor da Lapa, Rev. Padre José Amorim, transformou este caduco edifício numa esplêndida hospedaria onde recebe sacerdotes que necessitam de descanço.


Antigo colégio dos Jesuitas. A primeira pedra foi lançada em 28/6/1685 e a construção demorou algumas dezenas de anos. Estava muito arruinado e foi transformado em  centro de acolhimento dos peregrinos e casa de retiros, pelo actual Reitor.


“Capela oriunda da freguesia de Quintela, foi doada por um habitante da região e mais tarde transferida pedra a pedra para a Lapa, onde actualmente, nos dias de maior afluência de peregrinos, nomeadamente nos dias de romaria, serve para a celebração de uma missa campal, pois com a enorme afluência de devotos o Santuário torna-se pequeno.” site de Sernancelhe.



O povo costumava, em momentos de grande aflição, fazer promessas a Cristo, Nossa Senhora ou Santos da sua devoção. Entre os diversos tipos de promessas contava-se a representação, num quadro, a graça recebida. São inúmeros os ex-votos encontrados por todo o país e o mesmo acontece no Santuário de Nossa Senhora da Lapa. O da direita recorda o “Milagre que fez nª. Sª da lapa a João Ribeiro Santo Sisto Junior que lebou uma facada e a senhora lhe deu saúde”.

O culto de Nossa Senhora da Lapa no Porto



A Irmandade de Nossa Senhora da Lapa foi instituída em 1755 pelo Papa Bento XIV




Para o Porto a devoção foi trazida do Brasil pelo Padre Ângelo de Sequeira, nos meados do séc. XVIII. Em 1755 foi construída uma pequena capela, no cimo do monte de Germalde, cuja frontaria se encontra nas traseiras da actual igreja, virada a nascente. Os capelães dedicavam-se ao Sacramento da Confissão, pelo que veio a chamar-se Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e Confissões. Confessavam pessoas de todos os estratos sociais que não queriam ser vistas. Daí haver um contínuo turno de confissões, inclusive durante a noite. Iam lá também ladrões e malfeitores, que por vezes devolviam os bens roubados. Em 1756 iniciou-se a actual Igreja que só foi concluída em 1863.


Capela da Lapa ao abandono




Este colégio foi frequentado por alunos que se vieram a distinguir nas letras e ciências, tais como Eça de Queiroz e Ricardo Jorge. O filho do director era José Ramalho Ortigão que mais tarde foi lá professor e director.
A zona da escola para os meninos foi anteriormente a primeira Capela de Nossa Senhora da Lapa e das Confissões, desactivada quando foi construída a nova Igreja.




Altar Mor – foto do blog Inbikta



Foi a 8 de Julho de 1832 e D. Pedro IV entrou no Porto em 9. Autor Roque Gameiro



        Foto de José Pedro Durão

You Tube - Video sobre o coração de D. Pedro IV
http://www.youtube.com/watch?v=iDekl8nHLB4&feature=related

Em O Tripeiro, Série VII, Ano XVIII, nº. 7-8, o Senhor Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva escreve: “ O Rei-Soldado, pouco depois de levantado o sítio e da victória definitiva do Liberalismo, faleceu precocemente no Palácio de Queluz, às duas horas e meia da tarde do dia 24 de Setembro de 1834. Na véspera do triste apagamento, dia 23 pelas quatro horas da manhã, sentindo-se desfalecer, dirigiu-se aos brasileiros, manifestando-lhes a sua dedicação e aproveitando para ditar algumas últimas vontades. Entre elas, destaca-se a de deixar o seu” coração à heróica cidade do Porto, theatro da minha verdadeira glória…””.


  
Órgão de tubos romântico, construído por Georg Jann, em 1995. No dia da sua inauguração, Maio de 1995, foi tocada a obra de Widor (1834-1937) que este compôs e executou na inauguração do orgão do Palácio de Cristal em 1865.

