sexta-feira, 29 de novembro de 2013

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXVI

3.5.10 – Casas de espectáculos - I


Foto aérea da Torre dos clérigos, Mercado do Anjo (zona sul), antigo Largo do Olival, Banco Nacional Ultramarino, Igreja dos Congregados, Rua de 31 de Janeiro, Estação de S. Bento, Igreja de Santo Ildefonso, Teatro S. João e, em cima á direita, o palacete dos Duques de Lafões, no Largo do Corpo da Guarda, que foi destruído aquando da abertura da Avenida da Ponte. Em cima, adivinha-se o Colégio dos Órfãos.


O Dr. Artur de Magalhães Basto escreveu: “Desde o séc. XVI até pou antes da revolução de 1820, a classe média portuense conservou quase imutáveis os seus costumes. Durante 300 anos os seus únicos divertimentos, foram as festas da Igreja e aos Domingos os passeios para o campo ou as merendolas em barcos pelo rio acima. Era, em suma uma vida pacata e autenticamente provinciana”.

O teatro no Porto no séc. XVIII – José Pedro Ribeiro Martins 


Esta casa pertenceu à família dos Condes de Miranda, Marqueses de Arronches e Duques da Lafões. “Pertenceu ao 1º. Duque de Lafões D. Pedro, filho de um filho ilegítimo de D. Pedro II, que este perfilhou, nascido em 10/1/1718 e falecido em 1761” - Horácio Marçal em O Tripeiro, Série VI, Ano IX.


Entrada da Rua do Corpo da Guarda antes das demolições para a abertura da Avenida da Ponte. 


O primeiro teatro do Porto foi construído nas cavalariças do palácio dos Duques de Lafões, perto da Sé, em 15 Agosto de 1760. Na sua inauguração foi levada à cena uma ópera lírica para homenagear o casamento de D. Maria I com D. Pedro. Este teatro foi desenhado por João Glama Stroeberle.
Este teatro era frequentado pela melhor sociedade, incluindo o Corregedor João de Almada e Melo. Certa noite notou que na orquestra havia um músico, que tinha muito pouca intervenção na execução da obra. Mal disposto com isto, o Corregedor chamou-o ao seu camarote, dando-lhe uma severa reprimenda pela sua preguiça em tocar. O músico, muito “enfiado” respondeu-lhe que era obrigado a seguir a pauta e que se não tocava mais era porque não cabia fazê-lo. Porém, João da Almada insistiu que ele ganhava para tocar toda a noite e não só aos bocados, por isso não tolerava as pausas que fazia! Ignorância compreensível num militar desconhecedor de música, como aliás o era quase todo o público desse tempo.


Rebelo Bonito em O Tripeiro Série VI, Ano III afirma que: “ Em 28 de Fevereiro de 1797 realizou-se o último espectáculo neste teatro. A sala teve depois destino pouco nobre: foi sucessivamente quartel de guardas de segurança pública, quartel de guarda barreiras e depósito de “calcetas” ou vadios coagidos pelas autoridades a trabalhos de pavimentação de ruas e caminhos, levando corrente amarrada à cinta e artelho do pé direito para não fugirem.”

Do estudo acima referido retiramos o texto que nos pareceu com interesse:



Neste teatro cantou a grande soprano Luíza Todi (1753/1833), a maior figura do canto português. Luiza Todi viveu no Porto entre 1771 e 1777 tendo actuado várias vezes. Isto porque D. Maria I havia proibido às mulheres representarem em Lisboa. Depois de grandes sucessos em muitos países europeus, regressou ao Porto em 1803, já viúva. Tendo perdido muitos dos seus bens em 1809, quando os franceses entraram no Porto, regressou a Lisboa onde lhe morrem alguns filhos. Faleceu em 1833 cega, e muito pobre.


In - O teatro no Porto no séc. XVIII – José Pedro Ribeiro Martins

Depois de grande insistência de Francisco Almada e Mendonça o povo portuense conseguiu contribuir com 30.300$00, o que era insuficiente. Após novas insistências do Corregedor atingiu-se a quantia de 53.450$000. Decidiu-se começar as obras em 22/3/1796. Como este valor ainda não cobria as despesas, o Corregedor mandou executar o real de água em 1/3/1796 até preencher a quantia necessária para a construção do teatro.


