domingo, 15 de junho de 2014

RODA DOS EXPOSTOS

3.11.5 - Roda dos Expostos



Esta gravura mostra as duas fases da entrega de uma criança na Roda. De fora, um casal coloca a criança na Roda, com o pai olhando em volta para se certificar que ninguém os vê, e dentro, uma ama ou freira com a criança ao colo.


Exemplar da Roda – blog Dias que Voam


Texto de O Tripeiro Volume 6 de 15/3/1927 

Os maridos das amas que amamentavam os enjeitados eram dispensados das obrigações militares durante o período de aleitamento. Em casos de necessidade eram alugadas cabras para fornecimento do leite. 
Durante a ocupação da cidade pelos franceses, em 1809, a câmara não tinha como alimentar os expostos pelo que pediu autorização par retirar um conto de reis dos cofres, o que lhe foi concedido.


O Hospício foi construído em 1730. A Roda ocupou-o de 1838 a 1854.


Capela do Senhor Jesus do Calvário Novo – Segundo Horácio Marçal “a ermida, edificada no séc. XVII conservava um largo alpendre ou galilé (como era uso quase corrente nas capelas rurais) para abrigar das intempéries os inumeráveis fiéis que a ela acorriam. Paredes meias fundaram os frades Antoninos do Vale da Piedade um recolhimento – Hospício de Santo António da Cordoaria – onde anos depois se instalou a Roda dos Expostos”.


Ao lado pode ver-se a porta do mercado do peixe que esteve aí até 1950. Foi destruído para a construção do Palácio da Justiça.


Mapa do livro de ARC, página 134


A Roda dos Expostos no Convento de S. Bento de Avé Maria.


Roda no Recolhimento do Ferro – foto de Jorge Portojo


Roda na Igreja do Convento de Santa Clara, á direita da porta.
Houve outros locais onde existiu a Roda, sobretudo nos conventos femininos e instituições de caridade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - VI

3.11.4 - Santa Casa da Misericórdia do Porto - VI






Foto do blog rgpsousa


O Colégio de Nossa Senhora da Esperança, propriedade da Santa Casa da Misericórdia do Porto foi criado como Recolhimento das Meninas Órfãs de Nossa Senhora da Esperança, instituído em 1724 com um legado deixado por parte do Reverendo Manuel de Passos Castro.
A Igreja contém no seu coro-alto um órgão de tubos em estilo Inglês, construído pelo mestre organeiro britânico Peter Conacher em 1891, e que foi restaurado em 1990.


José Joaquim Leite Guimarães 
Barão de Nova Cintra (1808-1870) 

Nasceu a 21 de Julho de 1808, na freguesia de S. João de Pencelo, perto da cidade de Guimarães. Era filho de António José de Faria e de Custódia Maria de Machado. 
Os seus pais, na qualidade de proprietários rurais, dedicavam-se à agricultura, dando assim continuidade à ascendência de ambos os lados. 
Desde muito cedo, com apenas onze anos, viu-se forçado a abandonar a sua terra natal e a partir em direcção ao Porto, para se iniciar na vida do trabalho. Começou por se empregar numa casa de comércio como caixeiro, onde permaneceu até aos 17 anos, idade com que emigra para a cidade do Rio de Janeiro no Brasil, onde pelo seu assíduo trabalho adquiriu uma avultada fortuna. 
Em 1855 volta a Portugal, vivendo 6 anos em Lisboa e após este tempo determina ultimar os seus dias no Porto, onde começara sua vida laboriosa. 
Aqui toma parte activa na administração de vários estabelecimentos de beneficência, cujos haveres aumenta consideravelmente. 
Gerente da companhia de iluminação a gás, vice-presidente e presidente da Associação Comercial de Beneficência, Provedor do Asilo de Mendicidade, em toda a parte deixa o Barão de Nova Sintra, título que lhe fora conferido em Abril de 1862, vestígios de sua passagem e do seu génio empreendedor. 
Em 1863, procede à inauguração provisória de dois Estabelecimentos no Porto, sob a sua administração e sustento. Um deles, designado de Estabelecimento de Artes e Officios do Barão da Nova Cintra, e o outro de Recolhimento Humanitário do Barão da Nova Cintra. Três anos volvidos, inauguraram-se as instalações definitivas com a designação de Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra, sendo as despesas a ele referentes suportadas pelo seu fundador. 
Com base num rascunho de sua autoria, manda redigir um extenso testamento no qual dispõe os seus bens a favor daqueles que o seu espírito lhe ditava. Mas o maior caudal da sua fortuna vai ser direccionado a favor dos mais desfavorecidos, com vários legados a instituições de caridade...


