segunda-feira, 3 de agosto de 2015

GOVERNO POLÍTICO - IX

5 . 4 - Governo Político - IX

O racionamento nos anos 40 e 50




Alguns dos nossos leitores ainda se lembrarão do racionamento decretado durante a II Guerra Mundial. A falta de víveres e outros produtos essenciais, e o enorme açambarcamento feito por produtores e armazenistas levou o governo a decretá-lo. 


Nessa época a chamada classe média era constituída essencialmente por empregados de comércio, de serviços e operários especializados cujo rendimento era bastante baixo. Qualquer comparação com o que hoje chamamos “classe média” é pura fantasia. Mesmo em tempos de crise, hoje, esta franja não passa fome. Tem alguns bens, disfruta de certo conforto no seu lar, tem, frequentemente, um automóvel… 
Nos anos 40 e 50 do século passado a fome e o desconforto era o dia-a-dia das famílias não consideradas pobres. 
Esta opinião é baseada no nosso contacto directo com a sociedade desse tempo e facilmente comprovada pelas muitas fotografias dessa época. 
Qualquer trabalhador, mesmo de categoria média/superior, tinha que apertar muito as suas despesas devido ao baixo orçamento mensal. Recordámo-nos que muitos dos nossos conhecidos ou levavam de casa o almoço, cozinhado de madrugada ou de véspera, ou o lanche porque não podia dar-se ao luxo de ir, frequentemente, a um restaurante ou café.


Fila para a obtenção das senhas de racionamento - Rua da Escola Normal - Dezembro de 1942 - era muito comum verem-se grandes filas para levantar as senhas das respectivas famílias, esperando horas e horas a sua vez. Muitos deles eram crianças, pois os pais encontravam-se no trabalho e as encarregavam desta obrigação.
O racionamento atingia todas as classes, embora os mais ricos conseguissem comprar, no mercado negro e a preços exorbitantes, aquilo de que sentia falta.


Fila para a compra de produtos racionados - 1943


Era desse tempo a seguinte canção: 

“Caldo e broa
Deus abençoa
O nosso lar.
É uma alegria
Em cada dia
Não faltar…”