Projecto original de arquitecto Vicenzo Mazzoneschi para o Real Theatro de S. João. Como se verifica o resultado final deste projecto foi muito mais pobre e deselegante, exteriormente.


Real Theatro de S. João – Inaugurado em 13 de Maio de 1798, dia do aniversário do Príncipe D. João, chamou-se inicialmente Theatro do Príncipe em honra do futuro D. João VI. Orçamentado em 80.000 cruzados, custou muito mais. “Para o construir foi destruído um grande pano da Muralha Fernandina, cuja pedra serviu para fazer as suas paredes e também as da Casa Pia” – Boletim de Os Amigos do Porto do ano de 1999.- O escudo real que estava na frontaria encontra-se nos terrenos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Até 1809 apresentou peças ligeiras e variadas, sendo a primeira temporada de teatro musicado em 1809 com uma zarzuela. A primeira ópera só lá foi apresentada em 1814/1815. 
Neste mais importante teatro da cidade apresentaram-se muitas das melhores obras musicais e teatrais do século XIX, sendo que alguns compositores eram do Porto e tinham grande qualidade, tais como: José Francisco Arroyo, Carlos Dubini, Sá Noronha, Miguel Ângelo e Alfredo Keil.
Durante o cerco do Porto foi bastante danificado pela artilharia Miguelista pelo que teve de sofrer grandes obras entre 1835 e 1838.


Interior do antigo Real Theatro de S. João.

“…mas o teatro mais interessante de observar era o de S. João, durante a temporada lírica; este antiquíssimo teatro, que exteriormente dava ideia de uma fábrica de moagens, no interior estava bem arranjado, possuindo um salão de entrada correctamente disposto e um outro no andar nobre. De forma elíptica, posto com elegância; a sala de espectáculos estava bem mobilada, o pano de boca para os lados; nos camarotes viam-se as principais famílias portuenses, ostentando as senhoras ricas “toilettes” e jóias de preço; na plateia velhos “dilettanti” e rapazes da primeira roda, aprumados nas negras casacas, fazem destacar os peitilhos de camisas, onde cintilam os brilhantes das abotoaduras”. Um forasteiro de 1908.


Artur de Magalhães Basto descreve uma noite de ópera, em O Porto do Romantismo: "A enchente é espantosa, e no verão o calor é tão intenso como se “estivesse na câmara de um vapor, em calmaria, por alturas de S. Tomé ou Senegal”, e as pulgas mais abundantes “do que em qualquer galegaria de atrás da Sé”. 
O “bufete” vendia sorvetes de diferentes qualidades, a 4 vinténs cada um.
O espectáculo começa e vai decorrendo numa atmosfera pouco tranquilizadora. Rebentam as primeiras palmas, estruge uma formidável pateada. Há bravos e assobios. Corre o pano. Chamados os artistas, estes aparecem no proscénio. A balbúrdia cresce. A pateada torna-se infernal. Os actores investem contra o público, como em 1849, na representação dos Foscaris. São lançados dos camarotes impressos com poesias, respondem-lhes os díscolos arremessando para o palco toda a qualidade de projecteis, até botas velhas. Martelos, cabos de vassouras, tacão, goelas, tudo que faça barulho é posto em movimento. No ar esvoaçam pombas brancas e rodopiam bengalas e mocas e, por vezes, luzem punhais. Partem-se cadeiras inocentes e cabeças apopléticas. Os artistas são enxovalhados. Uma actriz a “italiana Luisa Abbadie, enlouqueceu de repente, na noite de 3/5/1852, depois de ter sido desfeiteada pelo público”. 
A chinfrineira é indescritível, os destroços na mobília avultados e o sangue a escorrer das testas abundante… resultado: as autoridades ordenam o encerramento do teatro por alguns dias”.