...como a criação do Estabelecimento Humanitário e, principalmente, com a doação de todo o remanescente à Misericórdia do Porto.
Este benemérito veio a falecer a 3 de Junho de 1870 e foi sepultado num jazigo, por ele mandado construir, no cemitério do Prado Repouso.
O Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra e a fábrica de sericultura (seda) que lhe era anexa exigiam uma cuidada administração, o que não fazia parte das atribuições dos testamenteiros. Por esse motivo, em 1 de Junho de 1871 fica a Misericórdia do Porto responsável pela administração destes dois estabelecimentos, mediante a assinatura do respectivo Auto de Posse. É de salientar que o primeiro estabelecimento subsiste até à actualidade, sob a alçada da Misericórdia do Porto, com a designação de Colégio do Barão de Nova Sintra.

Quinta do Barão de Nova Cintra


Lar Pereira de Lima - Gaia


O edifício e o terreno envolvente, foram doados pelo casal Manuel Pereira de Lima e Carmina Pinto Dias de Lima, com vista a nele se fundar um “Asilo de Cegos” adultos e de ambos os sexos.
Manteve-se naquelas funções iniciais desde a inauguração (1938) até Fevereiro de 1975, ano em que passou a acolher, para além de invisuais (admissão prioritária), idosos carenciados de internamento.
Sofreu obras de requalificação em 2012.


"Situada na freguesia de Poiares, no concelho de Freixo de Espada à Cinta, a Quinta d’Alva é uma propriedade rústica, das maiores da região duriense, com uma área que ultrapassa os 500 hectares. Foi doada pela família Massa à Santa Casa da Misericórdia do Porto em 1961. No entanto, a posse, administração e exploração da quinta iniciou-se no dia 6 de Julho de 1962.
Nos últimos anos, a Santa Casa da Misericórdia do Porto realizou importantes investimentos na propriedade, designadamente na recuperação do bloco habitacional e administrativo, na aquisição de novos equipamentos agrícolas e na introdução de um sistema de rega gota a gota. Estes investimentos permitiram aumentar a produção e melhorar a qualidade dos diversos produtos". Site da S.C.M.P.


Um relevante serviço pouco conhecido, pelo menos para nós, na actuação das Misericórdias, e de uma forma muito especial pela S. C. da Misericórdia do Porto, foi o seu importante papel na transferência de dinheiros do Brasil para Portugal.
O refluxo monetário da emigração tornou-se um dos principais sustentáculos da nossa economia. Durante séculos, e dada a inexistência do comércio bancário, foram as Misericórdias que proporcionaram a transferência avultadíssimos valores, funcionando como autênticas câmaras de compensação.
Os muitos emigrantes portugueses enviavam para as suas famílias o resultado do seu trabalho por seu intermédio. Onde houvesse portugueses havia, normalmente, uma Misericórdia. Era aí que entregavam os dinheiros a transferir que, enviados para os grandes centros (Rio de Janeiro, S. Paulo e outros), os faziam chegar à Misericórdia da área do destino. Compreende-se a importância deste serviço para o equilíbrio de tantas e tantas famílias que, muitas vezes, o tinham como único meio de sobrevivência.
Legados ou heranças também eram entregues aos destinatários de forma, habitualmente, rápida e fácil.
“Oliveira Martins cifrava, em 1891, o montante das remessas do Brasil, em 12 a 15.000 contos anuais e estruturava os ingressos do seguinte modo: economias de trabalhadores repatriados (5 a 6.000) sete a oito mil contos. Rendas de capitalistas repatriados (papel cambial) três a quatro mil contos. Mesadas, pensões, esmolas, presentes (papel cambial ou géneros) dois a três mil contos.