You Tube – Video sobre Igreja da Lapa



“O hábito de utilizar o interior das igrejas como cemitério vem quase desde o início do Cristianismo, apesar de ter sido muitas vezes considerado abusivo, uma vez que implicava o enterramento de pecadores lado a lado com relíquias de santos. Porém, a Igreja Católica nunca conseguiu evitar esse facto. Só raramente os mortos eram sepultados longe das igrejas: aquando de grandes mortandades e no caso de falecidos fora do catolicismo. A pressão demográfica e as questões higiénicas, num contexto ideológico Iluminista, foram os principais factores que fizeram com que, a partir do século XVIII, algumas vozes se levantassem contra as inumações no interior das igrejas. Em Portugal, as primeiras tentativas legislativas no sentido de acabar com os enterramentos nas igrejas não deram resultados, muito porque o processo de laicização da sociedade portuguesa estava bastante retardado em relação a outros países europeus. Assim, foi necessário que muita tinta corresse até que os cemitérios públicos portugueses fossem oficialmente criados, em 1835. Porém, existiram experiências anteriores e o Porto, como em quase tudo nessa época, foi pioneiro na criação de cemitérios fora das igrejas. 

Em 1833, o Cerco do Porto gerou uma situação extremamente difícil de salubridade na cidade e favoreceu o surgimento duma epidemia muito mortífera: o cholera morbus. Esta rapidamente lotou os locais de enterramento, facto agravado pelos soldados que iam morrendo nas investidas dos Miguelistas. Perante este cenário, foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem sequer estavam totalmente construídas (como a da Trindade) e aos terrenos anexos de outras, para sepultar tantos cadáveres. Nesse ano, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo. A Mesa poderia ter em mente um mero terreno anexo temporário para sepulturas. Mas todo o processo de construção do posterior Cemitério da Lapa parece mostrar que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério "ao moderno". Ou seja, convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para a construção de monumentos, tal como se fazia já há algumas décadas em Paris, cidade modelo para quase tudo na época. Por isso, o Cemitério da Lapa é considerado o cemitério "moderno" mais antigo do Porto, mesmo não sendo público, até porque foi criado antes do decreto de 1835. Contudo, como situação de transição, foi necessário estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da respectiva igreja. O Cemitério da Lapa propriamente dito só foi oficialmente benzido no Verão de 1838, tendo os primeiros monumentos surgido em 1839". Site da C.M.P. 
Neste cemitério estão sepultadas algumas das figuras mais destacadas da nossa cidade tais como: Camilo, Arnaldo Gama, Soares de Passos, Silva Porto, Alves da Veiga, Raul de Caldevilla e Heitor Campos Monteiro. Estiveram durante uns anos os restos mortais da infeliz Fanny Owen que depois de raptada por José Augusto Pinto de Magalhães, e com ele ter casado em 5/9/1853, morreu tuberculosa após um trágico romance amoroso. Ele também morreu no mesmo ano.


Em 1800 a Junta das Obras Públicas ofereceu à Irmandade da Lapa um terreno com a condição de se conservar exclusivamente ao uso do público, sem qualquer construção. Foi criada uma bela alameda muito conhecida por se realizar aí a célebre festa do S. João da Lapa, a que já nos referimos. 



A irmandade decidiu construir, na referida alameda, um hospital. Para tal a D. Luzia Joaquina Bruce contribuiu com dinheiro e acções no valor total de duzentos contos de reis. Assim, em 18/8/1902 foi lançada a primeira pedra pelo bispo D. António Barroso. O autor do projecto foi o Arq. Joaquim Augusto Pinto Basto. Ainda por concluir foi inaugurado em 28/9/1904. Por dificuldades financeiras este hospital não pode ser concluído de uma só vez. Em 16/11/1948 faleceu a Snª. Condessa de Santiago de Lobão, tendo deixado parte dos seus bens à Irmandade. Com estes valores pôde finalmente terminar-se o hospital nos anos 50 do século XX.