Certo dia, depois de uma cena deste tipo, a polícia proibiu a entrada de bengalas ou qualquer outro objecto perigoso.
“Os beligerantes, ao terem conhecimento da “ordem superior”, não se intimidaram, antes pelo contrário, nessa noite era de ver como, todos humildes, iam fazer a entrega das suas badines no bengaleiro respectivo. O governador civil rejubilava por ver como as suas determinações eram rigorosamente cumpridas; mas o que ele não sabia era que a cada bengala depositada correspondia um cabo de vassoura, a que previamente de cortara a rama de piaçaba, insidiosamente enfiado pelo colete abaixo duma grande parte daqueles tão submissos quão resignados cumpridores da lei. Escusado será dizer que, nessa noite, no teatro S. João não caiu Tróia, isso não; mas o espectador incauto ou desprevenido veio de lá escorraçado a rabo de vassoura, como qualquer intrometido fraldiqueiro”. O Tripeiro, Volume 2, 1/7/1909.




“Não era sem certos cuidados que algumas famílias se dispunham a ir ao teatro. A mãe dá ordem à criada que faça a ceia; o pai diz ao galego que ponha duas velas de cêbo no lampião de folha. Apenas o jantar (almoço) terminou e o último palito fez a limpeza dentária, vai a família dormir a sesta, porque tem de perder a noite. À hora própria lá segue a família para o teatro, porque é bom ir cedo e sem fadiga. O chefe de família leva duas pistolas no bolso para o que der e vier; atrás, a criada com o merendeiro, os frangos assados, a vitela, as azeitonas, a pingoleta etc. Chegam as damas ao camarote, estendem as mantilhas de lapim para fora da borda e colocam-nas cuidadosamente nuns arcaicos lanceiros de pau que havia nos camarotes; ao fundo a criada senta-se junto ao cesto da ceia. Os espectadores começam a encher o teatro e o Aniceto vem distribuir pelas estantes da orquestra os diversos papeis da partitura; trabalho que faz pacificamente, excepto se algum frequentador das varandas lhe grita de lá; - Oh Clemente, quebraste a infusa! – porque então o homem perde a cabeça, troca os papeis e dá por paus e pedras.
Os janotas cumprem a sua elegante missão de conquistadores; as damas choram ou sorriem, como as situações da peça o exigem; à hora própria , aproveitam-se os intervalos para a ceia e tudo corre no melhor dos mundos, se os artistas não desafinam e se as tormentas teatrais não provocam as pateadas.
Que velhos costumes e clássicos hábitos da velha sociedade que dormia a sesta e ia cear ao teatro!”
In O Tripeiro, Volume V. 
No final das representações os artistas costumavam reunir-se nos cafés do Leandro e no Águia d’Ouro, onde comentavam o decorrer da récita e discutiam as falhas do próximo.


“O meio de transporte habitual das famílias, para o Teatro de S. João, para os bailes, para as romarias, era o famoso carroção, veículo de 4 rodas da forma de um prédio, com duas fachadas laterais de cinco janelas cada uma, e porta ao fundo, a que o passageiro subia por quatro degraus de escada guarnecida por um corrimão. Uma junta de alentados bois de Barroso puxava pelo "monumento”.
“Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No Inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do Teatro S. João. A portinhola abria-se, havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do Teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora”.
Ramalho Ortigão

“Nas noites de espectáculo a concorrência na Batalha e ruas próximas era sensível e até nos tempos antigos era assinalada pela venda de doces e rebuçados como nos arraiais. A formatura dos trens, o alinhamento das seges, a série de carroções com os bois deitados no chão, a fileira das cadeirinhas, guardadas apenas por algum dos galegos vigilantes, e o agrupamento dos lampiões, defendidos pelos criados menos dormentes, isto em volta do teatro, pareciam um acampamento!” In O Tripeiro, Volume V, 1926.


Camillo Sivori – único aluno directo de Paganini e notável violinista, esteve no Teatro de S. João em Dezembro de 1854. Deu 3 concertos de grande sucesso, que tiveram os maiores aplausos e casas sempre cheia. Em Parias chamavam-lhe o “Paganietto” e em Berlim “o sósia de Paganini”. D. Pedro V entusiasmou-se de tal forma por este espantoso artista que lhe concedeu o Grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Era também um compositor muito apreciado ao tempo. Indicamos abaixo obras suas:






Na sala do Real Theatro de S. João também se realizavam outros tipos de espectáculos tal como pelo Carnaval de 1855 onde houve festas e bailes de máscaras durante uma semana.