Também, o regresso de alguns portugueses com elevadíssimas fortunas trouxe importante desenvolvimento à nossa economia, pelos investimentos que cá fizeram. Igualmente, obras de solidariedade eram, por eles criadas ou beneficiadas.


O Barão de Nova Cintra fez importantes investimentos industriais e criou o Estabelecimento de Artes e Officios do Barão da Nova Cintra, e o Recolhimento Humanitário do Barão da Nova Cintra, hoje sob administração da S.C.M.P.


O Conde de Silva Monteiro, que foi Presidente da Associação Comercial, que deu um importante contributo na construção do porto de Leixões e dos caminhos de ferro.


Companhia Aurifícia – 1864 – fundada por Joaquim Rodrigo Pinto e sócios do Porto.


"Ocupa 1,6 hectares em pleno quarteirão classificado da Rua de Álvares Cabral e é um tesouro por descobrir. o Governo considera a Companhia Aurifícia "um património excepcional". Os donos querem vender.
Está à venda a Companhia Aurifícia, a antiga indústria de pregaria da qual a maioria dos portuenses conhecerá apenas a bonita fachada em tijolo cor de vinho na Rua dos Bragas. Para lá do portão, está o equivalente a 1,6 campos de futebol de terrenos e oficinas desactivadas e um cenário quase cinematográfico, que se estende até à Rua de Álvares Cabral.
A fábrica, que iniciou actividade em 1864, fechou há sete anos e o património da Companhia - detido por um banco, uma sociedade imobiliária, uma família e pequenos accionistas - está avaliado em 10 milhões de euros.
Além da antiga indústria (terrenos, edificado e recheio), integra um terreno ainda maior do que esse, devoluto e com 22 mil m2, na Rua de Cervantes, à Lapa. Esse terreno foi adquirido, em tempos, para lá ser construído um bairro operário, o que nunca chegou a acontecer.
A intenção de venda recai sobre todo esse património e a família portuense Pinto Leite, detentora de 33% do capital, admite vender a sua parte. Embora, como indicou ao JN um representante da família que é administradora da companhia há quatro gerações, a vontade dos accionistas seja alienar a totalidade.
A Companhia Aurifícia foi classificada em Dezembro passado, como parte do quarteirão da Rua de Álvares Cabral (compreendido entre a Rua de Cedofeita e a Praça da República), no centro do Porto. O edificado da antiga zona onde famílias da média e alta burguesia construíram moradias com características arquitectónicas preciosas foi consagrado como Conjunto de Interesse Público.
No despacho da Presidência do Conselho de Ministros, salienta-se o "património excepcional e que representa o exemplo mais bem preservado e coerente de uma instalação industrial dos séculos XIX-XX na área metropolitana do Porto". Percorrer a enorme fábrica é uma viagem a um passado industrial de charme.
Há salões de tetos altíssimos onde estão máquinas enormes, chaminés de tijolo, caldeiras a vapor, um canal de água e ricos detalhes arquitectónicos. Há um arco de pedra concebido pelo arquicteto Marques da Silva, encimado pelo busto de um antigo administrador esculpido por Teixeira Lopes. E muitos outros pormenores.
"A nossa vontade era que a Companhia tivesse um destino digno, mas que também fosse rentável para quem investir aqui", declarou um membro da família, sem esconder o receio que a classificação recente possa afastar investidores do imobiliário. "Isto é uma pérola, queremos preservar o que é para preservar, mas não se pode cair no fundamentalismo", afirmou a mesma fonte". In JN.


