terça-feira, 26 de setembro de 2017

PESTE BUBÓNICA DE 1899 E DR. RICARDO JORGE - II

8.1.15 – Peste Bubónica de 1899 - Dr. Ricardo Jorge, Comerciantes contra o cordão sanitário, Biografia de Ricardo Jorge, Ricardo Jorge e seu laboratório, Cemitério de Agramonte, Ilhas insalubres do Porto


Reunião de comerciantes no palácio da Bolsa para protestar contra o cordão sanitário imposto à cidade, na sequência da peste bubónica, em 1899. – Foto de Aurélio Paz dos Reis

… desenvolviam-se reuniões de protesto e entrevistas na imprensa que criticavam o veredicto de R. J”. In Maria do Carmo Seren - C.P.F.


Os primeiros doentes foram levados para o Hospital de Santo António e isolados dos restantes.
Dada a sua quantidade construiu-se um outro, provisório em madeira, ao lado da Quinta das Goelas de Pau. Daí o seu nome, como ainda hoje o povo lhe chama, embora desde 1914 seja o Hospital Joaquim Urbano.
A principal medida tomada, para isolamento das zonas afectadas foi a proibição de sair e entrar na cidade, tanto pelas vias terrestres como pela fluvial. Para a fazer cumprir, cercaram não só o Porto, mas também um certo número de povoações suburbanas, com um cordão sanitário, constituído por militares armados, tendo entre si uma distância de cerca de 50 metros. O cordão sanitário era completado por um navio de guerra fundeado na Foz.


Deu-se luta aos ratos, dado que as suas pulgas eram o principal transmissor do bacilo, queimavam-se todas as casas onde tivesse havido doentes e tentava-se separar as famílias dos seus doentes.


Montra de estabelecimento comercial em protesto contra a actuação de Ricardo Jorge – foto de Aurélio Paz dos Reis – figura de Ricardo Jorge com uma corda ao pescoço e a frase “faço justiça por minhas mãos”
Dadas estas terríveis medidas, e o grandíssimo prejuízo provocado à indústria, comércio e aos cidadãos da cidade, o povo, ignorante, revoltava-se.


Impõe-se agora uma biografia deste ilustre portuense tão mal tratado pela sua cidade. 

“Ricardo de Almeida Jorge nasceu no Porto, em 9 de Maio de 1858, no seio de uma família humilde. O seu pai era ferreiro na Rua do Almada.


Frequentou com brilhantismo a Escola Médico-Cirúrgica do Porto de 1874 a 1879, tendo concluído, aos 21 anos de idade, a licenciatura em Medicina com a "dissertação inaugural" Um Ensaio sobre o Nervosismo.


In O Tripeiro, Série VI, Ano IV

No ano de 1880 competiu pelo lugar de substituto da Secção Cirúrgica da mesma escola, com a apresentação do trabalho Localizações Motrizes no Cérebro. Uma vez aprovado, deu início à vida profissional na Escola Médico-Cirúrgica, ocupação que conciliava com a actividade clínica. Desde o início da sua carreira que criticou o ensino, a investigação e a medicina praticadas na sua época e tentou ultrapassar o atraso do país nessas áreas, vindo a tornar-se uma figura de topo da Ciência nacional, embora sendo uma personalidade polémica. 
Nos textos que publicou na Revista Científica a partir de 1882, publicação que ajudou a fundar e na qual colaborou continuamente, expressou os princípios positivistas e experimentalistas que perfilhava.


R. J. no seu laboratório – foto Aurélio Paz dos Reis

Em 1883 fez uma viagem de estudo para aprender mais sobre neurologia. Deslocou-se primeiro a Estrasburgo, onde visitou os laboratórios de Anatomia Patológica de Recklinghausen e Waldeyer, e depois a Paris, onde conheceu o neurologista Charcot e assistiu às suas lições. 
Após o regresso a Portugal, e com novas ideias a fervilhar-lhe no espírito, deu início a um curso de Anatomia dos Centros Nervosos e criou o pioneiro laboratório de microscopia e fisiologia do Porto.


Foi director clínico das Termas do Gerês entre 1889 e 1892 

A neurologia foi o seu primeiro domínio de interesse, mas não o único. Também se dedicou à hidroterapia, área na qual desenvolveu experiências sobre os efeitos dos fluoretos alcalinos e sobre águas termais, cujos resultados publicou em vários estudos, nomeadamente sobre as Caldas do Gerês. A Saúde Pública também beneficiou do seu labor, sendo o domínio que o atraiu na sequência da epidemia de cólera de 1883.