Capela do Senhor do Socorro, antigamente chamada do “Senhor do Olho Vivo” - foto de J. Portojo


O Dr. Eugénio Andrea da Cunha Freitas em seu livro Toponímia Portuense escreve que “A capela do Senhor do Olho Vivo já existia junto do padrão velho de Santo Ovídio em 1755, quando se começou a edificar a Igreja da Lapa. Sob o altar desta capela está ou esteve um cruzeiro datado de 1622 com as imágens de Cristo e de Santiago que dizem ter sido levantado por peregrinos indo a Compostela. Seria talvez o referido padrão velho de Santo Ovídio. Segundo a tradição, recolhida pelo nosso bom amigo Horácio Marçal, a curiosa denominação do Senhor do Olho Vivo derivava de se recomendar aos caminhantes que tivessem “olho vivo”, para se defenderem dos ladrões que se acoitavam nas trazeiras da capela, nesse lugar então solitário. O falecido Engº. Monteiro de Andrade atribuia ao topónimo outra origem: “existia aqui uma casa onde esteve instalado um telégrafo óptico, por tal motivo chamavam-lhe sugestivamente o lugar do”olho vivo”. No princípio do nosso século (XX) passou a denominar-se Capela do Senhor do Socorro”.

sábado, 26 de maio de 2012

LIMITES DA CIDADE - II




2.2.4 - Limite Ocidental em 1788


 Em 1788 o limite ocidental da cidade ficava no Bicalho, hoje Alameda Basílio Teles. Eugénio Andrea da Cunha Freitas na sua Toponímia Potuense escreve : “ Por 1875, escrevendo da Freguesia de Massarelos, dizia Pinho Leal no seu “”Portugal antigo e Moderno: há aqui um terreiro, à margem do rio, com uma alameda formada de árvores seculares, e próximo dela a bonita residência do Sr. Barão de Massarelos, tendo em frente a óptima fábrica de fundição de ferro do mesmo nome, que é de uma companhia””. Era a Alameda de Massarelos, hoje de Basílio Teles, uma das obras de que a cidade ficou devedora ao grande corregedor Almada. Neste local existiam, no século XIII, umas salinas, acerca das quais se travaram grandes demandas entre a coroa e a Colegiada de Cedofeita ( a que Massarelos pertencia), e depois entre esta e os bispos. Opuseram-se estes à execução da sentença de D. Dinis, de 7 de Julho de 1280, que mandava não ambargar aos cónegos, pelos Oficiais de El-Rei, a extracção do sal destas Marinhas para os do couto de Cedofeita… Basílio Teles nascido nesta freguesia de Massarelos em 1856, foi, como é sabido, um ilustre escritor e político republicano”.



Cais do Bicalho


Foto de autor desconhecido - da esquerda para a direita encontram-se os lugres “Infante de Sagres III”, “Paços de Brandão”, “Ana Maria”, “Senhora da Saúde” e “Aviz” – blog Navios e Navegadores

 Recordámo-nos muito bem dos bacalhoeiros fundeados no Cais do Bicalho. Era notícia de jornal quando saíam e regressavam da pesca do bacalhau, na Terra Nova. Por vezes liam-se notícias de que algum se tinha afundado e desaparecido pescadores. Devia ser uma profissão duríssima e perigosa!

Pode um navio contar a história da pesca do bacalhau?

Lemos uma interessantíssima história no blog Navios à Vista que, embora um pouco longa, vale a
pena ler:


“De regresso dos Bancos da Terra Nova, de onde zarpara precisamente haviam 15 dias com carregamento completo de bacalhau, e após uma singradura sem qualquer novidade, com bom tempo e vento de feição, entrou a 27/08/1951, cerca do meio-dia, no rio Douro, amarrando depois à lingueta do Bicalho, Massarelos, o puro lugre á vela de 3 mastros ANA MARIA, comandado pelo capitão José Gonçalves da Silva, de Ílhavo, e propriedade dos armadores Veloso Pinheiro & Cia., Lda., sedeados na praça do Porto. A bordo vinham 14 dos náufragos – um dos quais clandestino, de 14 anos há poucos dias feitos! - do também puro lugre à vela de 3 mastros PAÇOS DE BRANDÃO, pertencente ao mesmo armador do ANA MARIA, que no passado, dia 3, conforme fora noticiado, se afundara na Terra Nova, quando andava na rude faina da pesca… Um total de 13 elementos da companha do PAÇOS DE BRANDÃO, que era composta de 32 tripulantes, incluindo o capitão. Faltando portanto ainda 19 homens, que vieram a bordo do JULIA 1º, onde foram recolhidos, e que se destinava a Lisboa, seu porto de armamento. Juntamente com os 13 náufragos então, chegados, veio também um rapaz – um autêntico "lobo do mar" em embrião – chamava-se ele Adriano Neves da Silva, de 14 anos – feitos em 1 de Maio – e é um dos 9 filhos de Júlio de Sousa e de Iva de Jesus Neves, que lá estavam, á chegada do navio, na lingueta, presos de emoção, para receberem o filho pródigo… O pequeno, claro, entregue à autoridade competente, a PIDE, que iria resolver o seu caso de harmonia com as leis, não seguiu para sua casa, localizada ali numa rua junto do seu navio – mas agora já em terra firme, para sua tranquilidade. Nas instalações da PIDE fora interrogado se alguém o teria aliciado a embarcar clandestinamente no PAÇOS DE BRANDÃO, como não houvesse nada de interesse foi mandado em paz, e nem poderia ser de outra maneira. O Adriano, que era de Massarelos, ali mesmo à borda de água, foi recebido como um "herói" pelos seus amigos e companheiros de escola e traquinices. Recepção triunfal! E ele – ao que nos garantiram, regressado muito mais homem, tanto no porte, como no físico – contou ao jornalista a sua odisseia: Desde pequeno que ali, à beira-rio, onde brincava, assistia às partidas, e chegadas dos navios bacalhoeiros. E gostava "daquilo"! À noite, sonhava com o mar, vendo-se a comandar grandes navios!... E foi assim, a pouco e pouco, que no seu espírito se foi criando a iniciativa de embarcar clandestinamente – para a aventura… Traçou os seus planos com todo o cuidado – e como alvo escolheu o PAÇOS DE BRANDÃO, que estava ali mais à terra, por bombordo do ANA MARIA. Então, na barafunda das despedidas foi muito sorrateiro (tão franzino era então que o pode fazer!) alojando-se numa "loca", uma espécie de pequeno armário à proa do lugre, onde se guardava carvão. Só após alguns dias de viagem deram com ele – quase desfalecido por causa do enjoo. "Está aqui um gato!" – foi a primeira exclamação do tripulante que o encontrou. Mas não era… Gaiato sempre pronto para todos os serviços por mais duros que eles fossem: O pequeno Adriano, sempre disponível a ajudar, em pouco tempo ganhou a simpatia de cada um dos tripulantes do PAÇOS DE BRANDÃO. E assim foi indo, até que deu uma queda da verga da vela do traquete, fracturando um braço. Mas não chorou! Deixou-se tratar como um homem – ou melhor como nem todos os homens! E, curou-se, até que novamente ele pôs bem à prova a sua coragem e a sua valentia de autentico "lobo do mar". Foi quando do naufrágio do PAÇOS DE BRANDÃO. Quis ser dos últimos a abandonar o seu navio e ajudou um pescador que estava em risco de vida a abandonar o navio sinistrado, já sob violento incêndio – e só chorou (também à maneira dos marinheiros), quando o viu afundar-se!... Depois recolhido pelo ANA MARIA, foi entregue, de harmonia com as leis marítimas, ao capitão do porto, nos Mares da Terra Nova e Groenlândia, a bordo do GIL EANES, comandante Tavares de Almeida. Já então as suas façanhas se haviam tornado conhecidas, e o Adriano breve conquistava as simpatias da equipagem do famoso navio de apoio à frota. Seguindo nele desembarcou no porto Canadiano de Sidney, onde ao conhecer-se a sua aventura, o envolveram em exuberantes manifestações de carinho. Vestiram-no, deram-lhe muitos brinquedos e não faltavam famílias que queriam tomar conta dele! Mas outro teria de ser o destino do Adriano, que foi depois embarcado no lugre ANA MARIA, que acabara de chegar, tendo sido apresentado às autoridades marítimas, que por certo, e se tal tivesse sido possível, não o deixariam de matricular na Escola dos Pescadores, o que não se concretizou. Simpático, de modos resolutos, forte (bem diferente do que era antes da sua aventura) o Adriano Neves da Silva, envergando a indumentária característica do pescador, parecia um "velho lobo do mar", ao lado de uma das irmãs e entre o pai e a mãe, que carinhosamente, e com as lágrimas nos olhos queria ver o braço partido do seu menino. O jornalista falando com alguns dos náufragos, todos foram unânime em afirmar que o Adriano fora um verdadeiro marinheiro, que soube enfrentar a odisseia por si vivida, sobretudo na ocasião do temporal que os apanhou quando se encontravam ancorados no pesqueiro denominado "Virgin Rocks". Foi um ciclone tremendo! Perdemos tudo, incluindo as roupas que vinham em 6 dóris que se voltaram. Valera-lhes a rapidez dos socorros prestados pelos lugres ANA MARIA, MARIA FREDERICO, JÚLIA 1º, CRUZ DE MALTA e SÃO JACINTO. Uma hora mais tarde, e não haveria possibilidade para chegarmos a bordo de qualquer deles. Estaríamos irremediavelmente perdidos – afirmaram. No momento do naufrágio, o PAÇOS DE BRANDÃO tinha já 3.200 quintais de bacalhau – ou seja o carregamento quase completo… Não haja dúvida, que aqueles dois belíssimos lugres de madeira, "os meninos bonitos da praça do Porto", amarrados ali em Massarelos, no quadro dos navios bacalhoeiros, tão pertinho da margem, e ainda para mais navios à vela, e na altura da largada de ambos no mesmo dia, um atrás do outro, de velas enfunadas pela nortada fresca, rumando directamente aos pesqueiros do Noroeste do Atlântico, sem estarem presentes na cerimónia religiosa da Benção dos Bacalhoeiros, que todos os anos se realizava no estuário do Tejo, por Abril ou Maio, frente a Belém, onde marcavam presença os seus companheiros de hibernação no rio Douro, BISSAYA BARRETO (1), COMANDANTE TENREIRO (1), INFANTE DE SAGRES TERCEIRO, AVIZ, CONDESTÁVEL, SENHORA DA SAÚDE, COIMBRA, SÃO JACINTO e o SENHORA DO MAR, seduziam o rapazio ribeirinho, e eu que o diga, a tentar a aventura, como consta que em tempos recuados já ocorrera, pois sempre era uma ajudinha para o cozinheiro de bordo.