Outros portuenses regressaram com avultadas fortunas tendo cá construído as suas residências e contribuído para o desenvolvimento da indústria e do comércio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - V

3.11.4 - Santa Casa da Misericórdia do Porto - V


Joaquim Ferreira dos Santos nasceu na freguesia de Campanhã. O jovem Joaquim Ferreira dos Santos estudou latim, lógica e retórica, mas concluindo que não tinha vocação para o sacerdócio, abandonou os estudos aos 14 anos de idade, empregando-se como caixeiro e manifestando vontade de ir para o Brasil e seguir a carreira comercial. Os conhecimentos que adquirira viriam a ser úteis, mais tarde, na sua carreira comercial.
Depois de um curto período como caixeiro no Porto, contrariando os pais, emigrou para o Brasil em 1800, levando consigo carta de recomendação dirigida a um parente que se encontrava estabelecido como comerciante no Rio de Janeiro. No Brasil, ajudado e protegido pelo seu parente, foi prosperando no negócio, dedicando-se ao comércio por consignação de produtos enviados do Porto.
Depois de ter estabelecido relações comerciais entre a sua casa e a praça de Buenos Aires, dirigiu as suas atenções para África, com o intuito de alargar as suas relações com essa parte do mundo, foi três vezes a Molumbo, Angola, onde criou várias feitorias e montou um lucrativo negócio negreiro, importando cerca de 10 mil escravos para o Brasil.
Em 1828 contribuiu com importantes donativos para os emigrados portugueses no Brasil, declarando-se partidário da causa política de D. Maria II, para a qual contribuiu com avultadas somas de dinheiro.
A rainha D. Maria II de Portugal agraciou Joaquim Ferreira dos Santos com o título de conde de Ferreira, em 6 de Agosto de 1850, pelos serviços prestados ao País e ao Partido Constitucional.
Ingressou na política activa durante o cabralismo, sendo feito par do Reino por carta régia de 3 de Maio de 1842.
Faleceu na cidade do Porto em 24 de Março de 1866, com 84 anos de idade. Está sepultado num mausoléu no Cemitério de Agramonte, concluído em 1876, dez anos após o seu falecimento, obra do escultor António Soares dos Reis.


Cemitério de Agramonte – Jazigo do Conde de Ferreira



Na falta de descendência legítima e possuindo avultados rendimentos, deixou a sua fortuna a um grande conjunto de beneficiários, entre os quais muitos colaboradores, parentes e amigos, e instituições como a Santa Casa da Misericórdia do Porto e as Ordens Terceiras do Terço, Carmo, Trindade e São Francisco. Destinou ainda fundos para a construção de 120 escolas e um hospital para doentes mentais. Além de muitos donativos oferecidos a diversas instituições no Brasil, ainda conseguiu doar ao Estado Português 144 000$000 reis para construir 120 escolas, para cuja construção se seguiu uma planta única, pois era mais prático, económico e rápido. Foi o grande mecenas da instrução primária em Portugal, colocando como condição que as escolas a construir o fossem em sede de concelho e que tivessem aposentos para os professores residirem. Com o remanescente da sua herança foi fundado o Hospital do Conde de Ferreira, no Porto, para doentes de foro psiquiátrico.


No seu testamento escreveu: "Quero que os meus testamenteiros empreguem todo o remanescente da minha fortuna (…), em construir onde julgarem conveniente, um edifício para o hospital de alienados, não devendo gastar no edifício mais da terça parte do remanescente e, acabada a obra e mobilado o hospital, farão entrega à Santa Casa da Misericórdia desta cidade, não só do edifício, mas também dos fundos sobrantes, previamente empregados em efeitos de crédito público, que farão averbar a favor do hospital e à mesma Santa Casa prestarão contas da sua gerência com respeito ao remanescente".