Adélia Dabedeille

A Ópera, no séc. XIX, era muito apreciada, concorrida e bem frequentada. Os sucessos dos cantores e das óperas eram muito comuns e, habitualmente, o público muito conhecedor. Sucessos como os que acima descrevemos devem ter sido muito raros, mas ficaram na história.

Alguns cantores e árias que gostamos:

Enrico Caruso – Una furtiva Lacrima – Elixir d’Amor – Donizetti - 1904

Tito Schipa – Lamento de Frederico – L’Aresiana – Cilea- 1928

Luciano Pavarotti – a mesma ária - 1987

Beniamino Gigli – Mamma - 1940

Beniamino Gigli - Nessun Dorma – Turandot - Pucini

Maria Callas – Casta Diva – Norma – Bellini - 1961

Alfredo Kraus – ária da ópra Os Pescadores de Pérolas - 1970 

Shirley Verret e John Vickers -Mon coeur s’ouvre à ta voix – Sansão de Dalila – Saens Saint - 1981

Ivan Rebroff – Morte de Boris – Boris Godunov – Moussorgsky - 1984 

Luciano Pavarotti e d’Amico - Che gelida manina e Si, mi chiamano Mimi - La Boheme – Puccini - 1986

Luciano Pavarotti – Addio a la Madre – Cavalaria Rusticana - Pietro Mascagni - 1993

Cecilia Bartoli – Lascia la Spina – Handel - 1998

Cecilia Bartoli - Castrati (a ver absolutamente)

Ária do Filme Farinelli, il catrato – Lascia Ch’io pianga 

Filme completo – Farinelli, il castrato - 1994

Jonas Kaufmann – Porquoi me reveiller – Werther – Massenet - 

Pavol Breslik – Kuda kuda - Eugene Onegin – Tchaikovsky - Londres 2013


Estalagem da Ponte da Pedra –C.P.F.

Na noite de 6/3/1849 os fanáticos de Adélia Dabedeille homenagearam-na na famosa Estalagem da Ponte da Pedra. Por coincidência ou não, Camilo e seu amigo Aloísio Seabra, apoiantes de Clara Belloni, foram lá cear. Vendo o que se passava, começaram a dar vivas à sua preferida. Rapidamente tal provocação degenera numa valente rixa. Camilo e o amigo tiveram de bater em retirada, pois os “inimigos” eram muitos. Como escreveu Camilo “Aloísio retirava ferido pela ponta de um estoque de bengala; eu que entrara resoluto a morrer, inutilizado o copo na cabeça do mais cobarde, cruzei os braços esperando a morte numa atitude romana”


Cinco meses depois ardia o antigo Real Teatro de S. João…

Quando uma cantora agradava ao público havia, habitualmente, uma festa de despedida a que se chamava o “benefício”. Isto porque a receita de bilheteira lhe era integralmente entregue. Eram momentos de grande entusiasmo, histeria, delírio e até loucura. “... Bastará recordar que essas espécies de consagração principiavam, de ordinário, pela entrada solene que a diva fazia no teatro por sobre as casacas dos admiradores, que ao descer da carruagem, lhe serviam de tapete, e terminavam por ser ela reconduzida a sua casa na mesma carruagem, não já puxada pelos quadrúpedes que a trouxeram, mas pelos próprios admiradores, que sofregamente se faziam substituir aos varais (com grande desvantagem, é claro) às alimárias destinadas a tão disputado serviço”. O Tripeiro, Volume 2 , 1/7/1909.



O Real Theatro de S. João foi destruído por um incêndio na noite de 11 para 12 de Abril de 1908.
Foi o primeiro edifício construído de raiz no Porto exclusivamente destinado à apresentação de espectáculos. Apesar de alternadamente explorado por companhias de teatro declamado e de teatro lírico, a actividade do Real Teatro de São João acabaria por ficar vinculada ao universo da ópera italiana, cujo monopólio de representações na cidade deteve até perto do final do século XIX.