Cemitério de Agramonte onde repousam, em campa rasa, os restos mortais de R.J. e sua mulher

Depois da discussão sobre a instalação dos cemitérios no Porto decorrida na Sociedade União Médica, Ricardo Jorge promoveu quatro conferências em 1884 (A Higiene em Portugal, A Evolução das Sepulturas, Inumação e Cemitérios e Cremação), para refutar as autoridades higiénicas que supunham que os cemitérios provocavam a inquinação do ar, do solo ou da água, colocando em perigo a saúde pública. 
As conferências, que lhe conferiram fama e prestígio, vieram a ser publicadas no livro A Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa, que contribuiu para o debate sobre a laicização da morte e é considerado um momento chave do sanitarismo em Portugal.


O Saneamento do Porto de Ricardo Jorge

Na sequência destes acontecimentos, a Câmara Municipal do Porto convidou-o a associar-se a uma comissão de estudo das condições sanitárias do Porto, no âmbito da qual produziu um inquérito sobre as condições de salubridade urbana e o relatório final (O Saneamento do Porto), apresentado em 1888.


Este importante relatório motivou novo convite da Câmara Municipal do Porto, em 1892, desta vez para dirigir os Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto e chefiar o Laboratório Municipal de Bacteriologia. No âmbito destas actividades publicou a série do respectivo Anuário e um Boletim Mensal de Estatística Sanitária do Porto, que fizeram dele o introdutor da moderna estatística demográfica em Portugal.


O Dr. Ricardo Jorge merecia ter o seu nome numa importante rua ou mesmo numa avenida avenida 

O crescente prestígio de Ricardo Jorge contribuiu para a sua progressão na carreira académica. Em 1895 foi indigitado Professor Titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
No decurso do trabalho para a edilidade portuense editou, em 1899, Demografia e Higiene da Cidade do Porto, uma obra onde conjugou o estudo das origens do Porto com dados estatísticos e que serviu de exemplo para muitos trabalhos similares. Ainda hoje é uma obra de referência para todos quantos estudam a história da cidade.


“Ilha do Porto” lugar propício a doenças graves

"De qualquer modo, e apesar da circulação do conhecimento científico e da apropriação deste por parte das autoridades, que o usaram para combater a doença, a urgência das crises epidémicas não era compatível com o maior problema a resolver a longo prazo: a falta de higiene, tanto pessoal como das habitações, especialmente nas cidades. Os rios para onde se atirava tudo eram lugares propícios ao desenvolvimento das epidemias, os pântanos, às febres intermitentes. E se a natureza exalava “miasmas”, as cidades, com as suas habitações pequenas e mal arejadas, tinham sua “atmosfera corrompida” (O Comércio, 6 jun. 1855, p.1). O Porto, em particular, apresentava condições especiais para o desenvolvimento das doenças, por ser uma cidade industrial com uma população de grande mobilidade a viver nas piores condições de salubridade. Apesar das medidas do Estado para melhorar a higiene pública, no final do século XIX os problemas da cidade do Porto persistiam de tal maneira que Ricardo Jorge apelidou-a “cidade cemiterial”. 


Ilha da Travessa das Antas - 1960

Nas suas obras, o professor de medicina aprofundou a questão das ilhas como causa para a proliferação de doenças e epidemias, com especial destaque para a tuberculose (Jorge, 1899). Esse seu trabalho ajudou a influenciar a rainha dona Amélia na criação, nesse mesmo ano, da Assistência Nacional aos Tuberculosos e na construção de sanatórios para os doentes (Almeida, 1995). 
Até no estrangeiro a situação era conhecida: “O Porto tem falta de um bom sistema de canalização e a imundice nos bairros baixos da cidade é indescritível e suficiente para provocar qualquer epidemia. … É agora necessário tomar medidas muito enérgicas, construir novos esgotos ou sem isso o Porto continuará a ser das cidades mais insalubres da Europa” (Diário..., 5 set. 1899, p.1). Em 1918, a situação não melhorara. O mesmo Ricardo Jorge, nesta altura director-geral da Saúde e director do Instituto Central de Higiene, descreveu num relatório oficial a situação das ilhas do Porto perante a epidemia de tifo exantemático: a doença tem como “predilecção as classes ínfimas, mal alojadas, mal tratadas e mal mantidas” (Diário..., 21 fev. 1918, p.1). Nas ilhas do Porto, como nas casas de malta do sul, os operários e os trabalhadores eventuais dormiam à vez na mesma enxerga, em quartos partilhados, sem acesso a água corrente ou saneamento básico. Essa situação não melhorou muito: em 1950, as estatísticas de higiene, das comodidades domésticas e das condições sanitárias das casas em Portugal ainda podiam ser consideradas “calamitosas” (Cascão, 2011a).


Sem dúvida a curva demográfica da população portuguesa só começou a subir significativamente quando os problemas de saúde pública começaram a ser resolvidos, numa conjunção entre políticas de saneamento básico, tratamento de águas, programas de vacinação e higiene escolar e introdução dos antibióticos na vida das populações, especialmente a partir do final da Segunda Guerra Mundial”. IN HTTP://WWW.SCIELO.BR/

Sem comentários:

Enviar um comentário