Festa com doentes do Hospital Conde de Ferreira

No site da Santa Casa da Misericórdia do Porto pode ler-se: 
“1866 – Falecimento de Joaquim Ferreira dos Santos, Conde de Ferreira (24 de Março). Uma das disposições do seu testamento contemplou 678000 réis, quantia invulgarmente elevada, para a edificação de um hospital para alienados, de raiz, na cidade do Porto, onde viveu os seus últimos anos.
1868 – Início da construção do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, na Quinta da Cruz das Regateiras, situada na antiga estrada para Guimarães. A extensa propriedade, com 120.000m2, com água em abundância e boa exposição higiénica, possibilitava a existência de jardins, prados e terrenos cultiváveis, considerados factores indispensáveis na terapêutica psiquiátrica. O projecto, cuja arquitectura foi inspirada no Hospício Pedro II, inaugurado a 05 de Dezembro de 1852 no Rio de Janeiro (Brasil), é da autoria de Manuel d’Almeida Ribeiro, arquitecto e professor na Academia Portuguesa de Belas Artes.
1883 – Inauguração do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira. António Maria de Sena foi convidado pela Misericórdia do Porto para o cargo de Director Clínico, oriundo da Faculdade de Medicina de Coimbra. O Hospital é constituído por um vasto edifício que se desenvolve por quatro grandes alas e dois pavilhões envolvidos por jardins. Em anexo foi construído um pavilhão para observação médico-legal dos criminosos de ambos os sexos, assim como o laboratório. 
188? – Poucos anos após a inauguração foram construídos dois pavilhões para doentes furiosos.
1916 – A Portaria n.º 555, de 17 de Janeiro, atendeu ao representado pela Misericórdia do Porto e autoriza a que esta instituição aceite a doação de um grupo de indivíduos, em nome de quem outorgara determinada pessoa sem menção dos nomes deles, lhe fizera de valores na importância aproximada de 60000 e que o mesmo grupo poderia ir aumentando, para a construção e sustentação de um pavilhão anexo Hospital dos Alienados do Conde de Ferreira para o internamento de pobres incuráveis, começando pelos que já se encontram internados no mesmo hospital. 
1976 – Nacionalização do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira pelo Estado Português.
2002 – Transferência da tutela do Estado para o da Santa Casa da Misericórdia do Porto das instalações do Hospital e dos cerca de 300 doentes residentes (01 de Janeiro, às 09h00). O Hospital de Alienados do Conde de Ferreira dava, assim, lugar ao Centro Hospitalar Conde de Ferreira.


2011 – Criação do Centro de Dia para Doentes de Alzheimer e Outras Demências “S. João de Deus” (26 de Outubro)”.
RTP - notícias
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=553549&tm=8&layout=122&visual=61


Provedor da S.C.M. do Porto

As gravíssimas consequências económicas e sociais da 1.ª Guerra Mundial e a tremenda inflacção que a mesma provocou, colocou a Misericórdia do Porto numa situação de ruptura financeira que quase paralisou a sua acção caritativa. Basta verificar que, se em 1915 as despesas eram de cerca de 185.000$00, em 1921 eram de mais de 950.000$00. Porém as receitam não aumentaram devido à grave crise.
Nomeadamente o Hospital de Santo António tinha, em 1915 555 doentes com uma despesa de 86.000$00, em 1921 tinha somente 382, que custaram 480.000$00.
Receava-se, mesmo que a Misericórdia tivesse que deixar de existir.
O governo desse tempo também passava dificuldades e não pretendeu ajudar esta Obra.
Escrevia o Provedor: “Toda a acção do poder central em matéria de assistência quase se encontra concentrado em Lisboa. Chega a ser revoltante esta desigualdade, pois se o Estado não encontrasse na nossa Misericórdia os hospitais para pedagogicamente anexar à Faculdade de Medicina e houvesse de fazer a assistência pública que a nossa Instituição vem realizando, milhares de contos necessitaria de se despender nesses serviços”