“Não contando com os desempregados, cada vez mais numerosos no período da guerra - entre 1943 e 1945, o período de inactividade por falta de matérias-primas e combustíveis nas indústrias atingiu 6 a 7% - a maioria da população citadina assalariada, mesmo recorrendo à casa de penhores, ao crédito da mercearia e ao cultivo selvagem em pequenas hortas clandestinas, não comia o suficiente. Nesse mundo de subnutrição e miséria, grassavam as doenças entre os adultos, cuja idade média de morte era para os homens entre 36 e 39 anos e para as mulheres entre 41 e 44 anos. A mortalidade infantil, terrivelmente alta, sintetizava, como sintoma paradigmático, a situação de miséria que se vivia em Portugal. Em 1941, mais de 150 bebés portugueses por cada mil morreram antes de atingir o primeiro ano de idade e a taxa de mortalidade neonatal era, em média, de 40 mortes antes do primeiro mês em cada mil crianças nascidas.
Do racionamento...
A situação de precariedade dos assalariados portugueses era de tal forma grave que um homem do regime, Ferreira Dias Júnior, ministro do Comércio e Indústria em 1940, reconheceu, no seu livro Linha de Rumo - Notas da Economia Portuguesa (1945) que, enquanto o operário alemão ganhava o dobro do que necessitava para ele e a família se alimentarem, o salário médio do operário português não chegava a satisfazer três quartos das necessidades alimentares da sua família. Concluiu assim que o equilíbrio orçamental deste último era feito "à custa de uma alimentação deficiente" e "do trabalho dos outros membros da família além do chefe". Outro elemento do regime, o engenheiro Daniel Barbosa, ministro da Economia no pós-guerra, definiria a "ementa-tipo" de uma família, constituída por um operário, mulher e três filhos, para viver "fisiologicamente satisfeita". Dessa forma calculou para o ano de 1943 ser "estritamente" necessário para a dita família "viver com decência e na maior modéstia", um salário mensal de 1.650$00 (64$30 diários, do qual 28$09 para despesas de alimentação). Mas, nesse ano, o salário médio da maioria dos trabalhadores fabris portugueses era de pouco mais de 15$00 (entre 1941 e 46, a média era de 17$00).
Além disso, o custo de vida aumentou de forma exponencial. Por exemplo, entre 1943 e 1944, o quilo do arroz e das batatas aumentaram, respectivamente, de 3$50 para 4$80 e de 1$20 para 2$40, o peixe, de 10 para 20$00, a manteiga de 4$20 para 9$20, o açúcar de 3$60 para 4$20 e um par de sapatos de 180$00 para 300$00. Nesse ano os portugueses tiveram de contar com um agravamento da situação dos abastecimentos de tal forma sério que obrigou, a partir desse ano, o Governo a instituir o racionamento de produtos essenciais - ou seja, uma "política do consumo por via da autoridade", como disse então o ministro das Finanças, João da Costa Leite (Lumbrales). Este último assinalou, aliás, que o saldo da balança comercial a que se estava a assistir era conjuntural, realçando a fragilidade económica do país por trás da aparente prosperidade. O seu provável objectivo, e temor, era evitar que tal má distribuição da riqueza, a dificuldade de abastecimentos e a carestia de vida viessem a provocar agitação social, como de facto aconteceu, apesar da repressão.
Se a situação era assim na cidade, no mundo rural português, as camadas semiproletárias podiam contar pelos 216$00 mensais, excedendo a alimentação 80% dos gastos do conjunto das camadas mais pobres (Inquérito à Habitação Rural, 1944). No inquérito sobre as regiões do Minho e Douro, onde o rendimento médio anual dos rurais era de 2.341$94, o valor do património doméstico não ultrapassava os 400$00, incluindo móveis (171$00), roupa (180$00) e louça (15$00). No Sul, um estudo (Habitação Rural de Amareleja, 1941), indicava que a maioria dos jornaleiros, sem trabalho certo, gastava 70% dos salários de todos os membros da família com a alimentação, consumindo mesmo assim apenas 36% das gorduras indispensáveis. História de Portugal, dir, por J. Mattoso, vol. VII, da autoria de Fernando Rosas (1994)”.




Também os combustíveis foram racionados e os automóveis particulares pouco podiam circular. Houve também uma dada altura em que um dia circulavam os carros pares e no outro os ímpares. Dado não haver importação de automóveis e camiões a frota tornou-se mais velha e caduca. 
Pelas senhas acima podemos concluir que havia quem tivesse a regalia de poder circular mais que outros, como António Rocha Soares ao qual foi passada uma senha suplementar de 100 litros de gasolina utilizável entre 6 e 14/5/1945. 
Os médicos estavam autorizados a circular todos os dias.


Por força deste racionamento houve quem montasse um gasogénio pois assim poderia circular todos os dias. Recordo-me bem do Plymouth de meu avô (parecido com a foto acima). Era extremamente incómodo e lento. O “chauffeur” chegava cerca das 6 ou 7 da manhã para o carregar de carvão e acender e só depois de muito tempo e canseira o carro podia andar. Era um aparelho muito pesado, colocado na traseira (o que desequilibrava a condução) e cheirava mal. 


Mas houve quem adoptasse outras soluções, talvez mais lentas, mas seguramente mais bonitas e ecológicas.


Sopa dos Pobres - 1913


Mas, como se pode ver, e sentir, as crises repetem-se. A crise desta primeira fase do século também exigiu a criação da sopa dos pobres. Ainda hoje, á noite, se distribuem diariamente alimentos a centenas de sem abrigo, em várias partes de cidade.

4 comentários:

  1. Recordo a minha avó me contar que a sua mãe, aguardando vez numa das filas de racionamento e vendo umas senhoras (esposas de indivíduos ligados ao estado) passarem à frente de toda aquela pobre gente que ali se encontrava terá dito qualquer coisa como "Não há direito...".

    Valeu-lhe, segundo creio, uma noite no aljube.

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  2. Infelizmente, então como agora, há sempre os "espertinhos" e os "afilhados" que abusam da sua condição para "trepar" nos outros. Só que nessa altura a política aceitava esses abusos.

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  3. Olá
    Tristes memórias de um Povo.....
    Cumprs
    Augusto

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