 Fontes: Jornal de Noticias Rui Amaro”


 Entreposto frigorífico do Peixe – 1934-39 – Arqtº. Januário Godinho
Aqui estava a lota do peixe e os frigoríficos


Museu do carro eléctrico - 1992


 O Americano

  
Acendendo um lampião a gás


Fundição de Massarelos  - desenho de F. Lopes



O Mercado Ferreira Borges foi construído pela Fundição de Massarelos – foto de André Pregitzer – Porto Património Cultural da Humanidade de Manuel Dias


Fontanário feito nesta fundição








sábado, 19 de maio de 2012

LIMITES DA CIDADE - I


EXPANSÃO DA CIDADE



Planta do Couto Episcopal – Rogério de Azevedo –in História do Porto- dirigida por Luis Oliveira Ramos – A, Couto de Cedofeita – ao centro junto do rio, Reguengo – B, Couto da Sé (D. Teresa) – C, Couto da Sé (ampliação de D. Afonso Henriques) -
 A Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura refere que “ D. Dinis, na carta régia com que este coutou a seu irmão D. Afonso a Póvoa de Salvador Aires: “”coutar huma terra he escusar os seus moradores de HOSTE e de FOSSADO, e de FORO, e de toda a PEITA.”Na História do Porto, coordenada pelo Dr. Oliveira Ramos, podemos ler:    “ Em 1113 ou mais provavelmente em 1114, o Porto-sede-episcopal é restaurado por D. Hugo… Com este evento inauguram-se os tempos medievais da cidade. Para trás são as origens. Em 1120, por iniciativa da rainha D. Teresa, é concedido ou confirmado a esse bispo um vasto território, que será couto dele e dos sucessores.” - Pelo mapa acima podemos limitar o couto inicial: do Canal Maior (Rio da Vila) até Rio Tinto e do Douro à Arca d’Água. D. Afonso Henriques estendeu-o até Contumil, Asprela, Monte dos Burgos e Carvalhido.