Logo após o incêndio do Real Theatro foi aberto o concurso para a construção de um novo, a que seria dado o mesmo nome de S. João. O arquitecto José Marques da Silva, após a sua formação em Paris, saiu vencedor. A decoração da sala de espectáculos e salões ficaram a cargo dos pintores Acácio Lino e José de Brito e dos escultores Henrique Moreira, Diogo de Macedo e Sousa Caldas. As figuras existentes no entablamento representam a Bondade, a Dor, o Ódio e o Amor. Foi inaugurado em 7 de Março de 1920.“Em 1932, apenas doze anos após a sua inauguração e acompanhando a decadência da actividade teatral na cidade, passou a chamar-se São João Cine, dedicando a maior parte da sua programação à exibição cinematográfica. O edifício foi esquecido e entrou numa fase de progressiva degradação. Foi adquirido pelo Estado em 8 de Outubro de 1992 e inaugurado cerca de um mês mais tarde, a 28 de Novembro, com a designação oficial de Teatro Nacional São João. Restaurado, remodelado e reequipado, segundo projecto do arquitecto João Carreira, entre 1993 e 1995, voltou a ter uma regular actividade artística”. Boletim IPPAR: Teatro Nacional São João. Porto: IPPAR, 1995.


Em Porto Tripeiro pode ler-se o testemunho seguinte: “A Praça da Batalha como sala de visita tinha o Teatro de São João. Todos os anos, pelo inverno, havia a temporada de teatro da companhia da “Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro”. Esta magnifica sala de espectáculos era a mais elegante do Porto quer em grandeza como no seu estilo arquitectónico. Durante a minha vivência na travessa do mesmo nome do teatro, tive sempre o privilégio de possuir o estatuto da obtenção de “borlas”, sem bilhete, para a geral no topo do teatro onde até se via o filme melhor do que da plateia ou do balcão. A temporada do teatro, no inverno, eram os eventos que a população de alta e média classe apreciavam. A moda mais apreciada, entre as senhoras era o casaco de peles e um chapéu na cabeça. Os maridos, embora nem todos, usavam o laço no pescoço. Era, assim o átrio do São João, antes do começo das peças de teatro, um espaço de elegante. Durante três anos fiz parte do elenco teatral! Fui actor/figurante em várias peças ao preço de dez escudos por sessão. Para mim foi uma experiência emotiva ter estado no palco do São João com a fina flor, da época, dos melhores actores teatrais de Portugal. Entre os que me lembro: Palmira Bastos, Amélia e Mariana Rey Colaço (mãe e filha), Carmem Dolores, Meniche Lopes (por quem me apaixonei silenciosamente!) Robles Monteiro, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Luis Filipe, Ribeirinho (como encenador) João Perry (um miúdo na altura) e outros, cujos nomes se apagaram, na minha memória. As peças exibidas no São João eram as clássicas e, onde, entre várias, foram representadas a “Terceira Palavra”, o “Prémio Nobel” e a “Inês de Portugal” e, no contexto dos actores fui inserido, claro está, como figurante. Na peça “O Prémio Nobel” o meu papel era o de um polícia no tribunal onde seria julgado o Nobel em Medicina (Raul de Carvalho) e era acusado, pela inconsolável esposa por não lhe ter salvado o marido na operação que lhe efectuara. Foi-me entregue a farda policial e uns sapatos pretos. O uniforme era do tipo usado no século XIX que não me assentavam, por falta de pano e cabedal, a farda no corpo e os sapatos nos pés. Fiquei um polícia desajeitado e motivo de “chacota” entre os meus colegas e dos homens que puxavam as cordas dos cenários do palco. Escárnio, apenas no primeiro dia, porque na outra representação já o Raúl alfaiate da rua de Cimo de Vila, que me fazia um fato por ano e lho pagava aos “soluços”, já lhe tinha dado um jeito. Durante essa injusta “chacoteada”, passou junto, ao grupo de actores “mudos” Robles Monteiro com o seu inseparável “caquinho” num olho e ao aperceber-se do escárnio parou e de voz forte que o caracterizava disse: “ Um figurante é um actor...... só não fala! Respeito, meus senhores, pelo actor!”

Caminhos da História - Joel Cleto
http://videos.sapo.pt/buNQsWIknTYqI4lNvFZE

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