Perante estas graves dificuldades a mesa decidiu recorrer à benemerência dos portuenses, organizando uma campanha de benemerência, entregando a D. Ana José Guedes da Costa a sua organização.
Acompanhada de várias senhoras da sociedade havia, já em 1917, organizado uma que tinha tido grande sucesso. Desta feita foram envolvidas centenas de pessoas que mostraram à população do que se tratava de salvar a Misericórdia. Também os jornais da cidade organizaram uma vibrante e convincente campanha que uniu o povo do Porto á volta da sua Misericórdia. Esta festa rendeu 300.000$00 o que, sendo uma avultada quantia, era insuficiente. O Provedor classificou esta campanha como “uma das páginas mais brilhantes da história da caridade e beneficência do nosso país”. 
Em 1924 as contas da Misericórdia acusavam já um défice de 2.200.000$00.
Logo que o público tomou conhecimento de tão desesperada situação, começaram a surgir avultados donativos. A referida Comissão de Senhoras dirigiu-se à Misericórdia, oferecendo-se para organizar o “Dia da Misericórdia”. Num só dia, ao fim da tarde, estas senhoras entregaram à Santa Casa 750.000$00 em cheque, notas e moedas de ouro, prata e cobre. Estas eram centenas e centenas de quilos e eram as ofertas dos mais pobres da cidade. Passados mais alguns dias as ofertas chegaram a quase aos 1.000.000$00. Os portuenses deram, uma vez mais, prova da sua abnegação e generosidade.
Faz-nos lembrar o “o grito” do Padre Américo, no anos quarenta “Ai Porto, Porto, quão tarde te conheci!”. 


Dr. Domingos Braga da Cruz


“Figura emblemática no âmbito médico hospitalar, teve um papel fundamental como mentor do projecto Prelada. 
Nascido na cidade de Braga, a 3 de outubro de 1899, desde estudante que prometia uma carreira brilhante. Em 1922 defende a tese de doutoramento com 18 valores. Médico, Governador Civil do Porto, Provedor da Santa Casa da Misericórdia (em três mandatos) e também director do Hospital Geral de Santo António deixou marcas memoráveis à medicina e a grupos de jovens estudantes pelo apoio demonstrado em épocas polémicas. 
Na Santa Casa da Misericórdia do Porto o seu percurso foi exemplar e honorífico. Além de Provedor foi proposto Irmão Benemérito pelo Hospital de Santo António pelos auxílios materiais e morais prestados à Instituição. Em 1957 foi nomeado, por unanimidade Irmão Honorário. 
Já com avançada idade, concebeu e orientou o processo relativo à construção do Hospital até nível adiantado do programa e assegurou a comparticipação financeira das receitas das apostas mútuas. Com determinação ultrapassou os problemas políticos e económicos, que cercavam o projeto e com pragmatismo e força de espírito conseguiu ganhar a batalha ao lançar o Hospital da Prelada com a dinâmica de um hospital de ponta”. In site da S.C.M. do Porto