Termo do Porto concedido por D. Fernando I em 1369 – in História do Porto – dirigida por Luis Oliveira Ramos - “o ano de 1369 marcou a arrancada do termo do concelho portuense de minúsculo para gigante…Pelo rei D. Fernando. Quer dizer: desde o Douro ao Ave e do mar ao Tâmega quase todos os julgados ficaram sob jurisdição do município do Porto. Para o quadro ficar completo só faltou Gaia e Vila Nova. De uma assentada entram na dependência da cidade nada menos do que 181 freguesias… Em 12 e13 de Abril de 1384, por decisão de D. João I, que ainda era Mestre de Avis, Regedor e Defensor do Reino” completou-se o alargamento do Termo com a inclusão de Gaia e Vila Nova


Vias medievais do Termo do Porto – in História do Porto – dirigida por Luis Oliveira Ramos

FREGUESIAS DA CIDADE



Censos 2011 - PORTO



  1838      1864        1878         1890         1900        1911        1920
59.370    86.751    105.838    146.739    167.955    194.009    203.091

  1930          1950          1960          1970          1981         1991         2001
232.280     281.406     303.424     306.176     327.368     302.472     262.928

   2011
237.584
Desde 1981 que o Porto perdeu 100.000 habitantes. Pelo contrário a Zona Metropolitana – Gaia, Matosinhos, Maia, Gondomar, Valongo etc. – cresceram cerca de 90.000.
2.2.3 – Limites em 1788

                                         ao Sul.”


2.2- LIMITES DA CIDADE EM 1788

Campanhã já era habitada na Pré-História. O seu nome é derivado do latim. Sendo terra muito fértil a sua população era  constituída por camponeses. As memórias Paroquias de 1758 referem também os pescadores e os moleiros. No séc. XVIII surgem quintas de famílias burguesas do Porto, tais como as do Freixo, de Bonjóia, da Revolta, de Furamontes e de Vila Meã. No séc. XIX, após a destruição provocada pelas invasões francesas e o cerco do Porto, iniciou-se um rápido aumento da sua estrutura industrial.



Igreja Paroquial de Campanhã – 1714


Inaugurada em 20 deMaio de 1875 como início da linha do Minho até Braga - Em 1877 a Linha do Norte chegou à estação de Campanhã – foto de Emílio Biel


Rua Pinto Bessa – há mais de cem anos

Francisco Pinto Bessa nasceu em Lordelo do Ouro em 1821 e morreu no Porto em 1878. Ainda jovem emigrou para o Brasil, onde fez fortuna. Regressado ao Porto aplicou todo o seu dinamismo em favor da cidade e do país. Foi um dos sócios fundadores mais influentes do Palácio de Cristal, acompanhado por Alfredo Allen, 1º visconde de Villar d' Allen, e do Dr. António Ferreira Braga. Foi eleito vereador da C.M.P. em 1866 e seu Presidente em 1867, por falecimento do Conde de Lagoaça. Exerceu este cargo até ao dia do seu falecimento, em 4 de Maio de 1878. Durante o seu mandato foram abertas a Rua Nova da Alfândega, a Rua de Sá da Bandeira, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rotunda da Boavista e inaugurada a Ponte Maria Pia. Conseguiu que a Biblioteca Pública passasse da tutela do Estado para a Câmara. Fez uma profunda alteração ao cemitério de Agramonte, onde está o seu mausoléu. Foi membro do Parlamento de1868 até à sua morte.

Busto de Francisco Pinto Bessa do escultor Soares dos Reis



Palácio do Freixo - foto de Carlos Silva


Lavradores de Campanhã


Campanhã - Mapa de Telles Ferreira - 1892