sábado, 8 de junho de 2013

QUINTAS DO PORTO E ARREDORES - IX

2.13.18 - Quinta do Campo Alegre


No séc. XVIII era chamada Quinta Grande, e pertença da Ordem de Cristo. Em 1802, o médico francês Jean Pierre Salabert, fabricante de "chapéus finos", comprou-a e passou a ser conhecida como Quinta Grande do Salabert. Após as Invasões Francesas foi confiscada pelo Estado ao seu proprietário, tal como muitas outras propriedades de cidadãos desta nacionalidade. Por altura da Revolução Liberal de 1820, já era propriedade de João José da Costa e, posteriormente de Arnaldo Ribeiro Barbosa. Em 27/2/1875, a propriedade foi adquirida à sua viúva D. Carolina Augusta da Costa Barbosa por João Pereira da Silva Monteiro, "brasileiro de torna viagem", por 6 contos de reis. Este ordenou a demolição da antiga habitação e a construção de um palacete. Tendo tido necessidade de voltar ao Brasil, Silva Monteiro não regressou e não terminou a sua construção, pelo que não chegou habitá-la.


Vinte anos depois a quinta, que tinha uma área de 12 hectares, passou para a posse de João Henrique Andresen Júnior (1861/1900) e de sua mulher, Joana Andresen. João Andresen era filho do homónimo industrial e comerciante de vinho do Porto e foi avô dos escritores Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Ruben A. (1920-1975).


João Andresen concluiu o projecto de renovação da casa e dos jardins. Este industrial de Vinho do Porto dava grandes festas e recepções, das quais se destacou a passagem de ano de 1898, em que participaram mais de 500 pessoas.


Estas prendas poderão ter sido para a filha mais velha, Maria Joana, que casou em primeiras núpcias com Walter Stuve e depois com Wilhelm Thessen.



Roseiral



Quando os Andresen compraram a propriedade a casa estava bastante adiantada na sua estrutura, tendo-se preocupado de uma forma muito especial na construção dos jardins.






Desta importante família do Porto nasceram dois escritores: a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen e Ruben A - foto de 1958.


Lago com rapaz de bronze


“...num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas que o cobriam com os seus ramos. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz de bronze. E durante o dia O Rapaz de Bronze não se podia mexer e tinha que estar muito quieto, sempre na mesma posição, porque era uma estátua. Mas durante as noites ele falava, mexia, caminhava, dançava, e era ele que mandava nos jardins, no parque, no pinhal, nos pomares e no campo. E todas as árvores e todos os animais e todas as plantas lhe obedeciam porque ele era o senhor do jardim e o rei da noite”. Sophia, O Rapaz de Bronze (1965) – Na realidade o rapaz de bronze é uma senhora, mas Sofia descreve-o assim nos seus contos infantis.


Jardim de buxo cercado de japoneiras


“À medida que se avança no terreno contornando a casa surgem os Jardins de Sophia. Nestes espaços é possível reviver o universo ficcional de Sophia, que se inspirou nos jardins para escrever histórias infantis para os filhos. “O «Rapaz de Bronze» nunca foi rapaz, é na realidade uma senhora, mas temos de lhe chamar assim”, explicou Teresa Andresen, salientando que esta obra é de leitura obrigatória e o facto de as crianças lerem a história neste sítio motiva para a leitura. Aliás, as crianças ficam encantadas quando visitam o jardim e identificam os cenários das histórias. Além do «Rapaz de Bronze», é também possível entrar no universo do Jardim dos Anões do conto «A Floresta». O carvalho centenário onde vivia a personagem Anão Velho teve de ser derrubado, mas o toco foi mantido. “É um lugar para crianças, que incentiva à leitura, à ciência, à biologia. Tem uma potencialidade fantástica”, sublinhou Teresa Andresen, referindo que o projecto de ficcionação é da autoria dos arquitectos Paulo Farinha Marques e Ana Catarina Antunes.

Nas traseiras da casa destacam-se ainda o Jardim das Plantas Aquáticas (construído onde outrora estava o campo de ténis da casa da Quinta do Campo Alegre), a adega (que serve de depósito de água e é um dos edifícios mais antigos da Universidade do Porto), o Jardim das Plantas Anuais (que era a horta), o Roseiral e o Jardim dos Jotas (de João e Joana Andresen). Estes espaços estão separados por meio quilómetro de Camélias talhadas em sebes. “É único, mais ninguém tem, podia entrar para o Guiness”, salienta Teresa Andresen. A arquitecta paisagista salientou ainda que nestes jardins se encontram os cenários da obra de Sophia, por exemplo a glicínia, que envolve o caramanchão do Jardim dos Jotas”. Lúcia Pereira em As camélias das Japoneiras.


Jardim dos Jotas – fotos de manueladlramos 


Jardim dos Jotas 

“Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos. Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas… -Os jardins civilizados- são sempre jardins de buxo. Perto dos gladíolos estava um caramanchão com glicínias e bancos de azulejos… -Nos jardins antigos – diziam os gladíolos – há sempre azulejos. Os buxos, quando ouviam isto, sorriam e murmuravam com voz de buxo, que é uma voz pequenina, húmida e verde. –Nos jardins antigos havia buxo e azulejos, mas não havia gladíolos…” Sofia em O Rapaz de Bronze


Neste local está hoje instalado o Instituto de Medicina Legal.


Do Blog Porto Antigo 

Havendo a absoluta necessidade de ampliar o quartel da Guarda Municipal, o Jardim foi deslocado em 1903 para a Cordoaria, mas por muito pouco tempo, pois a Academia não tinha qualquer autoridade sobre esta praça, pelo que a única coisa que lhe era permitido fazer era classificar e etiquetar as plantas lá existentes. Desta forma, o Porto ficou privado do seu Jardim Botânico cerca de meio século. O Professor Américo Pires de Lima com a colaboração do alemão Franz Koepp, na sequência da compra da Quinta do Campo Alegre pelo Estado, em 1949, procedeu à sua adaptação para o Jardim Botânico da U.P., tirando partido do traçado de jardins e da vegetação já existentes ao gosto das quintas de recreio do Porto de finais do século XIX. Depois do atravessamento da propriedade pelos acessos da ponte da Arrábida, ela ficou reduzida a 4 hectares, eram 12, tendo conservado os jardins iniciais e na parte sobrante dos campos de cultivo e da mata foram sendo instalados novos jardins, nomeadamente de plantas suculentas e de aquáticas assim como um arboreto.




Foto blog Luademarfim


2 comentários:

  1. Boa tarde,
    Por acaso não me sabe dizer como posso tentar contactar o Prof. Germano Silva? Tenho uma dúvida que gostaria de esclarecer com ele e não consigo encontrar os contactos.
    Obrigado e cumprimentos
    Manuel Cortez Lopes - manuelopes@gmail.com

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