“As obras de construção do Hospital da Prelada tiveram início em 1971. Contudo, a definição do projecto ocorreu em 1961, ano em que a Mesa da Santa Casa da Misericórdia do Porto, pela provedoria do Dr. Domingos Braga da Cruz, esboça a execução de um Centro de Reabilitação a construir nos terrenos da Quinta da Prelada. O projecto estabelecia a inclusão de determinadas especialidades: Medicina Física e Reabilitação, Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, Ortopedia e também uma Unidade de Queimados. Apenas em 17 de Outubro de 1988, é que o Hospital da Prelada abre portas e recebe os primeiros doentes nos serviços de Ortopedia, Cirurgia Plástica e Reconstrutiva e Medicina Física e Reabilitação.
O Hospital da Prelada - Dr. Domingos Braga da Cruz tem como missão, melhorar a saúde através de cuidados de qualidade, garantindo acesso atempado e a optimização dos recursos disponíveis na comunidade, assim como participar na investigação e no ensino pós-graduado. Pelo seu posicionamento (socialmente responsável, promotora da equidade de acesso, não lucrativa) e pela excelência dos resultados obtidos nas diversas especialidades de que dispuser, o Hospital será reconhecido – pela comunidade, pelo S.N.S. e pelos restantes interessados – como um Estabelecimento de qualidade na saúde, tanto pelos cuidados prestados como pela sua participação na investigação e no ensino pós-graduado”. In site da S.C.M. do Porto

quinta-feira, 5 de junho de 2014

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - IV

3.11.4 - Santa Casa da Misericórdia do Porto - IV


Ilha do Bairro da Maceda – Campanhã - 1974

No Porto existiam muitos locais insalubres, sobretudo nas “ilhas” das zonas industriais. Certas doenças, como a tuberculose, eram comuns.


Em 1899 o Porto sofreu uma epidemia de Peste Bubónica que o eminente médico Dr Ricardo Jorge tentou combater impondo regras de higiene, evacuação e desinfecção de zonas afectadas. Porém, o povo da cidade enfureceu-se contra elas o que o levou, desgostoso, a abandonar a cidade sendo nomeado Inspector Geral de Saúde e professor da Escola Médica em Lisboa. Sobre este facto trataremos com mais pormenor em local próprio.


Bombeiros e higienistas em descanso durante uma desinfecção de casas – Photo Guedes – 1899


Intervenção sanitária – foto Aurélio Paz dos Reis - 1899


Enfermeiras - 1917


Serra de Amputação (1600): A maioria dos cirurgiões se preocupava em decorar suas serras, mas não pensavam que os sulcos eram um lugar ideal para os germes construírem suas casinhas.


Kit de cirurgião - séc. XIX


Cadeira de Parto - séc. XVIII e XIX



Caixa de boticário


Remédio para a tosse muito usado no séc. XX - durante o cortejo da Queima das Fitas, os estudantes de medicina, faziam publicidade a este eficiente medicamento enchendo os frascos com tintól.


Quem se não recorda dos rebuçados para a tosse Lencart?
Pois, a verdade, é que o hipotético Mr. Lencart, “prestigioso farmacêutico parisiense”, não era senão o inteligente Sr. Álvaro Salgado, dono da Farmácia Central, no nº. 203, e que LENCART era um anagrama de CENTRAL. A verdade é que deve ter vendido milhares e milhares de caixas de rebuçados, um creme para todas as ocasiões. 


Era horrível!!!



Alguns remédios que muitos de nós ainda usou...


Em 1918 declarou-se em muitos países, desde os USA à Europa, a chamada gripe espanhola, também chamada pneumónica, que parece ter morto entre 20 a 40 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo cerca de 60.000 os portugueses falecidos. O Porto foi muito atingido, sobretudo as zonas mais pobres. Recordámo-nos do pavor com que nossos pais e avós falavam desta epidemia. Hoje supõe-se ter sido provocada pelo vírus AH1N1. Terá começado nos USA em Março e chegado à Europa em Abril, trazido pelos soldados que vinham para a I Guerra Mundial. Chegou a Portugal em Maio.


Esta interessante lista mostra que nessa época as principais causas de morte foram a tuberculose (87), a diarreia e enterite antes dos dois anos (108) e após esta idade (47). Várias doenças estão agora erradicadas e outras aumentaram significativamente as percentagens de mortes.


Escola médica desde 1883, erigida na cerca do Convento dos Carmelitas, quartel da Guarda Municipal e Igreja dos Carmelitas.


Faculdade de Medicina - 1940


 Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS)


Escultor João da Silva - 1926